Entre o estilo elegante e vulgar

Duas palavras que carregam o juízo moral dos estilos, porém chamar alguém de elegante ou vulgar vai muito além da moda

Escrito por
Elaine Quinderé producaodiario@svm.com.br
Legenda: Hoje em dia, elegância virou sinônimo de autocontenção.
Foto: Svitlana Sokolova/Shutterstock.

Nada me irrita mais que conteúdos nas redes sociais, feito por mulheres, cheios da mais pura misoginia. Especialmente, quando esse conteúdo fala do estilo pessoal de mulheres classificando-os em “elegante” e “vulgar”.

Poucas palavras carregam tanta carga moral quanto “elegante” e “vulgar”. Elas parecem inofensivas, quase técnicas, mas, na prática, funcionam como carimbos sociais. Não falam só de roupa: falam de poder, dinheiro, gênero e pertencimento.

“Elegante” costuma ser o elogio máximo. É o adjetivo que sugere sobriedade, equilíbrio, discrição. Mas quem definiu que discrição é virtude universal? Ao longo da história, o que chamamos de elegância esteve quase sempre alinhado aos códigos das elites: tecidos caros, modelagens contidas, cores neutras, comportamento controlado e discrição. A elegância virou sinônimo de autocontenção, e autocontenção sempre foi exigida, sobretudo, das mulheres.

“vulgar” é a palavra que pune. Decotes profundos, brilhos excessivos, estampas chamativas, pele à mostra. Mas vulgar para quem? Em que contexto? O termo carrega uma herança moralista que mistura classe social e sexualidade. Não por acaso, ele aparece com frequência quando o assunto é o corpo feminino. Um homem extravagante pode ser excêntrico, ousado, criativo. Uma mulher com a mesma proposta é chamada de vulgar.

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Há também um recorte de classe difícil de ignorar. O que é considerado elegante em um bairro nobre pode ser visto como “simples” demais em outro contexto e o que nasce nas periferias, muitas vezes vibrante e inventivo, é rapidamente taxado de exagerado.

A moda que surge nas ruas, nos bailes, nas culturas populares, costuma ser celebrada apenas depois que passa pelo filtro de marcas de luxo ou editoriais sofisticados. Antes disso, é vulgar. Depois, vira tendência chamada de “ancestralidade”.

O problema não está nas palavras em si, mas na rigidez com que são usadas. Quando “elegante” se torna regra, ele limita a expressão. Quando “vulgar” vira sentença, ele envergonha e silencia. Classificar o estilo de mulheres como vulgar é, muitas vezes, uma forma de policiamento: do corpo, do desejo e da liberdade.

Estilo pessoal é comunicação e, como comunicação, pode ser um sussurro ou um grito. Há elegância no excesso, há potência no brilho, há sofisticação na ousadia.

Nem sempre o que é chamado de elegante é o mais interessante e o que rotulam como vulgar pode ser, na verdade, afirmação, identidade e prazer.

Em vez de taxar algo como elegante ou vulgar, podemos perguntar: isso expressa quem eu sou? Porque, no fim, estilo não deveria ser uma prova de bons modos.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.