Carnaval de Fortaleza 2026 reafirma tradição, movimenta economia e projeta identidade
Cultura transforma a cidade. O Ciclo Carnavalesco de Fortaleza, espalhado por 25 palcos neste ano de 2026, busca refletir o que a Capital de fato é: "extremamente plural", nas palavras da secretária municipal da Cultura, Helena Barbosa.
De hoje até terça-feira (17), mais de 100 apresentações fortalezenses e nove atrações nacionais se distribuem em oito palcos oficiais, além dos vários blocos independentes que ocupam os bairros em todas as regionais.
Destaque do Carnaval da capital cearense, a avenida Domingos Olímpio vira, por mais um ano, passarela das nossas tradições de maracatus, afoxés, blocos e sambas, além de estrear como palco para shows nas noites de segunda e terça-feira, com shows de nomes como Jorge Aragão, Chico César e Luxo da Aldeia.
Pesquisa realizada em 2025 mostrou que para cada R$ 1 real investido pela Prefeitura de Fortaleza no Ciclo Carnavalesco, houve retorno de R$ 6 para a economia da cidade.
Em crescimento e construção, o Carnaval de Fortaleza vem se transformando nos últimos anos, com maior número de palcos e novidades e cada ano de folia.
Nesta matéria especial do Verso, gestão municipal e artistas que fazem a festa avaliam o que caracteriza o Ciclo Carnavalesco local hoje e quais caminhos ainda precisamos percorrer para fortalecê-lo.
“As pessoas consomem cultura, e a cultura aciona uma rede de geração de renda e de circulação de dinheiro. É muita gente. E digo mais: no formato que desenhamos, esse dinheiro não fica em uma área, mas em toda a cidade”.
Entre os principais pontos elencados pelos entrevistados está o valor cultural dos festejos, além do impacto econômico em diversos setores, como política pública de investimento.
Carnaval em Fortaleza é construção histórica
O cantor, compositor e produtor Pingo de Fortaleza é um dos nomes que se liga de forma direta aos festejos carnavalescos de Fortaleza. Tendo atuado junto ao Maracatu Az de Ouro entre 2000 e 2007, ele atualmente é produtor, cantor, compositor e coordenador geral do Maracatu Solar, onde são desenvolvidos diversos projetos realizados no período e ao longo de todo o ano por todo o Ceará.
Na avaliação do artista, o Carnaval atual de Fortaleza está "com certeza mais fortalecido do que em décadas anteriores". "Para termos uma ideia, em 1998 sequer aconteceu o carnaval da Domingos Olímpio. Apenas o Maracatu Nação Baobab desfilou, em forma de protesto, em função da ausência total de apoio nesse período", recupera.
"1998 foi a culminância do esvaziamento do Carnaval de Fortaleza, porque nós tínhamos atividades do pré, mas não tínhamos o Carnaval, e ainda vivíamos aquele esvaziamento decorrente da ida das pessoas para as cidades interioranas"
Para Pingo, as mudanças que fortaleceram os festejos na Capital vieram na virada para os anos 2000. No próprio ano de 2000, ele lembra do estabelecimento de diálogo entre a Federação das Agremiações Carnavalescas com a então Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza, antecessora da atual Secultfor.
"Nós temos uma contribuição muito importante que foi a ligação do pré com o Carnaval, com um edital que solicitava que os grupos de pré-Carnaval desfilassem no sábado na Domingos Olímpio, oportunizando essa ligação que depois veio ocorrer", aponta. O artista lembra que, na época, houve até a realização de shows na avenida de nomes como Moraes Moreira, "antecipando" movimento retomado em 2026.
O "fôlego" possibilitado a partir de 2005 foi ainda mais fortalecido por ações tanto do poder público, quanto de foliões.
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Cultura popular é base do Carnaval de Fortaleza
Um dos pioneiros a ocupar a avenida Domingos Olímpio, o Afoxé Acabaca celebra 20 anos em 2026. "Ele surge num contexto em que não havia afoxés no Ceará, no sentido de que não existia a categoria, não chegaram a desfilar na avenida", contextualiza Larissa Caúla, presidenta da agremiação.
A também socióloga e pedagoga de formação aponta, inclusive, que o nome oficial do Acabaca — Associação Cultural Afro-Brasileira Bloco Afoxé Camutuê Alaxé — relembra o ineditismo da agremiação. "A gente colocou 'bloco' porque não existia afoxé, então a gente não tinha como desfilar".
Após movimentações da Associação Cultural Afro-Brasileira Bloco Afoxé Camutuê Alaxé - nome oficial do Acabaca - e de outros afoxés e demais agremiações, a categoria específica foi depois oficializada.
"O afoxé tem essa característica de levar para a avenida temáticas que aproximem as pessoas de uma visão antirracista, sensível em relação às religiões afro-brasileiras. A postura de não disputar foi nesse sentido. Por nossa felicidade, nesse ano, pela primeira vez, nenhum afoxé vai disputar", destaca a presidente e socióloga.
Para Larissa, a cultura popular que ocupa a Domingos Olímpio nos quatro dias de festa é "o coração do Carnaval de Fortaleza".
"Quando estava tudo fervilhando, existia o desfile. Quando tudo diminuiu um pouco e o Carnaval deu uma esfriada, o desfile continuou. O que mantém firme o Carnaval de Fortaleza são as agremiações carnavalescas. Somos nós, os maracatus, os blocos, as agremiações que estão ali segurando a mão da cidade no Carnaval e não soltam nunca", afirma.
A professora de música e produtora cultural Juliana Eva, que passou por diversos grupos carnavalescos da Capital – como o Acadêmicos da Casa Caiada e o Damas Cortejam, bloco feminista pioneiro que atuou por dez anos na Cidade – reforça a importância das agremiações de cultura popular para o fortalecimento da identidade dos fortalezenses.
A artista, que é trabalhadora do Carnaval há mais de uma década e hoje canta no grupo Banzo Beat e dirige o projeto Farra na Jangada, relembra que manifestações culturais, como o maracatu, também conectam os indivíduos à cidade onde vivem, criando um sentimento de pertencimento.
"Pode parecer uma coisa muito simples você pegar um tambor e tocar na rua, mas é muito maior do que isso. A gente se conecta mesmo com a cultura e com essa manifestação que é mantida há muito tempo por muitas pessoas antes da gente. Tem essa força intrínseca da ancestralidade que realmente penetra e transforma", pontua.
Para a artista, o caráter popular da folia carnavalesca tem se mostrado mais forte nos últimos festejos da Capital, com a retirada de áreas VIP e criação de polos em diferentes pontos da Cidade. No entanto, os blocos de rua ainda merecem mais atenção, aponta.
"Teve um aumento no valor dos dois credenciamentos, de artistas e de blocos, mas o de bloco ainda não contempla [o valor necessário]", explica. "A gente tem um 'hiperfoco' no palco, sendo que Carnaval é rua".
A vocalista entende, no entanto, que a festa carnavalesca da Cidade ainda está "em construção", mas avançou na última década. "Quando eu comecei, Fortaleza virava uma cidade fantasma do Carnaval, era um lugar para quem gostava de descansar", relembra.
Neste ano, o Farra na Jangada sairá em cortejo, de forma independente, na terça-feira de Carnaval (17), às 16h, na Praça da Gentilândia.
O Afoxé Acabaca também desfila na próxima terça-feira, às 18h45, na avenida Domingos Olímpio. A programação de desfile abre às 17 horas e o polo encerra a agenda com shows do Bloco Luxo da Aldeia e do cantor Chico César.
A economia da cultura
Fortaleza está entre os 10 destinos mais procurados para passar o Carnaval, conforme Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). Mais que demarcar um espaço de hype frente a outras praças – por vezes no próprio Ceará, que também realizam o evento –, o interesse de Helena Barbosa enquanto titular da pasta cultural é traçar e incentivar melhor a identidade carnavalesca de nossa gente.
Secultfor estuda possibilidade de inserir o trio elétrico para edições futuras da festa, ampliando os espaços de circulação dos foliões, e de levar o horário dos shows para um pouco mais tarde.
“Nossa identidade é a das tradições, e é preciso fortalecer isso, criar estratégias de projetar o que já somos, muito mais que disputar se estamos ou não mais ‘bombados’, mais hypados. Outros carnavais conseguiram chegar nisso porque houve investimento direto em quem eles são, na própria essência de cada um. Tem uma coisa que é mais forte do que qualquer estratégia de publicidade e propaganda de um produto: conseguir construir e incentivar a autoestima e a relação de pertencimento nosso com a nossa cidade. Aquela coisa do orgulho”, aponta Helena Barbosa.
Em termos de impactos econômicos, o produtor cultural e artista Pingo de Fortaleza atesta: "A visão de que a economia criativa não tem espaço na economia geral é muito atrasada porque, na realidade, a economia da cultura está inserida dentro de uma cadeia muito grande de produção, conhecimento, serviços, mercadorias".
Para o artista, os festejos movimentam recursos que são diluídos em diversos setores da economia. "Você tem desde os ambulantes até os prestadores de serviços nas áreas técnicas e artísticas. Os próprios artistas também fazem parte dessa cadeia e são muito importantes, músicos, compositores, cantores, coreógrafos. Nos blocos, tem todo um conjunto de atividades de confecção de fantasias que envolvem desenhistas, carnavalescos, costureiras, aderecistas. Tem toda a parte da produção", elenca.
"É uma economia bastante vasta, que envolve muita gente e que, portanto, tem que ser entendida como o fortalecimento de um conjunto de pessoas que participam efetivamente do processo da construção dessa economia criativa", completa o artista.
É reducionista, no entanto, limitar o valor da cultura ao impacto financeiro. "A economia é importante porque é inerente ao Carnaval, mas existem outros valores que precisam ser muito lembrados e são determinantes na construção de algo que vai se perpetuar". Estes valores, defende ele, incluem mais apoio e valorização daquilo que vem sendo construído como identidade da festa de Fortaleza.
Pingo reforça ainda a importância de reconhecer e manter tradições, mesmo que sejam de uma construção recente, dos últimos 25 anos. Para o artista, Fortaleza ainda precisa avançar nesse sentido, pois mesmo grupos e polos que se consolidaram passaram por alterações neste ano.
"Se você verificar em outros lugares, essas iniciativas (mais tradicionais) são muito mais valorizadas, para que realmente você consolide a sua história e a sua memória. Se não, você fica sem a base", afirma.
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"É preciso ter consciência da construção da memória, algo que às vezes nós não temos em Fortaleza, infelizmente, que é a valorização de algo construído que se consolide e que vire memória, tradição e identidade. Se você não tem essa preocupação, (o Carnaval) vai crescendo, mas dentro de um modismo que é volátil e que amanhã pode deixar de existir e ninguém vai perceber", conclui.
Por que o Carnaval importa
Para além das atividades e movimentações propostas pela secretária para o Carnaval de Fortaleza, há um posicionamento claro sobre a relevância da cultura para um povo. Dialoga sobretudo com nossa soberania.
“Nada traz mais soberania para um povo do que a identidade cultural. Nada. E, por mais que você diga que não goste de cultura, está todo mundo vibrando, por exemplo, de que o Wagner Moura está no Oscar. Isso é sobre cultura”
“A pandemia provou isso também, ao demonstrar o que conseguiu trazer mais bem-estar e equilíbrio emocional pra gente. Não é um trabalho que surge do nada. Para a gente ter um filme no Oscar ou em Cannes, por exemplo, é preciso ter políticas firmes e consolidadas no audiovisual, e assim também em outras linguagens. Não existe soberania sem passar pelo traço da identidade cultural. Uma nação que não é soberana é uma nação dominada. E uma nação dominada é uma nação falida”, completa.
Com frequência, um discurso que coloca o Carnaval como um segmento de menor importância na sociedade justifica que o dinheiro deveria ser aplicado em outras áreas. Pingo de Fortaleza, no entanto, rebate a tese: investimentos em cultura não se resumem ao investimento direto no fazer artístico, pois reverberam para além dos festejos.
"Dizer que o dinheiro da cultura é um dinheiro que não é investido na saúde é um equívoco, porque o fazer cultural gera saúde. Gera emprego e renda, fortalecimento das comunidades, fortalecimento da construção da memória, da ancestralidade, das lutas contra o machismo, a intolerância racial e religiosa", ressalta o artista.
Para Larissa Caúla, a importância que a cultura ocupa na vida da população ainda é subdimensionada, diante da relevância do segmento. "O Gilberto Gil já dizia que a cultura tem que ser igual feijão com arroz, tem que estar no prato do brasileiro. Ele resumiu tudo aí para mim, nesse sentido que a cultura é tão importante quanto a comida que está nosso prato, porque ela também é nosso alimento".
Os agentes que fazem o Carnaval de Fortaleza reafirmam algo essencial: cidades são feitas também de cultura, de memória e de projetos de futuro.