Quem a moda escolhe vestir e quem ela deixa de fora
Como a indústria da moda transforma corpos gordos em um problema e por que isso se reflete no sumiço do plus size.
Tenho recebido muitas mensagens me perguntando o motivo da moda odiar tanto fazer roupas para pessoas gordas.
Esse questionamento não é novo, mas, atualmente, ele vem reforçado por alguns fatos: o fechamento de tantas marcas plus size, a míngua do movimento body positive e o aumento da dificuldade em achar tamanhos maiores. É, amigos, não tem sido fácil.
Nos últimos anos, o enfraquecimento do discurso body positive expôs uma contradição incômoda.
O movimento, que originalmente nasceu como uma resposta política à gordofobia, foi cooptado pela lógica do marketing e perdeu força justamente quando começou a incomodar.
À medida que marcas perceberam que corpos gordos não geravam o mesmo “capital aspiracional” que corpos magros, o discurso da aceitação foi sendo substituído por narrativas mais neutras e menos comprometidas.
O resultado foi um silêncio conveniente sobre desigualdade de acesso, num setor que prefere falar de inclusão sem alterar suas estruturas.
Esse recuo simbólico veio acompanhado de decisões práticas. Diversas marcas especializadas em moda plus size fecharam as portas nos últimos anos, sufocadas por custos de produção mais altos, menor investimento publicitário e pouco espaço no varejo tradicional.
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Ao contrário do que o senso comum sugere, vestir corpos maiores não é uma escolha preguiçosa: exige modelagem específica, testes reais e profissionais especializados. Em um mercado obcecado por rapidez e escala, corpos gordos são vistos como “complicação”.
A dificuldade de encontrar tamanhos acima do 44 ou 46 nas lojas físicas e online não é uma falha logística, mas uma escolha clara. Ao limitar a grade, a moda delimita quem pode ou não participar de suas narrativas.
O recado é simples: certos corpos não pertencem ao imaginário de desejo, sofisticação ou tendência que a indústria insiste em vender.
E aqui me vejo (assim como tantas de nós): como profissional da área, estou enfurecida. Como mulher gorda, me sinto violada.
No fundo, pessoas gordas não estão escondidas, elas simplesmente não são vistas. E o que dizer dessa indústria? Ela não é cega, ela prefere recusar ver.
A moda odeia vestir pessoas gordas porque isso exige rever padrões de beleza, processos produtivos e, principalmente, privilégios.
É importante admitir que diversidade não é campanha, é prática. Enquanto corpos gordos forem tratados como nicho e não como parte da realidade, a exclusão continuará sendo a regra, ainda que disfarçada de falta de demanda.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora