Entre o estilo elegante e vulgar
Duas palavras que carregam o juízo moral dos estilos, porém chamar alguém de elegante ou vulgar vai muito além da moda
Nada me irrita mais que conteúdos nas redes sociais, feito por mulheres, cheios da mais pura misoginia. Especialmente, quando esse conteúdo fala do estilo pessoal de mulheres classificando-os em “elegante” e “vulgar”.
Poucas palavras carregam tanta carga moral quanto “elegante” e “vulgar”. Elas parecem inofensivas, quase técnicas, mas, na prática, funcionam como carimbos sociais. Não falam só de roupa: falam de poder, dinheiro, gênero e pertencimento.
“Elegante” costuma ser o elogio máximo. É o adjetivo que sugere sobriedade, equilíbrio, discrição. Mas quem definiu que discrição é virtude universal? Ao longo da história, o que chamamos de elegância esteve quase sempre alinhado aos códigos das elites: tecidos caros, modelagens contidas, cores neutras, comportamento controlado e discrição. A elegância virou sinônimo de autocontenção, e autocontenção sempre foi exigida, sobretudo, das mulheres.
Já “vulgar” é a palavra que pune. Decotes profundos, brilhos excessivos, estampas chamativas, pele à mostra. Mas vulgar para quem? Em que contexto? O termo carrega uma herança moralista que mistura classe social e sexualidade. Não por acaso, ele aparece com frequência quando o assunto é o corpo feminino. Um homem extravagante pode ser excêntrico, ousado, criativo. Uma mulher com a mesma proposta é chamada de vulgar.
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Há também um recorte de classe difícil de ignorar. O que é considerado elegante em um bairro nobre pode ser visto como “simples” demais em outro contexto e o que nasce nas periferias, muitas vezes vibrante e inventivo, é rapidamente taxado de exagerado.
A moda que surge nas ruas, nos bailes, nas culturas populares, costuma ser celebrada apenas depois que passa pelo filtro de marcas de luxo ou editoriais sofisticados. Antes disso, é vulgar. Depois, vira tendência chamada de “ancestralidade”.
O problema não está nas palavras em si, mas na rigidez com que são usadas. Quando “elegante” se torna regra, ele limita a expressão. Quando “vulgar” vira sentença, ele envergonha e silencia. Classificar o estilo de mulheres como vulgar é, muitas vezes, uma forma de policiamento: do corpo, do desejo e da liberdade.
Estilo pessoal é comunicação e, como comunicação, pode ser um sussurro ou um grito. Há elegância no excesso, há potência no brilho, há sofisticação na ousadia.
Nem sempre o que é chamado de elegante é o mais interessante e o que rotulam como vulgar pode ser, na verdade, afirmação, identidade e prazer.
Em vez de taxar algo como elegante ou vulgar, podemos perguntar: isso expressa quem eu sou? Porque, no fim, estilo não deveria ser uma prova de bons modos.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.