Produção do Ceará reafirma força criativa em Tiradentes com curtas diversos
Coluna acompanhou a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que incluiu oito curtas cearenses na programação.
Um encontro em pleno ônibus entre as versões criança e mulher de uma mesma pessoa. A música e os rituais como ferramentas de afirmação e concretização de vida. Imagens de arquivo e memórias como o estopim para a invenção. Uma busca obsessiva pela identidade de um pichador que pode ou não ser um monstro.
A seleção cearense da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, composta no total por oito filmes em curta-metragem, evidencia o interesse da produção do Estado por uma reconfiguração de gêneros clássicos e pela experimentação formal.
Durante a cobertura da coluna no evento mineiro — realizado no final de janeiro e considerado uma das principais vitrines da produção contemporânea —, foi possível acessar parte da presença do Ceará, um recorte que reforça tal assinatura e aponta questões e reflexões advindas desses filmes.
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As definições que abrem este texto se referem, respectivamente, aos filmes:
- “Cavalo Serpente”, de Priscila Smiths (Mostra Foco);
- “Mydzé”, do Memorial Isú-Kariri e do coletivo Unides contra a colonização: muitos olhos, um só coração (Mostra Soberania Imaginativa);
- “Na estação das mangas, ela alimentar o bairro inteiro”, de Carlos Dias Oliveira, Lino Fly, Tiago Coutinho e Yan Tavares (Mostra Formação); e
- “Vampiro”, de Emilly Guilherme e Nolí Levi (Mostra Formação).
Completaram a participação do Ceará em Tiradentes “O ponto do mel”, de Mirian Oliveira e Pedro Lessa (Mostra Foco); “O tempo que me resta”, de Chico Tales e Mariana Camurça (Mostra Formação); “Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro e Mariana Smith (Mostra Panorama); e "Faísca", de Barbara Matias Kariri (Mostra Praça)
Relação com outras artes
Dos quatro curtas vistos no evento mineiro, é possível observar pontos em comum como a aproximação com outras artes, a aposta em elementos fantásticos/mágicos que surgem em contextos verossímeis e a experimentação de forma.
“Na estação das mangas” e “Vampiro”, por exemplo, evidenciam de maneiras próprias, mas irmanadas, a relação do audiovisual com as artes visuais. O primeiro curta, exibido na Mostra Formação, se utiliza de projeções como recurso visual.
A obra foi produzida no curso livre Experimentar o Experimental, realizado em Juazeiro do Norte em 2025, e traz fotografias de acervos pessoais projetadas em elementos da natureza, como mangas, folhas e plantas. No campo sonoro, diferentes vozes partilham lembranças de infância e adolescência.
Em debate posterior à exibição em Tiradentes, o diretor Tiago Coutinho explicou que tanto as fotos quanto as falas são dos participantes da formação. No entanto, há uma “mistura” de autorias, com abertura para ficcionalizar memórias.
A invenção a partir da realidade também se faz presente em “Vampiro”, que acompanha uma estudante de cinema focada em descobrir quem está por trás de uma pichação misteriosa em Fortaleza.
O mote ecoa uma investigação real de uma das diretoras, Emilly Guilherme. Dentro da ficção do curta, a protagonista começa a produzir um documentário sobre arte urbana, no qual entrevista pichadores reais cuja identidade não é revelada.
Junto a esse documentário na ficção, o curta abre espaço para reconfigurar a mítica do vampiro e ideias do gênero do terror, mesclando as referências clássicas a “monstruosidades que a gente já tem”, como Emilly definiu no debate. A criatura do filme, por exemplo, é inspirada nos papangus.
Cinema 'com' fantasmas
Outra “criatura” sobrenatural presente nos curtas cearenses surge em “Cavalo Serpente” de maneira mais simbólica, sugerida. O filme de Priscila Smiths acompanha os encontros entre diferentes "tempos" de uma mesma pessoa.
Em sequências oníricas, que referenciam elementos diversos ligados à espiritualidade, a obra apresenta uma narrativa sobre pertencimento, bonança e acolhimento, mas de maneira não linear.
O curta da cearense foi exibido na Mostra Foco, a principal competitiva em Tiradentes, e em fala prévia à sessão, a diretora definiu: “‘Cavalo Serpente’ não é ‘de’ fantasmas, é ‘com’ fantasmas”.
A ideia pode ser lida pelo prisma da construção narrativa menos formal e mais suspensa, em que o concreto e o simbólico, a realidade e a magia, coexistem. Exemplo central é a cena descrita no início do texto:
Em uma viagem cotidiana de ônibus, a versão jovem adulta da personagem principal é abordada por ela mesma enquanto criança. A conversa entre as duas mescla presente, passado e futuro e ocorre de forma não convencional.
Imaginários indígenas
A fina fronteira entre elementos pretensamente distintos alcança profundidade singular no curta “Mydzé”, uma produção coletiva do Memorial Isú-Kariri e do coletivo Unides contra a colonização: muitos olhos, um só coração.
O filme foi exibido na Mostra Soberania Imaginativa, que ecoa a temática que norteou a Mostra de Tiradentes em 2026. O mote central dele é a luta pela construção de um açude na comunidade indígena Isú-Kariri, na Aldeia Queimadas, em Brejo Santo.
Esse fato, no entanto, é representado na obra a partir de um olhar mágico e fantástico. No curta, crianças da comunidade, junto de uma das lideranças, performam espécies de rituais com música e dança para atrair a chuva.
A base vem, é possível compreender, dos próprios ritos e crenças dos Isú-Kariri, mas o registro do filme agrega a isso uma série de elementos outros: fitas decorativas metalizadas, instrumentos musicais como uma guitarra e espécies de performances musicais de canções de nomes como Fagner e Gilberto Gil.
Esse caldeirão, somado a palavras de ordem afirmativas, proporciona momentos em que “milagres”, como descrito nos próprios créditos do curta, ocorrem naquele cenário. O registro, de certa maneira, reinventa o que “se espera” de uma pretensa representação indígena.
Em “Mydzé”, corpo, som e natureza se irmanam em prol da magia como ferramenta política e de conquistas. É possível, a partir dessa noção, traçar uma ligação entre este curta e “Faísca”, de Barbara Matias Kariri.
O curta, filmado na Aldeia Marrecas, em Quitaiús, Lavras da Mangabeira, se aproxima de “Mydzé” ao registrar tradições indígenas ancestrais em imbricação com diferentes linguagens artísticas.
Se no primeiro filme os rituais surgem para chamar a chuva, no segundo a busca é pelo retorno das onças que, outrora, apareciam naturalmente na comunidade. Em entrevista à coluna, Barbara explicou: “Queria contar essa história e comecei a pensar em várias maneiras. Trouxe muito forte o recurso do teatro, da performance, da narração”.
No jogo entre o ficcional e o real, a crença e a dúvida, a diretora chega a afirmar, na narração do curta, que a história contada ali dele “não é negócio de, como é que chama, ficção, essas conversas, não”.
Na entrevista, ela aprofundou o entendimento. “Venho de um lugar que tem um imaginário muito forte de contação de histórias, escutar narrativas que, para uma parte desse Brasil, são praticamente impossíveis, não são verossímeis”, iniciou.
Apesar de possíveis questionamentos sobre a verossimilhança , a diretora atestou: “Do lugar de onde eu venho, elas me constituíram. São mais do que verdadeiras. Elas constituíram a minha identidade, o meu imaginário, a minha forma de me relacionar com o mundo e de fazer arte”, ensinou.
*Colunista viajou a convite da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes