Qué rico és ser latino

Bad Bunny faz no Caribe e no mundo o mesmo que a nossa música: transformar vivência regional em linguagem global.

Escrito por
Silvero Pereira vers@svm.com.br
(Atualizado às 12:05)
Foto: Neilson Barnard-Getty Images via AFP

Ele é o momento! Bad Bunny vem fazendo história no mundo da música, transformando sua arte em um ato de celebração e afirmação da cultura latino-americana no cenário global. Aqui, diretamente do Ceará-Brasil, te conto como nós temos muitas coisas em comum com o trabalho do porto-riquenho.

Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bunny, tem um repertório musical com base sólida no reggaeton e no trap, mas com muitas misturas percussivas, ritmos caribenhos, como a salsa, o mambo e a plena, influências africanas e uma pitada de funk. Contudo, o que nos assemelha não é necessariamente o tipo de melodia, mas de letra.

Pegando como exemplo o forró, um ritmo que é autenticamente brasileiro, e o reggaeton de Bad Bunny, encontramos canções profundamente ligadas à vida em comunidade, com letras que narram histórias de amor, festa, resistência e orgulho. Ambas, expressões de identidade cultural popular de seus lugares. E é claro que se uma música internacional chega ao Nordeste brasileiro, instantaneamente já vira forró. O cearense Felipe Amorim já fez a sua versão do hit “Debí tirar más fotos”.

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Outros pares das músicas de Bad Bunny são o samba e o funk. É impossível não enxergar as semelhanças: o samba, pelas origens de tradições afrodescendentes, forte presença periférica, de cultura negra, canções que falam de comunidade, de celebração e história da rua; o funk por tudo isso e ainda pelo viés da música urbana, de favela, com batidas eletrônicas marcantes, repetitivas, feitas pra dançar. Samba, Funk e Reggaeton são gêneros muitas vezes colocados como algo inferior, periférico e marginalizado.

Sim, eu sei, forró, samba, funk, reggaeton e trap são ritmos diferentes em linguagens, mas são expressões culturais que compartilham o mesmo papel social da música: abordar a vida cotidiana, a identidade, o amor, a política, a denúncia, o sentir e o dançar. Bad Bunny faz no Caribe e no mundo o mesmo que a nossa música: transformar vivência regional em linguagem global.

Daqui do Brasil, onde o forró sempre foi tratado como um gênero inferior, o funk ainda é criminalizado e muitas expressões culturais negras e periféricas seguem fora do grande circuito, ver um artista latino ocupar o centro do mundo cantando em espanhol e exaltando a própria cultura reforça que não precisamos nos embranquecer, nos suavizar, nos esconder ou nos gentrificar para sermos universais.

Viva Bad Bunny!

 

*Este texto expressa, exclusivamente, a opinião do autor

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