Bloco 'A Turma do Mamão' impulsiona arte no Moura Brasil há mais de 50 anos
Bloco de carnaval de Fortaleza mobiliza a comunidade do bairro com alegria e inclusão social.
Carnaval no Moura Brasil é coisa séria. É tradição, acesso à cultura e arte, estímulo à sociabilidade, inclusão social e, até, “produção de saúde”. O principal propulsor desse movimento no bairro de Fortaleza é o bloco A Turma do Mamão, criado em 1975 e importante agremiação do calendário carnavalesco da Capital.
Inicialmente estabelecida como “bloco de sujo” — ou seja, alternativo e independente aos oficiais da programação carnavalesca —, a agremiação que surgiu como grupo informal formado por quatro amigos soma, hoje, cerca de 200 integrantes, além de movimentar centenas de corações do bairro.
Envoltos nas preparações para as apresentações de pré-Carnaval, e na expectativa para o desfile na av. Domingos Olímpio, integrantes da Turma do Mamão — ou “mamoeiros”, como se autointitulam — partilham ao Verso memórias deste meio século e celebram os impactos positivos do bloco para a coletividade do Moura Brasil.
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Do início informal...
Era Carnaval de 1975 quando quatro amigos do bairro pegaram instrumentos emprestados do Liceu do Ceará e foram às ruas “fazendo batucada”. “Os meninos saíram tocando, o pessoal começou a andar atrás”, inicia Raimundo Barros, atual coordenador do bloco e cunhado de um dos fundadores, hoje já falecido.
Quando o grupo passou por uma feira de rua, “um cara com caixote na cabeça levando mamão” se uniu à festa. “O cara continuou até o final do cortejo e o pessoal (gritava) ‘ó, a turma do mamão!’”. O nome pegou.
“Em 1976 já saiu maior, já começaram a ensaiar”, lembra. Foi no ano de estreia do Mamão que Raimundo começou a namorar Ana Lúcia Barros, a Lucinha, atual presidente da agremiação.
“Eu vi acontecer, mesmo não estando dentro, mas sempre vendo o movimento e a família. Depois, outras famílias aqui do bairro se juntaram”, segue. Fotos e registros da época, explica o atual coordenador, são raros.
Foi nos anos 1990 que ele aproximou do bloco e passou a atuar diretamente nos trabalhos para fazer a folia acontecer.
O envolvimento dos moradores foi tão grande que A Turma do Mamão virou premiada antes mesmo de entrar no calendário oficial do Carnaval de Fortaleza. “Na época, o bloco com uns 20 anos, começaram a premiar os alternativos e, nessa brincadeira, ele foi cinco vezes campeão”, diz Raimundo.
...à entrada no ciclo carnavalesco oficial
Ao longo dos anos 2000, a agremiação se integrou aos festejos oficiais da capital cearense — tanto nos desfiles da avenida Domingos Olímpio, ainda como alternativo, quanto em programações de pré-carnaval no próprio Moura Brasil.
“Foi até por incentivo da própria Prefeitura na época, ‘vocês já estão grandes demais’. Começamos a sair com incentivos, editais”, explica Raimundo. O primeiro desfile como bloco oficial, competindo, se deu em 2012.
Nessa época, a professora aposentada Zélia Sales, de 81 anos, se juntou à Turma do Mamão. Moradora do Moura Brasil, ela acompanhava o bloco como espectadora desde o início.
“Conheço os criadores e não é de agora. Quando começou, eram do chamado ‘bloco dos sujos’, passavam na nossa rua e a gente acompanhava”, partilha a foliã. Com a oficialização dele no calendário, segue Zélia, ela e “um grupo de amigas, senhoras e jovens”, decidiram se unir.
“Falamos com a Lucinha e criamos a nossa ala, a ala das virgens, que é muito querida, muito amada por todos. Inclusive, na avenida, nós somos muito bem aplaudidas”, diverte-se. No desfile, ela partilha a experiência com a filha.
De início, todas as integrantes confeccionavam as próprias fantasias. Depois, uma costureira passou a fazer as roupas, mas elas seguem “enfeitando” e “fazendo muita coisa” para garantir qualidade nos desfiles e shows.
Um bloco de samba
De 2012 para cá, já foram quatro títulos conquistados, sendo o mais recente em 2025, quando o Mamão levou para a avenida o tema “Uma Folia Sertaneja: o Carnaval com Rachel de Queiroz”.
Em 2026, o enredo do bloco é “Fortaleza 300 anos — O Mamão no tempo da Brilhantina”. “No desfile que a gente vai ter no dia 16, segunda-feira de Carnaval, nós vamos disputar o quinto título”, contextualiza Raimundo, que também graceja: “Só tem um problema nesse bloco: ele só quer ser campeão”.
Além do desfile, a agenda dos prés também já está estabelecida e conta com apresentações na Praça Santa Edwiges, no Moura Brasil, além de shows no Centro Cultural Belchior e na Estação das Artes.
“Nos pré-carnavais, além de ensaiar o nosso samba-enredo, cantamos sambas-enredos do Rio de Janeiro. Somos um bloco que, se eu tivesse mais uma coragenzinha, estava lá na Beira-Mar”, brinca.
Afeto, saúde e inclusão social
Com pouco mais de 3 mil habitantes, segundo informações do Censo de 2022, o Moura Brasil fica localizado entre a Jacarecanga e o Centro. Não é possível afirmar de fato, mas a adesão ao bloco parece ser quase total na visão dos mamoeiros.
“É uma afeição muito grande que a gente tem, um carinho bem especial. É como se fosse uma grande família. Quase todo mundo aqui do bairro faz parte do Mamão. Quando não dançam, vão para a avenida para assistir”, garante Zélia.
A relação é tamanha, segundo Raimundo, que não há “ex-brincantes”. “Quem já brincou e não brinca mais não deixa de lembrar. Tem uns que faz 10 anos que não brincam mais, mas chegam aqui na época do carnaval (dizendo) ‘quero comprar camisa do bloco’, ‘o que precisa para ajudar aí?’”, orgulha-se.
Inicialmente uma iniciativa de amigos e depois acolhida pelas famílias, A Turma do Mamão se desenvolveu como uma ação marcadamente coletiva, comunitária. “Nós temos a comunidade ajudando a gente”, celebra o coordenador. “O bloco A Turma do Mamão é muito ligado ao Moura Brasil”, resume.
Carnaval, afinal, é coisa séria. “A gente passa a ser um negócio cultural. Trabalha com pessoal de terceira idade, é ligado à saúde”, exemplifica Raimundo. Tanto no ano passado quanto em 2026, A Turma do Mamão conta com pessoas em situação de rua nos desfiles.
A ação se deu em parceria com a Estação das Artes, equipamento cultural vizinho ao bairro, e o Núcleo de Ação Comunitária (Naca) do Instituto Mirante. Raimundo ainda destaca a escolinha de ritmistas, voltada a moradores do Moura Brasil, que também recebe apoio da Estação.
“O pessoal (de lá), por ser aqui no nosso território, nos ajuda muito. Ela chegou nos ajudando mesmo, acreditam no nosso trabalho”, reconhece.
Um dos membros da diretoria da agremiação é João Almeida, médico de família e comunidade do posto de saúde Maria Cirino, que fica no Moura Brasil. O mestre em Vigilância Popular e Saúde pela Fiocruz trabalha na unidade desde 2018 e, em 2019, entrou no bloco.
“Entre uma consulta e outra, vi na sala de imunização a Lucinha, técnica de enfermagem, que é a diretora do Mamão, escrevendo um rascunho. Fiquei curioso, fui conversar e ela mostrou que era o rascunho da música do enredo do carnaval”, relembra.
Interesse nascido, João passou a trabalhar no bloco ajudando na confecção de fantasias e também desfilando. Em pouco tempo, adentrou a diretoria, com foco em produção de mídias para as redes sociais, além de seguir contribuindo em outras áreas.
Pela experiência do médico, A Turma do Mamão “traz identidade para o Moura Brasil e, ao mesmo tempo, vai mudando a narrativa que a sociedade tem do bairro, aquela que a TV e as mídias colocam, de violento”, observa.
“O bloco mostra outra face, que é a verdadeira. As pessoas querem trabalhar, gostam de cultura, gostam do carnaval, são solidárias, buscam unidade. É uma narrativa mais próxima da realidade do Moura Brasil”
João acrescenta que o bairro é, historicamente, local de coletividades. “O Moura Brasil é pequeno territorialmente, mas tem diversos coletivos de vários setores: de mulheres, idosos, crianças, mães atípicas, crianças neurodivergentes, de luta, a Turma do Mamão. Dá para nomear 20 ou mais”, contextualiza.
“Enquanto médico de família, da vigilância popular em saúde, o que faço muitas vezes é encaminhar pessoas para esses coletivos. Por mim e também pela ciência, eles são vistos como espaços de coletividade que se transformam em espaços para melhorar a saúde mental das pessoas. Dá para fazer terapia ocupacional confeccionando, tem outras pessoas, conversas, se enturmam. São espaços de produção de saúde”, define.
Acompanhe o bloco
- Instagram: @blocoaturmadomamao
A Turma do Mamão no Ciclo Carnavalesco 2026
29 de janeiro, quinta
- Quando: 19 às 22 horas
- Onde: Praça Santa Edwiges, ao lado da Igreja Santa Edwiges (av. Leste Oeste - Moura Brasil)
30 de janeiro, sexta
- Quando: 18 às 19 horas
- Onde: Centro Cultural Belchior (rua dos Pacajús, 123 - Praia de Iracema)
- Quando: 20 às 22 horas
- Onde: Praça Santa Edwiges, ao lado da Igreja Santa Edwiges (av. Leste Oeste - Moura Brasil)
5 de fevereiro, quinta
- Quando: 19 às 22 horas
- Onde: Praça Santa Edwiges, ao lado da Igreja Santa Edwiges (av. Leste Oeste - Moura Brasil)
6 de fevereiro, sexta
- Quando: 16 às 18 horas
- Onde: Estação das Artes (rua Dr. João Moreira, 540 - Centro)
- Quando: 19 às 22 horas
- Onde: Praça Santa Edwiges, ao lado da Igreja Santa Edwiges (av. Leste Oeste - Moura Brasil)
16 de fevereiro, segunda
- Quando: horário a ser divulgado
- Onde: av. Domingos Olímpio