BBB: por que algumas violências são punidas e outras premiadas?

No Quarto Branco, o sofrimento não foi um "efeito colateral" da dinâmica, ele foi o próprio mecanismo da dinâmica.

Escrito por
Maria Camila Moura verso@svm.com.br
Legenda: No BBB 26, o programa ressuscitou o Quarto Branco, um espaço sem conforto algum, com luz branca, sem distinção possível entre dia e noite, frio, alimentação reduzida à água e bolacha, ruídos, sons perturbadores.
Foto: Globo / Divulgação.

Uma semana da nova edição do Big Brother Brasil e o programa já nos convoca à reflexão. Não apenas pelos conflitos entre os "brothers", mas por ter escancarado nossa dificuldade coletiva de reconhecer certas violências, principalmente, quando elas vêm embaladas de "superação" ou "teste de resistência". 

O programa ressuscitou o Quarto Branco, um espaço sem conforto algum, com luz branca, sem distinção possível entre dia e noite, frio, alimentação reduzida à água e bolacha, ruídos, sons perturbadores. Sirenes, choros, gritos de bebês. Em determinado momento, as luzes se apagam, potencializando ainda mais os estímulos sonoros. Em outro momento, todos os ruídos estridentes são acionados simultaneamente. 

Foram 120 horas sob estresse contínuo, sem banho, sobrevivendo à base de água e bolacha. Um jornal estrangeiro chamou o espaço de "quarto da tortura" e comparou-o a métodos de tortura utilizados em prisões como Guantánamo. O Quarto Branco foi encerrado após uma participante desmaiar e, ironicamente, perder ali mesmo a vaga tão desejada. Me questiono o que se ensina ao grande público quando alguém é "punido" (privado de entrar no programa) porque seu corpo colapsou. 

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O mesmo programa que, corretamente, afirma não compactuar com violências e expulsa qualquer participante que cometa violência física ou sexual, produz, deliberadamente, sofrimento como entretenimento. O sofrimento foi embalado pela retórica da superação; o ambiente hostil foi apresentado como "desafio" e quem mais suporta a privação é celebrado como "guerreiro".

Mas guerreiros lutam contra inimigos. No Quarto Branco, não há inimigos externos. O "inimigo" é o próprio corpo: o sistema nervoso sobrecarregado, a confusão mental, a fome, o cheiro do próprio corpo após dias sem banho. Ali não houve heroísmo, mas submissão em troca de pertencimento, em troca da chance de entrar no jogo

A produção destacou que todos os participantes estavam sendo avaliados por médicos. No entanto, vale lembrar o que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) nos diz: saúde não é ausência de doença, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social. E absolutamente ninguém sob aquelas condições do Quarto Branco estava bem. Havia privação de sono, de higiene, cognição prejudicada, o corpo em constante estado de alerta, caminhando para a exaustão completa.  

Participantes do reality show Big Brother Brasil estão deitados e amontoados no chão do Quarto Branco, todos vestindo macacões brancos e cercados por paredes. O ambiente monocromático é quebrado apenas pelas latas de bebida azuis espalhadas ao redor e pelos tênis dos integrantes em destaque no primeiro plano.
Legenda: No Quarto Branco houve a produção deliberada de sofrimento psíquico e corporal, por meio de estímulos sensoriais agressivo e da privação de sono, alimento e de dignidade básica.
Foto: Globo / Reprodução.

No Quarto Branco houve a produção deliberada de sofrimento psíquico e corporal, por meio de estímulos sensoriais agressivos (as luzes brancas, os ruídos perturbadores) e da privação de sono, alimento e de dignidade básica. Ali, o sofrimento não foi um ‘efeito colateral’ da dinâmica, ele foi o próprio mecanismo da dinâmica.  

Estamos em 2026, já não podemos reduzir o conceito de violência apenas a agressões físicas ou sexuais visíveis. A imposição sistemática de condições que ultrapassam os limites do corpo humano, que provocam desorganização mental e ferem a dignidade também é violência, ainda que venha com patrocínio, prêmios e uma narrativa de superação. 

Vivemos na sociedade do desempenho, que chama exaustão de mérito. O BBB apenas reflete, em escala televisiva, o que já acontece fora da casa: quem aguenta mais violência é aplaudido; quem cai, quem desmaia, quem adoece é descartado. 

Alguns dirão que ninguém foi obrigado a ficar, que os participantes podem desistir a qualquer momento. À primeira vista, esse argumento pode até parecer razoável, mas é raso. Ninguém é "obrigado" a permanecer em relações abusivas; ninguém é obrigado a aceitar trabalhos precarizados. Ainda assim, a justiça reconhece que a liberdade atrofia diante da coerção, diante de relações assimétricas de poder. E quando o prêmio é a chance de mudar de vida, desistir deixa de ser uma simples escolha e passa a ser renúncia à possibilidade de uma vida melhor

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Ontem um participante tentou beijar uma "sister" sem consentimento, percebeu "o que não deveria ter acontecido" e apertou o botão de desistência.  O apresentador do programa, corretamente, repudiou a atitude e disse que ele teria sido expulso do programa caso não tivesse desistido.  

Fica, então, a contradição: por que uma violência é intolerável e outra é premiada? Por que violar um corpo por desejo sexual gera expulsão imediata, enquanto violar corpos pela privação, pelo frio, por ruídos estridentes, pela fome e falta de banho gera aplauso, premiação, patrocínio e narrativa heroica? 

É preciso reconhecer que há uma banalização perigosa da violência psicológica, que quando é apresentada de forma lucrativa, transmitida ao vivo e patrocinada vira ‘prova de resistência’. 

Participantes do BBB 26 correm e gritam entusiasmados ao entrar na casa, vestindo macacões brancos com faixas pretas e cordões verdes. A cena captura um momento de intensa euforia e movimento, com os integrantes saindo do quarto branco para o cenário da casa do reality.
Legenda: Suportar absurdos, muitas vezes, é apenas ausência de possibilidades de escolha, desespero travestido de mérito.
Foto: Globo / Divulgação.

E tudo isso acontece com um dinheiro cenográfico exposto na sala aos participantes. Um montante de dinheiro que parece recompensar limites ultrapassados, violências e funciona, simbolicamente, como justificativa para normalizar o inaceitável. 

O problema não é o Big Brother em si. O programa pode, sim, prestar um serviço à sociedade ao fomentar debates e ao repudiar com veemência certas violências. A contradição está em combater uma violência enquanto ensina, e premia, a suportar outro tipo de violência; em repudiar o assediador, mas celebrar quem enfrentou as condições degradantes impostas no Quarto Branco. Não são guerreiros, são submissos. Não é entretenimento, é banalização da violência. 

E, talvez, o mais perturbador de tudo sejam os aplausos, o público que vibra quando alguém "aguenta", que transforma submissão à violência em virtude, em prova de valor. Suportar absurdos não é sinônimo de grandeza. Muitas vezes, é apenas ausência de possibilidades de escolha, desespero travestido de mérito. 

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