Como o Carnaval de Paracuru virou meme e um dos símbolos da folia cearense
Entre paredões, mela-mela e vídeos virais, conheça a história da cidade que ajudou a moldar o jeito de viver o Carnaval no Ceará.
Certos áudios só o cearense entende. O do Carnaval de Paracuru é um. Aquele que começa, “Ei, negada, só pra avisar que dia 10 de dezembro agora é o pagamento da primeira parcela da casa do Carnaval do Paracuru. Quem não pagar, tá fora, agora quem vai pagar vai tá dentro”.
De origem incerta, a produção se tornou um hit, embora não apenas: transformou em ainda mais icônica a folia no município, distante 80 quilômetros de Fortaleza.
O meme – anualmente repaginado, com uma das últimas edições feitas pela humorista Evila Muniz – espelha algo maior: como a festa na cidade ganhou alcance nacional e foi uma das primeiras a definir o jeito made in Ceará de curtir o tempo de Momo. Tem a ver sobretudo com tradição. Neste 2026, são 51 anos de história entre paredões, mela-melas e novidades.
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“Começamos exatamente em 1975, e não houve nenhuma pretensão de negócio ou de cunho político ou comercial. Era só brincadeira”, conta Raimundo Well, fundador do Carnaval de Paracuru. À época, ele tinha 24 anos. Junto aos irmãos, Luis Weber e Meirinha, formou um grupo que simplesmente gostava de curtir. “Agregado a isso, vieram primos e toda a família Albuquerque Lima, nascida e criada na cidade. Nossos ancestrais”.
Aos desavisados, o embrião da festa surgiu não na cidade em si, mas em Fortaleza. Todo sábado à tarde, a partir de 15h, Raimundo e companhia se reuniam atrás do Náutico Atlético Cearense, no bairro Meireles, para desfrutar de canções diversas ao som de um carro automotivo, estilo “paredão”. A coisa deu tão certo que começou a lotar a Beira-Mar.
Em época de Carnaval, porém, face à programação dos clubes, a turma deixou a concentração no Náutico e rumou para o Morro do Granville – situado entre o Edifício Granville e a Avenida Beira-Mar. “Aparentemente, ficou até bom pra gente porque aquela subida do Morro serviu de arquibancada”, detalha Raimundo. Um colega de Pernambuco, porém, mudou tudo.
Dedé, como era conhecido, mantinha uma Kombi “transadinha”, no dizer de Raimundo, em que vendia, entre outros quitutes, cachaça e tira-gosto de caldo de feijão com camarão. Sucesso absoluto entre a clientela, um dia o ambulante foi provocado pelo trio de irmãos a levar a banquinha para Paracuru e, assim, promover o mesmo movimento lá.
Não deu outra. Na nova paisagem, escolheram um lugar para estacionar, colocar o isopor e iniciar a venda dos produtos. O que Raimundo, Dedé e os irmãos não contavam é que toda a turma de Fortaleza embarcaria na proposta e também se deslocaria para o município. “Chegamos aqui, e em 1975 começou o carnaval de Paracuru”.
Como formar a cara do Carnaval de Paracuru
Aglomerada a turma, o passo seguinte foi certo: qual seria a identidade da folia que ali se iniciava? “Precisava dar uma cara ao menino”, pensou Raimundo. “No Ceará ainda não havia a tradição de carnaval de rua. Havia os carnavais de clube e os desfiles na Avenida Duque de Caxias, de samba, cordões… Mas de orla, de concentração de jovem, não tinha. O mais próximo era o mela-mela na Avenida Dom Manuel, cruzando a Duque de Caxias”.
Imbuído dessa missão, em 1977 o carnavalesco viajou para Olinda e Salvador de modo a conferir de perto como tudo acontecia lá – a animação no Rio de Janeiro, por ter residido na cidade durante a adolescência, ele já conhecia.
De volta ao Ceará, decidiu incorporar, por meio de paredões mesmo, grandes sucessos do axé music que começavam a se formar. Canções como “We Are The World Carnaval”; “A Roda”, de Sarajane; e “Fricote”, de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, foram lançadas diretamente em Paracuru. “Assim, começamos a atravessar fronteiras”.
O ápice e verdadeiro divisor de águas nessa dinâmica foi o fato de a cidade protagonizar reportagens carnavalescas no programa Fantástico durante três anos seguidos.
O motivo? O lançamento na cidade de “Batuquê de Praia”, de Fagner com participação de Zico, dois ícones de projeção nacional; e o fato de esse pequeno cantinho no litoral cearense ter garra e cacife suficiente para reunir hordas e hordas de foliões capazes de trocar festas bem mais clássicas em outros Estados para permanecer no próprio solo.
“Tudo era do nosso bolso, ninguém contava com Prefeitura, com nada. Era uma turma arrojada que custeava a brincadeira”. Prova disso foi o alcance já naquele período. Reportagem do Diário do Nordeste de 1983 enfatizava: “Nossa praia mais agitada não negou fogo e o carnaval foi, com certeza, o mais animado da região das praias”.
Em 1995, por sua vez, o jornal registrou a presença de um trio elétrico na festa do município pela primeira vez. Quatro anos depois, a veia solidária da festa deu o tom a partir de doação de cestas básicas, medicamentos, óculos de grau e outros artigos à população.
Mela-mela, aluguel de casas, festa na praça
O tempo tratou de conferir outros aspectos ao Carnaval de Paracuru. Em face da produção de fécula de mandioca no município – o saquinho com a iguaria era vendido a R$ 0,50 na década de 1980 – a dinâmica de foliões jogar goma um no outro, além de outros alimentos, virou sensação e deu feição própria à festa na cidade.
Outro detalhe importante que se perpetuou para todo o Ceará foi o costume de reunir turmas para alugar casas de praia. No início, conforme Raimundo, não se pensava na possibilidade.
“O pessoal dormia na rua, na calçada da igreja; depois veio a onda de camping – eram muitas barracas, a ponto de invadir as praias. Com o tempo, as pessoas foram conhecendo mais a cidade, alugando casas, se interessando em comprar terreno para construir moradias, e pescador passou a ser pedreiro”. Soma-se a esse panorama a diversão na praça, e estava formada uma tradição. História escrita com “h” maiúsculo.
Tem mais: em meados dos anos 1990, ainda acontecia o Carnaval da Ressaca, em Maranguape. No sábado seguinte aos dias oficiais de folia, a turma de Paracuru se dirigia para a Região Metropolitana de Fortaleza a fim de estender a alegria.
Para Raimundo, além das lembranças, fica a satisfação em dar o primeiro passo e consolidar um evento que até hoje é sinônimo de qualidade e celebração raiz.
“Não foi fácil. O comércio não tinha ideia de como ia ser, a cidade enfrentava superlotação, e não havia como atender a demanda. Mas o carnaval acontecia, e hoje está como está”, relembra.
O Carnaval de Paracuru se reinventa
Em 2026, a coisa se agiganta. A proposta é oferecer uma das maiores estruturas já montadas no litoral oeste do Ceará. A principal novidade é a Arena Paracuru Folia, novo espaço criado para concentrar grandes shows, de nomes como Wesley Safadão, Banda Líbanos, Pedro Sampaio, Forrozão Tropykália, entre outros.
O espaço terá 17 mil metros quadrados, capacidade para até 50 mil pessoas e fica localizado a 1,2 km da avenida principal. Contará com palco cenográfico inspirado nos símbolos da cidade, camarote para seis mil pessoas e área isolada. A diferença em relação a como tudo começou é grande, e reverbera o poder da fama conquistada entre os anos.
“Paracuru, por muito tempo, se consolidou como um dos melhores e maiores destinos turísticos durante o Carnaval, e vive essa ascensão. Chegou a dar uma diminuída, quando pensou em fazer um carnaval diferente, com trio elétrico, que não deu muito certo. Agora, com a retomada a partir de megaestrutura e bandas de renome nacional, alavancamos a festa”.
A fala é de Alex Santiago, secretário de cultura e economia criativa do município. Segundo ele, além da arena principal, ainda haverá outras quatro, com diversidade de atrações: para crianças e idosos, a partir de setlist de marchinhas de carnaval, frevos e músicas de antigamente; o tradicional mela-mela na Praça do Farol, com bandas e DJs; folia no palco Parazinho, com bandas de reggae e pop rock; e, na Praça da Matriz, no centro da cidade, um palco pluricultural com maracatus e bloquinhos.
“Há um público que vem pra Paracuru também para descansar, e não tinha opção para ele nos outros carnavais. Agora terá. A economia do centro, dos bares que ficavam fechados na grande festa, vai girar porque esses bares ficarão abertos. Serão cinco palcos, todos com opções diversificadas para quem vem brincar ou descansar ser bem recebido por nós”.
Para a cultura nunca acabar
O aquecimento é geral e alcança também outras esferas. Maestro Madiel Santos, da banda de música Mestre Pixuna – existente desde 11 de setembro de 2001 – diz que o compromisso do grupo está pautado em preservar e manter vivo o carnaval tradicional da cidade em mais um ano. A banda, desde o princípio das atividades, atua na cena.
“Não existe mais sonoridade específica do Carnaval de Paracuru. Por muito tempo, se ouviam marchinhas e frevos; depois, música baiana; atualmente, ouvimos até forró e sertanejo. Com o tempo tudo muda, mas o que esperamos é que a cultura nunca acabe”.
Secretária de Turismo da cidade, Yasmim Freire Carvalho diz que a curadoria do evento foi pensada no intuito de equilibrar atrações de grande apelo popular, ritmos tradicionais do carnaval e valorização de talentos do próprio município sem perder a essência da festa.
“Para além dos shows, o grande diferencial do Carnaval de Paracuru está na experiência como um todo. A cidade se prepara integralmente para receber moradores e visitantes, com reforço na segurança, organização dos espaços, incentivo ao comércio local e valorização das manifestações culturais”, contextualiza.
“Essa estrutura dialoga diretamente com a tradição do carnaval no município, que sempre foi marcado pela alegria nas ruas, participação das famílias e ocupação dos espaços públicos de forma festiva e acolhedora. O que fazemos hoje é preservar essa tradição, mas com um olhar contemporâneo, profissional e responsável”.
Na visão da gestora, o Carnaval de Paracuru é único porque une três elementos: programação artística de renome, beleza natural do litoral e acolhimento do povo paracuruense. “Essa combinação faz com que o evento ultrapasse as fronteiras do Estado, atraindo turistas de diferentes regiões do Brasil. Além disso, o crescimento da divulgação, a organização e o cuidado com a experiência do público têm contribuído para a projeção nacional”.