Vitórias no Festival de Berlim evidenciam força internacional do cinema cearense
Produções feitas no Ceará ou dirigidas por cearenses participaram ou foram premiadas em alguns dos principais festivais de cinema do mundo nos últimos anos.
Se a seleção de dois longas-metragens cearenses no Festival de Berlim em 2026 já foi motivo de celebração quando anunciada em janeiro, as premiações recebidas por “Feito Pipa” e “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha” no último fim de semana fortaleceram algo que já se sedimenta há alguns anos no circuito global de festivais.
“O Ceará vem se afirmando, de maneira consistente, como um polo dinâmico do audiovisual brasileiro no cenário internacional”. Quem afirma é Josephine Bourgois, diretora executiva do Projeto Paradiso, instituição filantrópica de apoio ao audiovisual brasileiro que investe na internacionalização da produção nacional e apoiou as duas produções.
O longa de Allan Deberton levou o Urso de Cristal de Melhor Filme da mostra Generation Kplus e o Grande Prêmio do Júri Internacional, enquanto a produção de Janaína Marques venceu o prêmio paralelo concedido por leitores do jornal alemão Tagesspiegel.
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Investimento em desenvolvimento de roteiros é diferencial do Ceará
As conquistas recentes remontam a uma trajetória construída há décadas que passa pelo investimento contínuo em políticas públicas e por um aspecto diferencial ocorrido no Estado: o foco no desenvolvimento de roteiros, uma vez que os dois filmes nasceram no Laboratório Cena 15, da Escola Porto Iracema das Artes.
"Feito Pipa", com roteiro de André Araújo, participou do Cena 15 em 2019. Já “Fiz um foguete imaginando que você vinha” teve a ideia original, assinada por Taís Monteiro e Pedro Cândido, inicialmente desenvolvida na edição de 2017, resultando em roteiro assinado por eles, Xenia Rivery e Pablo Arellano.
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Na avaliação de Josephine, o cenário visto hoje é “resultado de um ecossistema que amadureceu e passou a operar com visão de longo prazo, conectando uma ampla gama de oportunidades de formação — com iniciativas como o Lab Cena 15, do Porto Iracema das Artes, do qual também somos parceiros — com investimento em produção e circulação internacional”.
Para a diretora executiva do Projeto Paradiso, a estrutura do Cena 15 é um diferencial para os resultados alcançados pelo cinema do Estado. “Isso é o fator que não se encontra em outro lugar e que mudou o jogo do Ceará”, atesta.
“O laboratório reúne três aspectos fundamentais que, quando andam juntos, podem mudar o destino de obras e levá-las para novas fronteiras: investimento público consequente e duradouro; uma iniciativa de formação profissional de longa duração; foco no desenvolvimento de obras e geração de talentos que saibam escrever as histórias que têm para contar”
O próprio Projeto Paradiso conta com uma iniciativa de desenvolvimento de roteiros, a Incubadora Paradiso, que também apoiou “Feito Pipa”. Pesquisa da entidade mostrou a importância de investir nessa fase. “Um filme bem desenvolvido aumenta suas chances de atrair coproduções, fechar acordos de distribuição e garantir financiamento para a produção”, aponta Josephine.
Diretora de Formação do Instituto Dragão do Mar e da Escola Porto Iracema das Artes, Bete Jaguaribe ressalta que a “potência atual do campo cultural” no Estado surge como “resultado de investimentos públicos permanentes, políticas culturais conscientes, viabilizados nos últimos anos”.
No audiovisual, o investimento público na formação de roteiristas é descrito pela gestora como “uma decisão estratégica”. Conforme Bete, o modelo do Lab Cena 15 se difere de outros laboratórios do Brasil e do mundo por acompanhar os projetos em desenvolvimento desde a primeira ideia.
“A maioria dos laboratórios recebem roteiros já desenvolvidos para aprofundar. Nosso Lab Cena 15 cria esse espaço de partida, que é inédito, incluindo em termos de tempo para imersão”, aponta Bete.
O processo dura sete meses e conta com acompanhamento de um grupo de tutores que inclui Karim Aïnouz — cujo filme em inglês mais recente, "Rosebush Pruning", também estreou em Berlim —, Murilo Hauser — roteirista do premiado "Ainda Estou Aqui" — e Natália Maia — roteirista da futura adaptação cinematográfica de “A Cabeça do Santo”.
Outros “Brasis” e conexões
Entre os resultados da política de investimentos em formação de roteiristas e no audiovisual em geral, está a presença de outros “Brasis” nas telas de festivais ao redor do mundo.
“Em um país de dimensões continentais como o Brasil, o cinema é uma ferramenta que revela a diversidade e complexidade do país. Ao explorar essa diversidade de ‘Brasis’, o audiovisual amplia o imaginário sobre quem somos, evita a simplificação da nossa identidade e projeta uma narrativa mais fiel do país”, reconhece Josephine.
Para Bete, o fato se relaciona de maneira direta “com a construção da nossa soberania, enquanto brasileiros, nordestinos e cearenses”. “O que vemos hoje é um desejo muito forte por histórias sobre outros imaginários. Nesse cenário, vejo as histórias do Ceará com muita força, assim como também as de outros estados do Nordeste”, avalia.
“Quando vimos uma história simples e comovente como a do filme ‘Feito Pipa’ mobilizar com tanta intensidade o público da Berlinale, a gente compreende a potência da nossa cultura. Foi lindo ver o interesse, os debates em torno dos dois filmes cearenses”
A visão é ecoada pela diretora executiva do Projeto Paradiso: “É possível, desse modo, identificar um momento de destaque para o Ceará e, de maneira mais ampla, para o Nordeste”.
Para Josephine, “a região tem revelado cineastas com forte assinatura estética, produtoras estruturadas e equipes técnicas qualificadas, capazes de atuar tanto em projetos autorais quanto em produções de maior escala”.
Um dos nomes de destaque neste sentido é o cearense Karim Aïnouz. Recentemente, o cineasta levou pela primeira vez uma produção cearense ao Festival de Cannes com “Motel Destino”, em 2024.
Já em 2025, foi “padrinho” do projeto Directors’ Factory Ceará Brasil, no qual quatro curtas filmados no Estado abriram uma mostra paralela da edição daquele ano do evento francês. “Ele ocupa hoje um lugar de referência no cinema internacional. A contribuição passa também pelo capital simbólico pessoal que ele mobiliza na construção de conexões internacionais”, ressalta Bete.
O projeto citado foi realizado pelo Governo do Estado e contou com envolvimento do Museu da Imagem e do Som (MIS-CE) e da Escola Porto Iracema das Artes. No escopo desta última, duas oportunidades formativas com inscrições abertas se baseiam em conexões globais.
Dois projetos de roteiro de curta-metragem de ficção serão produzidos no âmbito do projeto Porto MIS CinéFabrique, parceria com o MIS-CE e Escola Nacional de Cinema de Lyon. Além disso, no diálogo África-Brasil, um projeto de longa-metragem angolano será selecionado para a próxima edição do Lab Cena 15.
Importância de diversificar e fortalecer investimentos
Fica evidente, a partir dessas conquistas e planos, a importância do investimento em cultura ser não apenas contínuo, mas diversificado — incluindo poder público, iniciativas privadas e terceiro setor.
“Essa tarefa deve ser um movimento político e mobilizador de todas as instituições comprometidas com o desenvolvimento soberano do Ceará e do Brasil. ‘Político’ aqui no seu conceito mais pleno, no sentido de esforços para as conquistas coletivas”, defende Bete Jaguaribe.
A gestora segue: “É muito importante essa articulação de agentes públicos e privados, num esforço de fortalecer nossa participação em festivais, além de viabilizar investimentos mais fortes na formação para o campo audiovisual”.
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O entendimento é reforçado por Josephine Bourgois. “É interessante que os apoios venham de diferentes frentes e que assumam formas diversas, como suporte criativo, bolsas de formação, apoio ao desenvolvimento de projetos, fundos e editais, financiamento para a produção, incentivo à circulação em festivais e mercados internacionais ou à distribuição em salas comerciais”, elenca.
“A convergência entre investimentos públicos, sobretudo com previsibilidade, privados e do terceiro setor é decisiva. Quando essas forças atuam de maneira complementar, fortalecem o mercado audiovisual, mas também a economia e a presença internacional do país”
Histórico de participações cearenses em festivais globais
Em um momento de destaque mundial para o cinema brasileiro, fortalecido após a vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar de 2025 e as indicações para “O Agente Secreto” neste ano, a produção audiovisual do Ceará tem conseguido nos últimos anos inserção relevante no circuito de festivais pelo mundo.
Isso, no entanto, não é um processo iniciado nesta década. “Desde a estreia de Karim Aïnouz com ‘Madame Satã’, selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2002, o cinema cearense passou a ocupar um espaço cada vez mais visível nos grandes festivais”, lembra Josephine.
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A produção filmada no Rio de Janeiro fez despontar o nome do diretor cearense, que teve a maioria dos longas lançados nos festivais de Cannes e Berlim. Recém-premiado no evento alemão, Allan Deberton já levou “Pacarrete” ao 22º Festival Internacional de Cinema de Xangai, em 2019.
Entre outros exemplos, é possível lembrar de obras como “Greta”, de Armando Praça, e “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz, exibidas em Berlim; e “António Um Dois Três”, “Inferninho”, “O Clube dos Canibais” e “Represa”, que estrearam no Festival de Roterdã.
“A recente seleção de duas produções cearenses no Festival de Berlim reforça a maturidade dessa cinematografia. São filmes que dialogam com questões universais a partir de perspectivas locais muito singulares. É justamente essa combinação que desperta interesse internacional”, resume Josephine.