Cinema feito no Cariri cearense se fortalece em circulação e formação

Região do Estado reforça destaque no circuito nacional de festivais com a presença de cinco filmes na Mostra de Tiradentes e ganhará graduação no ano que vem.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 08:35)
Legenda: Curtas "Faísca", de Barbara Matias Kariri, e "Na estação das mangas, ela alimenta o bairro inteiro", de Carlos Dias Oliveira, Lino Fly, Tiago Coutinho e Yan Tavares, representam cinema do Cariri na Mostra de Tiradentes.
Foto: Silvia M Kariri / Divulgação e Divulgação.

Dos oito filmes cearenses selecionados para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, cinco têm ligação com o Cariri cearense, seja levando em conta as temáticas, as produtoras responsáveis ou quem realiza as obras.

Tal destaque para o audiovisual ligado a municípios do território no evento mineiro, que segue até o próximo dia 31 de janeiro, vem na esteira de um momento de fortalecimento do audiovisual da região. 

A produção caririense é extensa e histórica, decerto, mas um novo e positivo cenário tem se erguido a partir de fatos como a efetivação de políticas públicas mais descentralizadas e a importância da formação nesse panorama, a ser reforçada com a criação de uma licenciatura em audiovisual na Universidade Federal do Cariri (UFCA) em 2027.

À coluna, profissionais envolvidos nas obras do Cariri na Mostra de Tiradentes e uma das curadoras do evento apresentam diferentes olhares para esse desenvolvimento, evidenciando o percurso histórico, as conquistas e as demandas ainda em aberto da produção da região

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Participação caririense em Tiradentes

O cinema cearense tem sido presença constante em Tiradentes, inclusive com longas que saíram vitoriosos — caso de “Estrada para Ythaca” (2010) e “Canto dos Ossos” (2020)

Em entrevista à coluna, Camila Vieira, uma das curadoras de curtas do evento mineiro, lembra que em edições anteriores o Cariri cearense apareceu de maneira pontual

“Lembro que, no ano passado, exibimos ‘Vermelho de bolinhas’, curta realizado em Santana do Cariri; e ‘Ver Céu no Chão’, realizado em Juazeiro do Norte e Rio de Janeiro”, aponta. 

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Em 2026, os cinco curtas que representam o audiovisual do Cariri são:

  • “Na estação das mangas, ela alimenta o bairro inteiro”, de Carlos Dias Oliveira, Lino Fly, Tiago Coutinho e Yan Tavares, feito em Juazeiro do Norte e Cascavel e selecionado na Mostra Formação;
  • "Faísca", de Barbara Matias Kariri, feito na zona rural de Lavras da Mangabeira e selecionado na Mostra Praça;
  • “Mydzé”, com direção do Memorial Isú-Kariri & Unides contra a colonização: muitos olhos, um só coração, produzido em Brejo Santo e componente da Mostra Soberania Imaginativa;
  • “Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro e Mariana Smith, também realizado no Crato e selecionado na Mostra Panorama;
  • “O ponto do mel”, de Mirian Oliveira e Pedro Lessa; coprodução Paraíba-Ceará-Rio de Janeiro que tem como empresa produtora a Redemunho Produções, de Santana do Cariri, na Mostra Foco.

Completam a participação cearense os curtas “Cavalo Serpente”, de Priscila Smiths (Mostra Foco); “O tempo que me resta”, de Chico Tales e Mariana Camurça (Mostra Formação); e “VAMPIRO”, de Nolí Levi e Emilly Guilherme (Mostra Formação).

“O ponto do mel”, descrito como “forte” pela curadora, registra o processo de transformação da cana-de-açúcar no sertão paraibano feito pelos trabalhadores de um engenho da região.

“Na estação das mangas, ela alimenta o bairro inteiro” se aproxima do ensaio experimental e traz “diálogo propositivo com as artes visuais”, explorando acervos, arquivos e memórias.

“Faísca” também se aproxima do ensaístico, aponta a curadora, focando em como o desaparecimento de onças em um território indígena do Ceará afeta gerações de mulheres.

"Mdyzé" destaca como uma comunidade atrai chuva a partir de danças e ritos; curta também com realização indígena. 

Finalmente, "Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto" é outro exemplar experimental, dessa vez mostrando a ausência de memórias sobre a história Caldeirão e do beato José Lourenço nos locais por onde a comunidade passou.

Produção centenária

Em um olhar panorâmico para a produção pregressa feita na região do Cariri, é possível chegar até mais de 100 anos atrás.

“Já tem cinema sendo produzido aqui há mais de um século, desde as imagens do Adhemar de Albuquerque, que filmou a inauguração da estátua do Padre Cícero até os dias de hoje”, destaca Ythallo Rodrigues, realizador e poeta da região  tem atuação na Caldeirão Filmes, produtora de “Na estação das mangas, ela alimenta o bairro todo”.

As “imagens” referenciadas por ele dizem respeito ao filme "Joaseiro do Padre Cícero", de 1925, que mostra imagens da Juazeiro do Norte da época em que foi inaugurada uma estátua de Padre Cícero na praça em homenagem ao religioso.

Uma construção clara com detalhes arquitetônicos clássicos destaca-se em meio a uma densa vegetação sob um céu nublado e vasto. A imagem possui uma textura granulada em preto e branco com bordas de película cinematográfica, conferindo um aspecto histórico e documental à paisagem.
Legenda: História do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, é rememorada em curta-metragem de direção coletiva.
Foto: Divulgação.

De lá para cá, outros nomes se destacaram na produção da região, como lembra Barbara Matias Kariri, diretora de “Faísca”, performer, pesquisadora e autora nascida e criada na Aldeia Marrecas, em Quitaiús, Lavras da Mangabeira.

A gente é de uma região que tem figuras muito importantes, como Ythallo Rodrigues, Rosemberg Cariry, que já vinham fazendo cinema por aqui”, cita a artista. O próprio Ythallo acrescenta à lista profissionais como Nívia Uchôa, Glauco Vieira, Allison Gomes, Franklin Lacerda e Orlando Pereira, por exemplo.

“A região do Cariri é bastante rica culturalmente, com uma identidade cultural própria e isso também se reflete no audiovisual que vem sendo feito lá, que foi se construindo de forma gradual, ligado à força simbólica da região”, observa a curadora Camila Vieira.

“É um cinema que surge conectado ao território, às singularidades do interior cearense, à religiosidade, aos saberes populares. Novas gerações passaram a dialogar com essa herança cultural e abraçar olhares contemporâneos, com diversidade estética e inserção em circuitos de festivais e de exibição”
Camila Vieira
curadora de curtas da Mostra de Tiradentes

Além do exemplo atual de Tiradentes, é possível citar a participação de obras da região no Cine Ceará. No ano passado, “Faísca” e “Na estação…” foram exibidos no festival, bem como “Vermelho de Bolinhas” e os documentários “Verbo Ser”, de Nívia Uchôa, e “Bom Fim”, do radicado em Juazeiro do Norte Rafael Vilarouca.

Em anos anteriores, houve ainda, por exemplo, obras também documentais como “Cante lá que eu conto cá”, de Iziane Mascarenhas, sobre modos de vida e ancestralidade dos povos da Chapada do Araripe; e “Todas as vidas de Telma”, de Adriana Botelho, sobre a fotógrafa cratense Telma Saraiva.

Diversidades ampliadas

No panorama apresentado até aqui, é possível notar o que Ythallo define como uma “ênfase” na produção de documentários no audiovisual caririense — mas "não só", como ressalta ele. "Tem uma diversidade inclusive cada vez maior de trabalhos sendo realizados”, atenta.

A visão é compartilhada por Barbara. “Para o cinema acontecer, a gente precisa da aparelhagem, câmera, há uma questão de materialidade. Então, por muito tempo na história do cinema, não foi todo mundo que teve acesso a essa linguagem”, inicia a cineasta.

Um homem de perfil segura uma guitarra em meio a uma paisagem árida repleta de cactos e árvores secas sob a luz do entardecer. Ele utiliza adornos tradicionais, como uma faixa na cabeça e no braço, combinados com uma capa de fitas iridescentes que refletem cores vibrantes, unindo elementos ancestrais e contemporâneos.
Legenda: Curta "Mydzé" integra Mostra Soberania Imaginativa no evento mineiro.
Foto: Juma Pariri / Divulgação.

O cenário, segue, veio mudando “com a difusão muito mais forte da cultura, com a possibilidade e aumento de editais”. “Os interiores do Brasil têm começado a se movimentar com mais força. Na região do Cariri, muitos jovens vêm experimentando contar suas histórias, fazer seus filmes, experimentar essa linguagem”, avalia.

Impactos da formação no audiovisual do Cariri

“Nessas três últimas décadas, o que efetivamente alavancouo audiovisual no Cariri foi a formação”, atesta Ythallo. Foram experiências como aquela na qual ele mesmo se formou, junto de pares da mesma geração.

“Venho de uma realidade de formação aqui no Cariri que veio de Fortaleza, a partir do Dragão do Mar, no começo dos anos 2000, um projeto de interiorização de cursos que rolou aqui no Cariri, em Sobral, em Limoeiro do Norte”, rememora.

Entre os curtas caririenses de Tiradentes, “Na estação das mangas, ela alimentar o bairro inteiro”, que tem montagem assinada por Ythallo, compõe a mostra Formação, dedicada a curtas produzidos em ambientes formativos.

O filme foi fruto do curso "Experimentar o Experimental", realizado no início do ano passado pela produtora Caldeirão Filmes em parceria com o Atelier Rural, um espaço de residências artísticas e pós-produção cinematográfica em Cascavel. 

A Caldeirão já esteve envolvido na realização de outras formações do tipo, como o DOC Cariri – Curso de Documentário e o Cariri Sonoro, ambas em 2023.

Licenciada em Teatro pela Universidade Regional do Cariri (URCA) e tendo passado pelo Lab Cena 15, da escola Porto Iracema das Artes, Barbara Matias Kariri reforça o impacto do acesso à formação para o fortalecimento da linguagem no território.

“O bom de ter as pessoas se profissionalizando é que elas vão poder contar, a partir do olhar delas, do recorte delas, suas histórias e complexidades”, celebra.

“A gente está passando por um momento muito interessante no cenário das artes e desse lugar que documenta, registra e consegue preservar as narrativas. É muito precioso ver o cinema tomando forma e se enraizando no sertão”, sustenta a diretora.

Contribuições do ensino público superior 

A direção de "Na estação..." conta com Tiago Coutinho e Yan Tavares, respectivamente professor e estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Os outros dois diretores são Carlos Dias Oliveira, graduado em História, e Lino Fly, formado em Tecnologia em Gestão de Turismo, ambos pela URCA.

A menção às universidades se dá por conta da relevância do ensino superior público para o audiovisual no Cariri. Em 2027, inclusive, a UFCA irá ganhar um curso de licenciatura na área.

Audiência pública sobre a criação de graduação em Cinema e Audiovisual na UFCA contou com alunos, professores, gestores, políticos e artistas cearenses
Legenda: Audiência pública sobre a criação de graduação em Cinema e Audiovisual na UFCA contou com alunos, professores, gestores, políticos e artistas cearenses
Foto: Felipe Gonçalves / Divulgação

“O curso de cinema e audiovisual vem de uma demanda da região. Antes de ser anunciado, foi um trabalho de meses e anos de pessoas envolvidas interna e externamente à Universidade para a criação desse curso”, contextualiza Tiago.

O docente de Jornalismo da instituição lembra, ainda, do “papel importante” do próprio curso de Jornalismo na produção de trabalhos na linguagem e também cita a contribuição da graduação em Artes Visuais da URCA.

Agora, com a criação da graduação da UFCA, a expectativa é por ainda mais fortalecimento do audiovisual do Cariri, indo além, inclusive, da produção

Vai realmente ampliar as possibilidades e profissionalizar mais gente, porque é um curso de licenciatura, então as pessoas vão estar habilitadas não apenas para produção de cinema e audiovisual, mas podendo oferecer isso nas escolas, em cursos, formar também professores”
Tiago Coutinho
professor de Jornalismo da UFCA

Graduação em Cinema e Audiovisual da UFCA será a segunda de uma universidade federal em uma cidade do interior no Nordeste
Legenda: Graduação em Cinema e Audiovisual da UFCA será a segunda de uma universidade federal em uma cidade do interior no Nordeste
Foto: Yan Tavares / Divulgação

Barbara, que ressalta a UFCA como “uma universidade muito capacitada e interessada em dialogar com a comunidade”, antevê o futuro curso como uma “possibilidade da linguagem crescer junto com os fazedores dela” por destacar o papel extensionista da instituição.

Para a curadora Camila Vieira, a iniciativa é importante para descentralizar a formação audiovisual no Estado — ela será somente a segunda em uma universidade pública federal no Ceará, a primeira do interior, e a segunda em uma cidade interiorana no Nordeste.

Demandas em aberto para o audiovisual do Cariri

Em meio às conquistas elencadas e celebradas, “grandes desafios” seguem na lida dos profissionais da área, como define Barbara. “Nós que estamos nos interiores precisamos lutar muito para que nossas obras sejam valorizadas e consigam fazer parte dos movimentos”, reconhece.

A diretora lembra, também, da importância da desburocratização de políticas para que acesso e formação sejam facilitados. “A gente tem muitas histórias para contar, muita vontade de contar, mas precisa trabalhar mais a formação e o local de diálogo com as políticas públicas”, acrescenta.

O ponto é ecoado por Ythallo, que cita a ausência histórica de “um vislumbre de políticas públicas específicas das cidades do Cariri”. “Importante agora é tentar firmar percentuais (de investimento) para as secretarias de cultura das prefeituras das cidades do Cariri”, defende.

“Juazeiro (do Norte) já é uma cidade de (quase) 300.000 habitantes, a Secretaria de Cultura pode muito bem gerir um edital que possa gerar demandas de produção para os artistas da cidade”
Ythallo Rodrigues
realizador e poeta

Em diálogo, Tiago reconhece um processo recente de descentralização, inclusive de recursos, mas também diz que Fortaleza segue central no acesso às políticas públicas do audiovisual.

É por isso que o professor defende uma política que efetive ampliação de recursos para o Cariri, ampliando investimentos em formação e produção.

“A qualidade e o grande movimento que tem aqui, isso já está mais do que reconhecido e consolidado, mas tudo é feito muito ‘na tora’. Os recursos não são tão altos, quando se pensa principalmente em editais municipais”, avalia.

Uma pessoa agacha-se para filmar com uma câmera em um tripé, focando em um crânio animal espetado em um galho seco no meio da vegetação rasteira. A cena ocorre sob a luz do sol em um terreno de terra batida, com sombras projetadas no solo.
Legenda: Produção de "Faísca", de Barbara Matias Kariri, foi feita de forma independente.
Foto: Divulgação.

O curta “Faísca”, por exemplo, foi “completamente independente, feito com os recursos que se tinha, que eram a vontade de contar, uma câmera, e aí fiz esse filme com minha mãe, minha irmã, minhas primas, minha cunhada, minha sobrinha”, partilha Barbara.

“É um filme que o mundo vem gostando de conhecer e isso tem me deixado feliz porque tem a ver com autoestima intelectual, com poder continuar contando nossas histórias. Talvez pessoas de outras culturas queiram, também, aprender a escutar essas histórias. Que venham muitos e muitos outros filmes assim circulando”, torce a diretora.

29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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