O que a casa do BBB 26 ensina sobre impacto emocional da decoração e arquitetura
Estímulos visuais nos cômodos impactam participantes do reality e, na vida real, também podem mexer com as emoções de moradores.
Temática onírica, decorações com referências a dinheiro e às Olimpíadas, cores fortes, iluminação constante, menos camas do que moradores e um só banheiro para mais de 20 pessoas.
No “Big Brother Brasil”, estímulos visuais intensos e desconfortos são elementos que moldam a dinâmica das relações e do jogo dentro do reality. A partir da decoração e da arquitetura desta 26ª edição, o Verso propõe um olhar para os impactos emocionais desses aspectos na vida dos moradores — sejam eles os da casa mais vigiada do Brasil ou da sua.
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Especialistas ouvidas pela reportagem atestam: cores, estampas e formas têm significativo impacto nas emoções e no comportamento. “Esses estímulos e a conexão da mente humana com os espaços construídos são amplamente estudados e explicados pela neuroarquitetura”, expõe a arquiteta Ana Caroline Dantas.
Professora do curso de Design de Interiores e coordenadora técnica da Especialização em Arquitetura de Interiores da Universidade de Fortaleza (Unifor), a docente explica que tais elementos influenciam “como as pessoas se sentem e em como elas interagem dentro dos ambientes”.
Cores, por exemplo, “atuam de maneira psicológica e sensorial”. Em diálogo a designer de interiores Luciana Brasileiro exemplifica: “Se você tem uma cor clara, ela vai te deixar mais calma. Se usa cores muito vibrantes, ao longo do tempo esse ambiente vai te deixar estressado, agitado, desconfortável”.
É por isso que, como Ana Caroline resume, a casa do BBB “é pensada estrategicamente para atuar no campo psicológico e comportamental dos participantes”. “O estratégico uso das cores vibrantes e contrastantes, aliado a uma iluminação intensa, mantém os sentidos constantemente estimulados”, aponta.
O resultado? Redução da monotonia, estado de alerta ligado e potencialização de reações emocionais, “o que favorece atitudes mais impulsivas, competitivas e intensas dentro do jogo”.
Elementos decorativos auxiliam nessa aposta. Na sala, por exemplo, as paredes e mesas contam com adornos que referenciam diretamente moedas e cédulas. “Esses símbolos, como dinheiro e relógio, reforçam o ponto principal do jogo, que é ganhar o prêmio”, aponta Luciana.
Além dos elementos monetários, há também na casa decorações que referenciam as Olimpíadas e competições esportivas. “Esses símbolos atuam como ‘gatilhos’ inconscientes, reforçando a condição de competição a que os ‘moradores’ estão submetidos”, compreende Ana Caroline.
A temática principal da casa neste ano, segundo a TV Globo, são os sonhos. Um dos quartos, por exemplo, é batizado de “Sonho de Voar” e outro, de “Sonho do Amor”. O terceiro é batizado de “Eternidade”. No jardim, um painel com imagens oníricas reforça a mensagem.
“A inusitada mistura de elementos lúdicos com exagero proposital cria um ambiente que tira os participantes da zona de conforto. A sensação de estar em um espaço ‘fora da realidade’ intensifica emoções, aumenta a tensão e estimula comparações, alianças e rivalidades”, observa a professora.
Da casa do BBB para a própria casa
O que no reality show é estratégia de produção para instigar os participantes na vida real pode ser considerado um erro. Característica do BBB, a “confusão visual” nos cômodos, como define Luciana, é “a pior coisa” dentro de um ambiente de lar.
“A forma que o BBB se utiliza realmente é para competição, aflorar cada sentimento, ter competitividade cada vez mais forte. Não é o caso da nossa casa, lugar do refúgio, da segurança, da proteção”, ressalta a designer de interiores.
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Para trazer impactos emocionais positivos no próprio lar, as especialistas destacam: é importante fazer escolhas que façam sentido para a própria realidade. “O autoconhecimento é muito importante na construção de um lar”, atesta Ana Karenyna, colunista de decoração e organização do Verso.
“Uma casa não fica pronta por um arquiteto, por um designer que a gente contrata. A casa é construída aos poucos com as nossas memórias e com coisas que a gente gosta. Não existe nem certo e nem errado numa decoração, mas sim no que faz sentido para a gente”
A casa não refletir o morador é ressaltado também pela professora Ana Caroline como uma questão negativa para a vivência no local. “Copiar tendências genéricas sem considerar o estilo de vida e a personalidade de quem vive no espaço pode gerar estranhamento e desconexão emocional”, aponta.
Ana Karenyna reforça: há aspectos que ajudam uma casa a ficar mais aconchegante — “a gente tem que ter a altura de cortina certa, o espaço de circulação, o tamanho do tapete ideal proporcional ao tamanho do sofá, a altura da TV ficar confortável para assistir” —, mas é o toque pessoal que faz um lar.
“Nossa casa tem que ser construída com as nossas memórias, a gente olhar pra dentro para ver o que a gente gosta, colocar cores, elementos, fotos, vivência, viagens”, aponta.
No entanto, há certos elementos que podem ser boas escolhas para buscar potencializar esse aconchego, como as especialistas compartilham:
- Uso de cores neutras com a presença de cores estimulantes ou decorações mais chamativas em pontos de destaque, por exemplo, contribui com equilíbrio e conforto visual;
- Aproveitar a iluminação natural caso seja possível e criar camadas na artificial, evitando luz excessivamente branca, forte ou mal direcionada e optando por temperaturas de cores mais quentes em áreas de descanso;
- Respeitar escala, circulação e ergonomia, adequando mobiliário ao ambiente e evitando móveis e objetos que gerem sensação de aperto e desconforto físico e psicológico;
- Presença de decorações em materiais naturais e texturas sensoriais, como madeira, linho, algodão, pedra natural e fibras, além de elementos como plantas, jardins internos e vistas para áreas verdes;
- Aposta em mobiliários com cantos arredondados, curvas e volumes fluidos para transmitir organicidade, leveza, fluidez e sensação de calma.
Outro ponto de atenção para o aconchego do lar está na organização, que “impacta diretamente no nosso bem-estar”, lembra Ana Karenyna. Um dos desafios do BBB é, justamente, a convivência com desconhecidos. Brigas por sujeira, por exemplo, não são incomuns.
“São pessoas criadas de forma diferente, com hábitos diferentes, estilos diferentes de viver, então é tudo muito caótico e claro que isso vai afetar a cabeça deles, a forma que eles lidam com o dia-a-dia”, aponta.
“Costumo dizer que todo objeto precisa ter um ‘endereço’ para, depois do uso, voltar para o canto. Lá no Big Brother está todo mundo desorganizado, troca de quarto, então não há conforto”, segue Ana.
Em uma correlação com a prática diária no próprio lar, a colunista lembra: não é preciso buscar perfeição, mas, sim, equilíbrio. Comportamentos básicos podem ajudar na criação desse bem-estar.
“Não é esforço nenhum. São cinco minutinhos diários que a gente tira pra arrumar a cama, colocar as coisas que saíram do canto no lugar, para que tudo flua”, reforça.