Não tem nada de errado com a sua roupa
Com tantas regras e milhares de manuais invisíveis, é preciso ter coragem de simplesmente vestir o que se quer.
Desculpa, Mel, mas eu tive que roubar essa frase de um dos seus textos para começar este meu. E, de fato, não há outra forma de dizer isso: não tem nada de errado com a sua roupa. Nada nada nada de errado com como você se veste, com as roupas que você compra e com a forma que você escolhe juntar duas ou mais peças.
Existem regras demais e vontade de menos, isso sim. Se vestir virou um território minado: pode isso, não pode aquilo, emagrece, envelhece, vulgariza. Um grande tribunal e, olha, que preguiça.
A moda, que deveria ser uma forma de expressão, virou essa coisa sem vontade e sem carisma. Em vez de desejo, checklist.
Como se o grande objetivo no vestir fosse agradar um consenso que nunca se apresenta oficialmente, mas aparece em comentários atravessados, memes e julgamentos disfarçados de conselho.
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Existe todo um medo de errar na hora de se vestir, mas esquecemos que nada nasce desse acerto imediato que tanto se espera.
E daí, criamos códigos para tudo: a idade certa para usar tal peça, o corpo certo para tal corte, o gênero certo para determinada cor ou peça.
Como se o corpo fosse um problema a ser resolvido e a roupa, uma forma de corrigi-lo. Mas vestir não conserta nada.
Vestir é comunicação, provocação, e uma forma de proteger, esconder, revelar… Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo.
É hora de admitir: não sabemos lidar com o desejo do outro quando ele não pede permissão.
Preferimos regras porque elas organizam o caos, mas também empobrecem o mundo - um mundo onde todo mundo que se veste “certo” é visualmente correto e emocionalmente morto.
Não há nada de errado com quem escolhe se vestir de forma estranha, simples, ousada, repetida, confusa ou exagerada: errado é exigir coerência estética de quem só quer existir.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora