Rua histórica de Fortaleza é corredor cultural com cafés, museus, teatro e artesanato
Experiência de um dia inteiro na Rua Doutor João Moreira reserva agradáveis e ricos momentos.
Encontrar um lugar para salvar a rotina pode ser libertador. Encontrar vários lugares no mesmo endereço é matéria de privilégio. Fortaleza tem essa vantagem concentrada na Rua Doutor João Moreira. Em pleno Centro da cidade, o endereço reserva ampla gama de experiências a quem se dirigir até lá, do café da manhã ao passeio de fim de tarde.
O Verso experimentou passar uma manhã inteira na rua para saber que momentos ela oferece tanto a cidadãos da Capital quanto a turistas. Tem para todo mundo. Do início ao fim, toda a extensão do logradouro é manancial para desbravar cores, sabores, texturas, palcos, visualidades e, claro, sentir a cultura de Fortaleza pulsando por todos os lados.
Café Comércio, Museu da Indústria, Passeio Público, Teatro Carlos Câmara, Emcetur, loja de discos de vinil, Complexo Estação das Artes, Pinacoteca do Ceará e Museu Ferroviário formam, juntos, o tipo de rota que agrada de crianças a idosos, de jovens a casais.
O convite, de fato, é para que família e amigos estejam juntos no trajeto – embora a perspectiva de ir sozinho, com a calma necessária para observar, também seja irresistível.
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A seguir, você conhece detalhes de cada lugar explorado por nossa equipe. Quer seja nas férias, quer seja fora delas, a oportunidade é perfeita para aliar História, Cultura e diversão sem precisar gastar muito e com a praticidade de encontrar tudo no mesmo itinerário. Ponha mochila e boné, coloque uma roupa leve, e vamos lá.
Café Comércio
Se a intenção é começar o percurso de estômago forrado e num cantinho que parece saído das páginas dos livros de História, passar no Café Comércio é obrigatório. Aberto de segunda a domingo, de 7h às 17h, com opções de almoço a partir das 11h30, o ambiente é perfeito para um café da manhã daqueles.
A diversidade gastronômica do cardápio salta aos olhos, ao passo que detalhes arquitetônicos e a beleza do espaço – com exposição em cartaz no hall – favorecem a permanência por longos minutos.
Serviço
Rua Dr. João Moreira, 207, Centro. Funcionamento: segunda a domingo, de 7h às 17h; almoço, de 11h30 às 15h. Mais informações pelas redes sociais do café
Museu da Indústria
Terminado o lanche, hora de mergulhar em parte da história cearense, sobretudo no que diz respeito ao café. É um dos instantes oferecidos na programação do Museu da Indústria por meio da exposição “Caminhos do Café no Ceará”, com visitas mediadas aos fins de semana.
A mostra combina objetos, painéis, utensílios e infinidade de informações acerca do tema. Uma cafeteria no andar superior do prédio e o restaurante Aconchego são opções gastronômicas possíveis para quem deseja experimentar variedade de delícias e sabores brasileiríssimos. Outro cantinho para se demorar.
Serviço
Rua Dr. João Moreira, 143, Centro. Funcionamento: terça a sábado, de 9h às 17h; aos domingos, de 9h às 13h. Entrada gratuita. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Passeio Público
Caminhar entre as árvores, sentar no banco para conversar, observar o oceano ao longe ou se fartar de delícias. Tudo isso pode ser feito no Passeio Público, espaço de suspensão no Centro, oásis verde e frondoso no qual o passeio pode continuar ou até mesmo finalizar, a depender da rota preferida.
Da fonte histórica ao baobá centenário, um dos destaques culturais do espaço é o Café Passeio, com cardápio para lanche e almoço e, aos fins de semana, apresentações musicais. É leve, simples e excelente.
Teatro Carlos Câmara
Reaberto em novembro de 2025, é desses recantos para silenciar os ruídos da cidade e ingressar na arte. Com programação divulgada semanalmente, o Teatro Carlos Câmara oferta gratuitamente ao público a oportunidade de conferir espetáculos, participar de oficinas e embarcar em shows.
Uma das ações fixas neste momento é a exposição “Retratos”, de Bob Wolfenson, com registros de algumas das mais importantes personalidades brasileiras. Além disso, o próprio espaço do Teatro é belíssimo, com amplo pátio e belíssimos murais. Não deixe de ir.
Serviço
Rua Dr. João Moreira, 471, Centro. Funcionamento: quintas e sextas, de 10h às 20h; sábados, de 12h às 19h. Entrada gratuita. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Emcetur
Eis um lugar que, caso você queira passar o dia inteiro, não apenas é possível, como aconselhável. Primeiro equipamento turístico do Ceará, o Centro de Turismo traz desde artesãos confeccionando produtos às portas das próprias lojas até itens como castanhas, rapaduras, entre outras iguarias de nosso paladar.
Bistrô, quiosque apenas de sucos naturais e outro com produtos regionais completam a experiência, além, claro, de todo o charme e importância de ocupar um ambiente que outrora foi uma cadeia pública.
Serviço
Entrada principal pela Rua Senador Pompeu, 350, mas também pela rua Doutor João Moreira. Funcionamento: de segunda a sexta, de 8h às 17h; sábados, de 8h às 15h; domingos e feriados, de 8h às 12h. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Freelancer Discos
Saindo da Emcetur, basta passar a pista, logo ao lado do Teatro Carlos Câmara, para dar de cara com CDs, vinis, fitas cassete, entre outras preciosidades de tempos antigos, mas sempre atuais. A Freelancer Discos é um deleite para os apaixonados por música.
Tocado pelo simpaticíssimo Alex, o cantinho por vezes protagoniza até apresentações informais de artistas, num misto de encanto e despojamento. Nascida no Quintino Cunha, a loja faz do corredor cultural da Rua Doutor João Moreira um lugar bem mais sonoro e boêmio.
Serviço
Rua Dr. João Moreira. 485, Centro. Funcionamento: de segunda a sexta, de 9 às 17 horas; sábado, de 9h às 15h. Mais informações pelas redes sociais da loja
Complexo Cultural Estação das Artes
No fim da João Moreira, o imponente prédio branco faz convite certeiro: entrar e se deixar levar pela pluralidade. A palavra é bandeira do Complexo Cultural Estação das Artes, com programação para todos os públicos – a infância é contemplada sobretudo aos domingos pela manhã.
Shows, exposições, oficinas, entre outras atividades, fazem parte do roteiro do equipamento, cujo interior abriga o Mercado AlimentaCE, espaço para vivenciar o “Ceará de Comer”, com produtos da terra e toda a simplicidade e sofisticação deles.
Serviço
Rua Dr. João Moreira, 540, Centro. Funcionamento: quinta-feira, 12h às 18h; sexta e sábado, de 12h às 22h; domingo, de 10h às 15h. Entrada gratuita. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Pinacoteca do Ceará
Outro prédio branco irrecusável é o da Pinacoteca do Ceará. De ações como yoga ao pôr do sol a visitas mediadas por exposições que estimulam o pensar criativo e senso crítico, o lugar é perfeito para explorar as diferentes possibilidades da arte.
A programação é totalmente gratuita e conta com quatro pavilhões expositivos, além de um café no qual família e amigos podem se reunir para fazer aquele lanche entre uma atividade e outra.
Serviço
Rua 24 de maio, s/n, Centro. Funcionamento: quarta a sexta, de 10h às 18h; sábado, de 12h às 20h; domingo, de 10h às 17h. Entrada gratuita. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Museu Ferroviário Estação João Felipe
Nossa última parada – e a que sugerimos a você também – é o Museu Ferroviário Estação João Felipe. Verdadeiro portal para o Ceará antigo, tem diversos atributos que o colocam como um dos melhores programas para toda a família, em especial às crianças.
Prova disso são os itens expositivos à altura do olhar delas, além de objetos como maquetes, miniaturas, mapa interativo e até projeção que simula a passagem de um trem pelo local. É inesquecível e pra lá de agradável, conexão valiosa entre passado e presente.
Serviço
Rua 24 de maio, s/n, Centro, no mesmo prédio da Pinacoteca do Ceará. Funcionamento: quarta a sexta, de 10h às 18h; sábado, de 12h às 20h; domingo, de 10h às 17h. Entrada gratuita. Mais informações pelas redes sociais do equipamento
Uma rua cheia de História
Tanta efervescência de gente e cultura em um só endereço é justificado: tem ecos históricos. Professor da graduação e do mestrado em História da Universidade Estadual do Ceará, Gleudson Passos explica que a Rua Doutor João Moreira surgiu como via pública em 1816, a partir de reformas propostas pelo engenheiro militar português Silva Paulet.
Entre outros objetivos, ele previa alinhar as ruas e quarteirões da até então modesta e pequena cidade de Fortaleza. “A rua corta o terreno da antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção – o forte hoje conhecido como 10ª Região Militar. A rua principal, hoje Sena Madureira ou ‘Rua da Direita’, como era chamada, iniciou o alinhamento das outras. Perpendicular a ela, estava a segunda rua da cidade, justamente a Doutor João Moreira”.
Não à toa a coexistência de tantos prédios históricos em um só corredor, haja vista o começo do alinhamento urbano da Capital ter iniciado ali. O professor recorda que, na segunda metade do século XIX, a João Moreira passou a ser chamada de Ladeira da Misericórdia devido à construção da Santa Casa de Misericórdia, ainda hoje instalada no logradouro.
“Essa rua resguarda boa parte do fim do século XIX e começo do século XX, em que temos uma ocupação efetiva da cidade de Fortaleza, um crescimento econômico e populacional devido ao ciclo do algodão. Ela é registro disso”, frisa Gleudson Passos.
Endereço da elite
Professor de História da Universidade Federal do Ceará, Sebastião Ponte complementa a visão. Segundo ele, o centro da cidade, no fim do século XIX, por ser moradia de elites e camadas médias, bem como lugar do comércio, das repartições públicas e dos principais logradouros e equipamentos de lazer, foi o espaço exclusivo das reformas urbanas modernas da época.
A área recebeu embelezamento, praças ajardinadas, bondes, cinemas, lojas chiques, cafés, mansões, palacetes, academias científicas e literárias, entre outros equipamentos.
“A região da rua Dr. João Moreira começou a se valorizar com a construção da Santa Casa de Misericórdia, nos anos 1860, mas incrementou-se sobretudo nos anos 1880 com o surgimento do Passeio Público e da Estação Ferroviária – atraindo, por conseguinte, a construção de ricas residências, como a da família Teles de Menezes, e de suntuosas edificações como a que abrigou a Sociedade União Cearense, depois o Grande Hotel do Norte e que hoje sedia o Museu da Indústria”, detalha.
Morar ou se estabelecer nesse endereço, assim, passou a ser sinônimo de status social na Fortaleza de então; hoje, a proeminência cultural revela outras camadas da mesma rua, e é fruto do trabalho de iniciativas públicas e privadas.
“O que hoje conhecemos como Corredor Histórico da Rua Doutor João Moreira passou por intervenção municipal da administração da até então prefeita Luizianne Lins. Ela trabalhou, no início dos anos 2000, na requalificação do Passeio Público, para torná-lo um espaço de atividades culturais, compreendendo Pré e Carnaval, e a instalação do Café Passeio”, situa Gleudson. “A partir dali, outras atividades foram surgindo e se consolidando”.
Ideia para ser replicada em outros bairros
Se, por um lado, essa movimentação tornou o roteiro mais qualificado para cidadãos e turistas, por outro o professor defende que essa dinâmica deveria ser replicada em vários outros bairros da Capital. É forma de tornar a cidade ainda mais atraente para quem é de dentro e de fora.
“Se o poder público reorientar a população, trazendo profissionais para ocupar imóveis e desenvolver atividades com esses fins – de cafés, de teatro, de entretenimento de maneira geral, com atrações culturais (um dos exemplos seria a Casa do Português, na Avenida João Pessoa), certamente Fortaleza se tornaria um atrativo turístico mais seleto, familiar, capaz de não agregar tantos infortúnios ligados a atividades ilícitas”.
E conclui: “Essa requalificação nos bairros de Fortaleza ajudaria a redistribuir atividades; circular renda e capital; gerar oportunidades de emprego para além do Centro; e transformaria a cidade em um polo de referência para o turismo cultural”.