Parabéns para quem?
Hoje, não há nada a comemorar, apenas lembrar das desigualdades, da vigilância constante e o temor de que existir no mundo continue sendo um ato de resistência e sobrevivência.
Mais um Dia da Mulher chega, e o deste ano vem com o sentimento de que não há nada para comemorar.
A verdade é que o 8 de março nunca foi apenas uma celebração: nasceu da luta, da resistência e da denúncia das desigualdades que atravessam nossas vidas. E este ano, mais do que nunca, ele parece um dia de lembrança amarga.
Ser mulher é aprender desde cedo a medir o espaço que ocupamos no mundo. Andar com as chaves entre os dedos quando voltamos para casa à noite. Calcular a roupa, o horário, o trajeto. É carregar um cuidado permanente que os homens raramente precisam ter.
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Ser mulher é também enfrentar, todos os dias, uma coleção silenciosa de desafios: provar nossa competência no trabalho, equilibrar expectativas impossíveis, lidar com o julgamento constante sobre nossos corpos, nossas escolhas e nossas vozes. Muitas de nós trabalham dobrado, dentro e fora de casa e, ainda assim, recebem menos reconhecimento, menos segurança e menos respeito.
E, como se não bastasse, ainda precisamos temer pela própria vida. O medo não é exagero: ele é alimentado por notícias diárias, por histórias que conhecemos de perto, por nomes de mulheres que se tornam estatísticas. O mundo insiste em nos lembrar que nossa existência ainda é considerada negociável, vulnerável, descartável.
Por isso, hoje, talvez o sentimento mais honesto não seja comemorar, mas olhar umas para as outras com lucidez e solidariedade. Reconhecer o peso que carregamos e, ao mesmo tempo, a força que nos mantém de pé.
Se há algo a marcar neste dia, não é uma festa: é um compromisso. De não nos acostumarmos com a violência. De não normalizarmos o medo. De continuar exigindo um mundo em que viver como mulher não seja um risco.
E seguimos juntas. Vigilantes, cansadas às vezes, mas nunca caladas.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.