Looks que não pedem aplausos

Tem look que nem precisa de aplauso. Não pede, não faz questão. Wagner Moura e Alice Carvalho mostraram muito bem o que é isso no Golden Globes 2026.

Escrito por
Elaine Quinderé verso@svm.com.br
Legenda: O artista afirma que cultura e democracia caminham juntas em território brasileiro.
Foto: Etienne Laurent/AFP.

No Golden Globes de 2026, que aconteceu no fim de semana passado, Wagner Moura e Alice Carvalho deixaram claro que vestir-se não precisa ser um pedido de aprovação. Em uma noite marcada por produções calculadamente “instagramáveis”, os dois optaram por looks que pareciam conversar mais com quem eles são do que com o que o tapete vermelho espera.

Wagner chegou ao tapete vermelho em uma interpretação pessoal de alfaiataria feita sob medida por Ilaria Urbinati, com peças da Maison Margiela que transformam formalidade em expressão.

Em vez do smoking preto clássico, ele vestiu um blazer off-white de abotoamento duplo, com calça preta de caimento solto, criando um contraste que evitava o visual “fórmula de premiação”.

O toque mais conceitual ficou por conta das botas Tabi, ícone da Margiela com separação entre o dedão e os outros dedos: um detalhe que, para alguns, desafia expectativas e para outros pode até confundir quem busca apenas “beleza imediata”.

Esse conjunto parecia dialogar mais com identidade do que com aprovação: um homem que fez carreira contando histórias intensas e complexas apareceu com um visual que também é intenso e deliberado, sem recorrer ao lugar-comum do tapete vermelho.

Do outro lado, Alice Carvalho escolheu alfaiataria brasileira com assinatura da Normando, uma marca paraense que carrega outra forma de presença. O look consistia em um blazer de lã estruturado e uma camisa de gazar com lenço plissado, peças que foram pensadas para traduzir força e personalidade, sem a necessidade de seguir a cartilha habitual de glamour.

Esse conjunto, que respira nuances artesanais e uma certa sobriedade elegante, não buscava aplausos fáceis, mas sim representação e pertencimento: mostrar que a moda nacional tem voz própria e pode estar à altura de qualquer tapete vermelho internacional.

O que incomodou parte do público (e isso ficou claro nas redes sociais) foi justamente o fato de esses looks não tentarem agradar. Não havia desejo de viralizar, de entrar em listas de “mais bem vestidos” ou de atender expectativas externas.

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E talvez seja exatamente aí que mora a potência dessas escolhas: Wagner e Alice vestiram narrativas pessoais, trajetórias, posicionamentos. Vestiram coerência.

Em tempos em que a moda de tapete vermelho parece cada vez mais pasteurizada, dominada por fórmulas prontas e acordos comerciais, esses dois looks funcionaram como um lembrete necessário: estilo não é sobre consenso, é sobre identidade.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora