Reconhecimento histórico do Brasil no Oscar reflete conquistas prévias e orgulho nacional
Com indicações para o filme pernambucano “O Agente Secreto” e para o paulista Adolpho Veloso, cultura segue movendo brasileiros.
Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil aparece na lista de indicados ao Oscar. Disputando quatro categorias, o longa pernambucano “O Agente Secreto” iguala recorde anterior de mais indicações para uma produção brasileira no prêmio — conquistado em 2004, com “Cidade de Deus”.
Com a indicação para o paulista Adolpho Veloso pelo trabalho de fotografia do longa estadunidense “Sonhos de Trem”, somam-se cinco reconhecimentos para o País neste ano. Das ruas de Recife às redes sociais, o sentimento maior é de orgulho pelas conquistas.
É importante que a cultura brasileira siga movendo, principalmente, os brasileiros. Além disso, também é relevante que um fato seja compreendido no País: tais conquistas guardam um ponto central em comum, o investimento em políticas públicas continuadas.
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Geane Albuquerque, por exemplo, que é uma das cearenses do elenco, entrou na primeira turma da Licenciatura em Teatro do Instituto Federal do Ceará, em 2008, além de ter participado do Curso Princípios Básicos de Teatro, do Theatro José de Alencar, em 2006.
Já o também cearense Robério Diógenes, destaque no filme como o delegado Euclides, enveredou na atuação a partir dos anos 1980 por conta do Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará.
Os dois são exemplos da ampla cadeia necessária para que um filme exista e chegue ao público: da formação de atores, técnicos, roteiristas e demais funções de uma obra audiovisual ao conjunto de máquinas e tecnologias para gravação, edição e finalização, passando por motoristas, distribuidores, profissionais de imprensa. Os elos são incontáveis.
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O entendimento dessa realidade e dos impactos de uma cadeia do tipo para aspectos tão relevantes e diversos entre si quanto a economia e a identidade nacional se faz, também, cada vez mais presente no País.
Ainda que desinformações como o suposto uso de recursos da Lei Rouanet na produção de “O Agente Secreto” insistam em ser disseminadas — pela legislação, o investimento público se dá somente para produções audiovisuais de curta e média-metragem, não longas —, o grande público assimila cada vez mais a importância do investimento em cultura.
Com ele, figuras como a potiguar Tânia Maria — artesã de 79 anos do interior do Rio Grande do Norte que estreou no cinema como figurante do longa anterior de Kleber, “Bacurau” (2019), e tem papel de destaque no filme atual — conquistam reconhecimento a nível nacional e global.
Com ele, o Nordeste pulsante de “O Agente Secreto” — representado, além de Geane, Robério e Tânia, pelo baiano e indicado ao Oscar Wagner Moura, a também potiguar Alice Carvalho e os planos do Carnaval de Recife e das paisagens da capital pernambucana, entre outros elementos — reflete o potencial da região e a apresenta para o mundo.
Em entrevista ao Verso, Geane Albuquerque definiu que, com o filme, vem sendo trilhado “um momento na história do Brasil de celebração do cinema, de reconhecimento desses artistas, de reconhecimento da identidade do nosso país”.
Já em vídeo publicado por Kleber Mendonça Filho, o diretor lembrou que “‘O Agente Secreto’ é uma combinação de muitas outras coisas”: de ser de Recife, de vários outros filmes que mostraram a cidade antes no cinema e, também, de políticas públicas.
“Elas são uma maneira inteligente de você investir na identidade do próprio país”, defendeu, complementando: “É muito importante quando você se vê”.
Finalmente, em uma entrevista ao O Globo, Tânia Maria partilhou o pedido que fez ao presidente Lula quando o longa foi exibido no Palácio da Alvorada no ano passado:
"Quando acabou a sessão, Lula se abraçou comigo, me deu um cheiro e disse: ‘O que a senhora está precisando?’ E eu respondi: de filme. Eu não tenho carro, não jogo bola, então eu pedi mais filme”
E eles virão. A própria atriz, por exemplo, esteve em Fortaleza no começo do ano para filmar “A Adoção”, novo longa de Allan Deberton. O diretor natural de Russas, por sua vez, tem outro filme já pronto para estrear em breve: “Feito Pipa”.
A obra será lançada no Festival de Berlim, que tem presença do Ceará ainda com “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”, dirigido por Janaína Marques, e “Rosebush Pruning”, novo filme em inglês do cearense Karim Aïnouz.
Além de abordar o período da ditadura, reflexões sobre apagamentos de memórias e destacar a cultura nordestina, "O Agente Secreto" tem parte relevante da trama ligada a um cinema, o histórico Cine São Luiz de Recife, irmão do Cineteatro São Luiz de Fortaleza.
Que os reconhecimentos sejam um convite para que, além da comemoração de quem já viu o longa, quem não tenha visto possa prestigiá-lo nas salas de todo o País onde possível for — e que, após a festa pelos Oscars que podem vir, sigamos movidos pelo cinema e pela cultura brasileiras.