Como Pedro Sampaio passou de ‘DJ de autotune’ a fenômeno do pop no Brasil

Há anos no topo dos rankings da música nacional, Pedro emplacou diversos hits neste verão, com destaque para 'JetSki', que promete fazer sucesso no Carnaval 2026.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Pedro Sampaio em cena do clipe de 'JetSki'.
Legenda: Pedro Sampaio em cena do clipe de 'JetSki'.
Foto: Reprodução/YouTube.

Um DJ carioca que se tornou conhecido do público brasileiro na última década parece ter vencido a acirrada disputa pelo título de dono do “hit do Carnaval” deste ano – e talvez até com mais de uma música. Nas últimas semanas, o Pedro Sampaio emplacou a já onipresente “JetSki”, colaboração com Melody e MC Meno K, além de “Sequência da Feiticeira”, “Sequência Striptease” e “Sequência Cunt”.

Todos os hits foram lançados nos últimos três meses, já tendo em vista as festas de verão e o período carnavalesco, e têm feito sucesso em diversos estados do País. Nada de novo para a carreira do produtor musical, que tem sido presença frequente nas principais paradas musicais e destaque nos streamings desde seu primeiro grande sucesso, “Sentadão”, lançado em 2019.

A novidade – e possível motivo para a ampliação do público do artista – consiste na musicalidade e na estética das músicas mais recentes de Pedro, que tem se afastado cada vez mais do estilo mais engessado dos “DJs de arena”, como David Guetta e o brasileiro Alok, e se aproximado cada vez mais de elementos artísticos atrelados a artistas pop, como a mistura de gêneros musicais, o corpo de baile no palco e apresentações performáticas.

Além disso, se geralmente o caminho do sucesso é sair do público nichado para o mainstream, a carreira de Pedro talvez esteja se solidificando em trajetória contrária: de parcerias com artistas com milhões de streams, o artista passou a buscar colaborações com nomes do cenário independente, a exemplo da dupla Irmãs de Pau, da cantora e performer Tasha Kaiala e da DJ Clementaum, com quem Pedro divide a autoria de “Sequência Cunt”.

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Para Thiago Soares, professor do departamento de Comunicação do Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do grupo de pesquisa em Comunicação, Música e Cultura Pop, Pedro tem se destacado por complexificar a performance do DJ, profissão que há anos vem se transformando e se consagrando como um espécie de “popstar”.

Esse movimento, conta Thiago, começou a crescer quando os DJs passaram a ocupar não só boates e clubes, mas também arenas, incluindo elementos cênicos e performáticos em suas apresentações. 

“O que o Pedro Sampaio faz, que me parece ser um elemento diferente, novo, é que ele vai acrescentar a essa performance do DJ elementos do espetáculo pop”, destaca. Um dos destaques nesse sentido é o balé do artista, que ocupa o palco com Pedro assim como bailarinos ocupam os palcos em shows de divas pop. 

“Gradativamente, ele também vai incorporando uma certa dimensão ambígua entre a figura do DJ, que é essa figura que fica botando o som atrás, e do cantor”, completa Thiago.

Outro aspecto que aproxima o artista do pop e explica parte do sucesso recente do artista é o uso da música eletrônica conectada a ritmos populares do País, como o brega funk e o piseiro.

“A cultura de DJs é muito associada a subculturas, com elementos muito específicos, de identificações muito específicas: o techno, o house, o jungle, o drum ‘n’ bass. O que me parece ser interessante é a não vinculação dele a um único gênero, a um único subgênero da eletrônica. Me parece, na verdade, que ele fica brincando com esses subgêneros, com essas convenções”, conclui.

‘Hate’ fez parte da construção da carreira do artista

Em fevereiro, Pedro Sampaio será atração de festas de Carnaval no Ceará.
Legenda: Em fevereiro, Pedro Sampaio será atração de festas de Carnaval no Ceará.
Foto: Divulgação.

Marca registrada de Pedro desde o início da carreira, o uso exagerado do autotune – programa que corrige ou modifica a voz do artista – foi um dos principais motivos para que o artista, por anos, não fosse levado a sério pela crítica musical. O DJ, no entanto, já afirmou usá-lo de forma propositalmente “escancarada” e que não liga de ser chamado de “artista comercial”.

Segundo o professor Thiago Soares, essa postura demonstra que o artista já entendeu que até o “hate” pode ser utilizado de forma estratégica para alavancar uma carreira na indústria fonográfica. A ideia, aponta, é também monetizar as críticas, tornando-as viralizáveis, já que os “virais” também têm a ver com elementos “meio insólitos”.

“Me parece que parte da consagração dele se dá também por essa capilaridade em rede. Acho que ele tem um entendimento, do ponto de vista mercadológico, muito interessante de como funciona a engrenagem das redes”, pontua Thiago, que relembra as críticas que Pedro recebeu por “se apropriar” do brega funk em “Sentadão”.

“Na época, ele foi muito atacado, porque ele não era daqui e estava em voga aquele debate sobre apropriação cultural. ‘Ah, ele é carioca, está se apropriando da cultura de Pernambuco e tal’. Ele não respondeu aquele tipo de ataque, mas foi um ataque que eu acho que corroborou para a circulação dele”, completa Thiago. 

‘Sentadão’ foi feita em colaboração com o cantor pernambucano Felipe Original e, mesmo em meio às críticas, se tornou um dos primeiros expoentes do brega funk a nível nacional.

“Acho que ele incorporou muito bem essa dinâmica do ‘hate’ contra ele”, opina Soares. Para o professor, as táticas utilizadas pelo artista e sua equipe acabam por alimentar uma economia da especulação, o que causou interesse por sua obra.

Mas não só os questionamentos sobre a qualidade da produção musical de Pedro fizeram com que o artista se tornasse assunto nas redes e fora delas. Por anos, a sexualidade do DJ foi questionada – especialmente por ele “transitar com naturalidade por meios considerados muito heteros, artisticamente falando”, como o do forró e o do funk, destaca a jornalista, doutora em Comunicação e pesquisadora de cultura pop Mariana Lins

As especulações sobre sua vida pessoal seguiram até março de 2023, quando, durante uma apresentação no festival Lollapalooza Brasil, Pedro revelou publicamente sua bissexualidade, ao som de 'Toda forma de amor', de Lulu Santos. Para Mariana, o momento demarcou o início de uma nova fase na carreira do artista.

“Quando tem essa virada de ele assumir a sexualidade dele, acho que veio junto todo um capital também simbólico, né? É como se ele, de alguma maneira, ganhasse ali uma ‘chancela’ para atuar agora para outros públicos, com um destaque talvez maior para o público LGBTQIAP+”, opina. 

Para Mariana, a decisão de incorporar elementos pop em suas canções inclui uma estratégia que demonstra que Pedro está atento ao que tem acontecido no cenário da música. “Acho que ele vai pegando carona nessa onda sim, porque ele já percebeu que isso também é interessante do ponto de vista de mercado”, conclui.

A importância do ‘hit do Carnaval’

No palco, o artista mescla comando das pick-ups e momentos como cantor.
Legenda: No palco, o artista mescla comando das pick-ups e momentos como cantor.
Foto: Carmen Mandato/Getty Images North America/Getty Images via AFP.

A aproximação com elementos e artistas do pop brasileiro – como Anitta, Melody e Ivete Sangalo – é uma das respostas para o sucesso massivo que Pedro tem encontrado nos charts e fora deles. Presença confirmada em duas festas de Carnaval no Ceará, em Aquiraz e Paracuru, o dono do hit “JetSki” se utilizou de uma receita básica, mas eficiente, para lançar uma música que já se tornou a cara do Carnaval de 2026.

“As canções do Pedro Sampaio, sobretudo essas do disco ‘Sequências’, têm elementos que talvez sejam muito aderentes à própria estrutura das canções de Carnaval. São músicas muito simples, de estruturas muito simples, com refrões muito enfáticos, geralmente músicas que operam numa chave de duplo sentido, que é aquela música meio inocente, meio erótica”, aponta Thiago Soares.

“Em JetSki, ele brinca tanto com a metáfora do jet ski, essa coisa da brincadeira de você subir no jet ski, com uma metáfora sexual. Mas, sonoramente, a música tem uns chicotes”, pontua. “Ou seja, tem uma dimensão ali que tá na produção musical, que é uma brincadeira semântica verbal, mas é também uma brincadeira semântica sonora”, completa o pesquisador. 

Segundo Thiago, o uso de efeitos sonoros – considerado por muitos um aspecto negativo nas músicas de Pedro –, podem parecer simples demais, mas têm uma complexidade de outra ordem. “Não é a complexidade da palavra, da poesia. A complexidade dela está talvez nesse excesso de elementos sonoros”, finaliza.

Essa “complexidade simples” chega ao ápice ao alcançar o difícil status de hit de Carnaval, comenta Mariana Lins. “Diante de toda a revolução que houve nos últimos anos na indústria fonográfica, com a coisa da venda de discos, que praticamente não existe mais, e essa mudança para o streaming, o fato de você ter uma música considerada a música do Carnaval hoje equivaleria, para qualquer artista, a um ‘disco de ouro’ no passado”, avalia.

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