Mary Quant e uma revolução de poucos centímetros

Como a estilista londrina transformou a minissaia em símbolo de liberdade, juventude e insubordinação feminina nos anos 1960.

Escrito por
Elaine Quinderé ceara@svm.com.br
Legenda: Filha de professores que sonhavam com uma filha “respeitável”, Mary resolveu desde cedo contrariar expectativas.
Foto: AFP.

Mary Quant não foi apenas uma das criadoras da saia curta, ela ajudou a encurtar a distância entre o corpo feminino e a liberdade. Nascida em Londres, em 1930, filha de professores galeses que sonhavam com uma filha “respeitável”, Mary resolveu desde cedo contrariar expectativas.

Estudou ilustração, abriu uma loja chamada Bazaar na efervescente King’s Road e passou a vestir uma juventude que já não cabia nos padrões engomados do pós-guerra.

Nos anos 1960, enquanto a geração anterior ainda ajustava a bainha na altura “correta”, Mary puxava o tecido para cima, sem pedir licença. A minissaia não surgiu como um manifesto teórico, mas como resposta prática ao desejo das mulheres de se mover, dançar, trabalhar e ocupar a cidade. Era curta porque precisava ser. O resto virou escândalo.

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E aí está o ponto político da minissaia: ela não pedia licença. Ao expôr as pernas, expunha também a hipocrisia de uma sociedade que controlava o corpo feminino sob o disfarce do “bom gosto”. Usar minissaia era um gesto simples, mas radical.

Um “eu mando no meu corpo” antes mesmo de essa frase virar slogan. Não à toa, foi adotada por jovens trabalhadoras, estudantes e mulheres que não se viam representadas pela alta-costura distante e cerimonial.

Na imagem, fotografia de moda em preto e branco de uma modelo posando com um conjunto futurista dos anos 60. Ela veste uma jaqueta curta estruturada e uma minissaia clara. O destaque são as meias-calças de listras horizontais pretas e brancas que cobrem todas as pernas. A modelo usa um chapéu coco de aba larga com debrum contrastante e sapatos baixos bicolores. Ela está com as mãos na cintura, em uma pose dinâmica sobre um fundo infinito cinza claro.
Legenda: Ao expôr as pernas, a minissaia expunha também a hipocrisia de uma sociedade que controlava o corpo feminino.
Foto: Divulgação.

Mary Quant nunca se comportou como uma estilista solene. Defendia maquiagem acessível, roupas fáceis de vestir e moda como ferramenta de prazer, não de submissão. Enquanto alguns críticos acusavam a minissaia de vulgarizar a mulher, ela devolvia a pergunta: vulgar para quem? Para os olhos que não suportavam perder o controle?

A minissaia atravessou décadas, crises morais e reboots fashion, mas seu impacto original permanece. Ela ensinou que política também se faz com bainhas curtas, que revoluções podem começar no espelho e que estilo é, muitas vezes, uma forma bem-humorada de desobediência.

Mary Quant entendeu isso cedo e, com alguns centímetros a menos de tecido, ajudou a abrir espaço para muito mais liberdade.

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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