Por que fonte interativa é 'pobrice' no Centro e patrimônio em outros lugares?

Praça do Ferreira revela banho de água e banho de classe.

Escrito por
Maria Camila Moura verso@svm.com.br
Legenda: Praça do Ferreira ganhou uma fonte interativa na requalificação. Na internet, pessoas criticam com comentários preconceituosos a interação das pessoas com a fonte.
Foto: Kid Junior.

Depois de anos de abandono, a Praça do Ferreira ganhou novo fôlego. Piso renovado, iluminação, melhorias na acessibilidade e uma surpresa: água saindo do chão, uma fonte interativa. Água jorrando em praça pública, um merecido refresco para uma cidade em verão permanente.

Mas bastou o primeiro registro de crianças e adultos se divertindo na fonte para que as redes sociais se transformassem em um tribunal de castas e jorrassem comentários preconceituosos: ‘banho de pobre’, ‘chafariz de mendigos’, ‘vergonha alheia’, ‘Era uma fonte ou um banho comunitário!?’, ‘Pobre fazendo pobrice’, ‘Palhaçada’.

Comentários encharcados de desprezo. Torrentes de superioridade social. Aquela água refletiu corpos que incomodam, corpos que muitos fingem não existir, corpos sistematicamente inviabilizados.

Aquela água revelou o horror de alguns ao vislumbrarem esses corpos, não pela perspectiva do sofrimento, mas da alegria, molhando os pés, se refrescando.

Para alguns, a miséria não escandaliza, mas um pobre que ousa brincar em uma fonte interativa, sim.

Curiosamente, não muito longe dali, em área nobre da cidade, na Praça Luiza Távora, onde circulam carrinhos de bebê importados e pets com pedigree, também existe uma fonte interativa. Ali, a água virou poesia urbana, símbolo de uma ‘cidade viva’: gerou selfies, risadas, a celebração da inocência das crianças brincando, ‘que cidade linda estamos construindo!’. O mesmo dispositivo, duas recepções antagônicas. A diferença? A demografia, os corpos que se banham.

E, se atravessarmos o Atlântico, encontraremos em Bordeaux, na França, uma das cidades mais refinadas do mundo, seu cartão postal, o célebre Miroir d’Eau: uma lâmina rasa de água sobre o chão, que reflete o céu e os prédios no entorno (uma arquitetura tombada, considerada patrimônio da humanidade). Esse espelho é interrompido periodicamente pela água que ‘explode’ do chão, uma fonte de água interativa sob o céu de Bordeaux.

De julho a agosto, época do escaldante verão europeu, essa fonte traz alívio e diversão aos que passam. Turistas e moradores locais se refrescam; crianças se banham, correm descalças, escorregam, riem; idosos aproveitam, caminham sob a água – um divertimento para todos, orgulho coletivo do povo bordelense, um espetáculo urbano que se tornou ícone da cidade e que ninguém ousaria chamar de ‘pobrice’, mas de patrimônio.

Há alguns meses, levei meus filhos para conhecerem esse famoso cartão postal de Bordeaux. Brincamos, rimos, fizemos registros lindos. Postei as fotos desse momento precioso. As reações? Emojis de coração, comentários afetuosos, ‘que sonho!’.

Parece que o banho em praça pública só encanta quando é internacional, quando os banhistas cabem em certo imaginário de classe.

Portanto, é preciso, ainda que com certo incômodo, nos perguntarmos: Por que uma fonte de água interativa é cartão-postal em Bordeaux, celebrada na Praça Luiza Távora, mas no Centro de Fortaleza é ‘pobrice’ e motivo de ‘vergonha alheia’? Por que quando mudamos de CEP, o que era lazer se transforma em escárnio? Porque o problema não é a água, mas quem está se molhando. Há corpos autorizados a brincar, a se refrescar; outros devem permanecer invisíveis.

Veja também

Oito milhões de reais foram investidos para revitalizar a Praça do Ferreira. Mas não existe obra pública capaz de drenar séculos de hierarquia social cimentada em nós. A praça pode estar nova, mas o olhar permanece mofado.

A fonte da Praça do Ferreira poderia gerar o encontro inusitado de todas as classes, estamos todos sob o mesmo sol escaldantes, desejosos de água fresca. No entanto, por enquanto, apenas revelou o pavor de ver fronteiras sociais se dissolvendo na água.

Os fortalezenses pedem justiça social aos seus governantes, no entanto, a primeira gota de água pública já desperta o desejo de remoção, higienização, expulsão. Queremos justiça social, mal longe de nós. Queremos espaços de convivência, desde que não haja mistura social.

Alguns defenderam que fosse proibido o acesso à fonte, que a fonte deixasse de ser interativa e servisse apenas de cenário. Querem a estética da água, mas não a ética do convívio. É a convivência que aterroriza.

A praça foi revitalizada. Falta, ainda, revitalizar o nosso olhar e lavar nossos preconceitos.

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.