Não tem nada de errado com a sua roupa

Com tantas regras e milhares de manuais invisíveis, é preciso ter coragem de simplesmente vestir o que se quer.

Escrito por
Elaine Quinderé verso@svm.com.br
Legenda: Para que tanto medo de errar na hora de se vestir?
Foto: Acervo pessoal

Desculpa, Mel, mas eu tive que roubar essa frase de um dos seus textos para começar este meu. E, de fato, não há outra forma de dizer isso: não tem nada de errado com a sua roupa. Nada nada nada de errado com como você se veste, com as roupas que você compra e com a forma que você escolhe juntar duas ou mais peças.

Existem regras demais e vontade de menos, isso sim. Se vestir virou um território minado: pode isso, não pode aquilo, emagrece, envelhece, vulgariza. Um grande tribunal e, olha, que preguiça.

A moda, que deveria ser uma forma de expressão, virou essa coisa sem vontade e sem carisma. Em vez de desejo, checklist.

Como se o grande objetivo no vestir fosse agradar um consenso que nunca se apresenta oficialmente, mas aparece em comentários atravessados, memes e julgamentos disfarçados de conselho.

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Existe todo um medo de errar na hora de se vestir, mas esquecemos que nada nasce desse acerto imediato que tanto se espera.

E daí, criamos códigos para tudo: a idade certa para usar tal peça, o corpo certo para tal corte, o gênero certo para determinada cor ou peça.

Como se o corpo fosse um problema a ser resolvido e a roupa, uma forma de corrigi-lo. Mas vestir não conserta nada.

Vestir é comunicação, provocação, e uma forma de proteger, esconder, revelar… Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo.

É hora de admitir: não sabemos lidar com o desejo do outro quando ele não pede permissão.

Preferimos regras porque elas organizam o caos, mas também empobrecem o mundo - um mundo onde todo mundo que se veste “certo” é visualmente correto e emocionalmente morto.

Não há nada de errado com quem escolhe se vestir de forma estranha, simples, ousada, repetida, confusa ou exagerada: errado é exigir coerência estética de quem só quer existir.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora

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