Vitória do político ‘Uma Batalha Após a Outra’ no Oscar 2026 ecoa ‘espírito do dia’

Longa de Paul Thomas Anderson foi o grande vencedor do Oscar 2026, com seis estatuetas.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 01:18)
Legenda: "Uma Batalha Após a Outra" foi grande vencedor do Oscar 2026, com seis estatuetas.
Foto: Patrick T. Fallon / AFP.

No discurso ao aceitar o prêmio de Melhor Filme para “Uma Batalha Após a Outra” no 98º Oscar, na noite deste domingo (15), o cineasta Paul Thomas Anderson ressaltou que não existe um “melhor” entre os 10 indicados.

“Existe apenas o estado de espírito daquele dia”, disse, em tradução livre.

A fala conciliatória do diretor e roteirista — que venceu os troféus de Melhor Direção e Roteiro Adaptado — fazia menção à arbitrariedade de uma premiação como o Oscar, mas também ecoa possíveis motivações para o triunfo da obra.

Confira a lista completa de premiados.

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Filme político, discursos nem tanto

Frontalmente político, “Uma Batalha Após a Outra” acompanha um ex-revolucionário de esquerda que, após mais de uma década sem ação direta, precisa se ligar novamente com o grupo de radicais do qual fazia parte por conta do ressurgimento de um inimigo.

Temas como supremacia branca, imigração, solidariedade, racismo e conservadorismo são alguns daqueles apresentandos nas mais de 2h40 de filme. Em um país em que todos eles são sempre trazidos à tona, o filme de PTA ecoou o “estado de espírito” dos Estados Unidos de novo sob Trump.

Curiosamente, porém, a conciliação citada no discurso do cineasta ecoa, também, aquela que marcou o dia da cerimônia do 98º Oscar.

As menções diretas a questões políticas foram vistas na fala sem rodeios de Javier Bardem ao se pronunciar contra a guerra e a favor da Palestina, ou nos discursos dos vencedores das categorias de documentário.

Além disso e de piadas do apresentador Conan O’Brien e de comentários de Jimmy Kimmel ao apresentar justamente as vitórias das categorias documentais, o panorama geral da premiação, no entanto, passou ao largo de temas espinhosos.

A questão da imigração, por exemplo, não ganhou nenhuma menção durante as quase quatro horas de premiação. No “espírito do dia” deste domingo (15), a escolha foi por evitar se aprofundar nos temas da obra mais premiada.

Outras obras políticas saírem sem prêmios

“O Agente Secreto” era, talvez, o mais frontalmente político filme indicado à categoria principal junto do vencedor “Uma Batalha Após a Outra”. Mas, diferentemente do concorrente, trazia essa verve à tona em falas públicas de elenco e equipe com mais constância.

Assim como o longa brasileiro, obras políticas como a iraniana “Foi Apenas Um Acidente” e a tunisiana “A Voz de Hind Rajab” — que pulsam “espírito” não do dia, mas do tempo, ao tratar do regime do Irã e da guerra de Israel contra a Palestina —, também indicados a Melhor Filme Internacional, saíram sem prêmios.

Também curiosamente, uma importante voz em meio aos discursos foi a do norueugês Joachim Trier, diretor de “Valor Sentimental” — que “tirou” a vitória de “O Agente Secreto” na categoria de Filme Internacional.

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Apesar disso, o cineasta ecoou o “espírito” de longas como o brasileiro. “Num momento como este, quero reconhecer os filmes maravilhosos com os quais fomos indicados. Filmes importantes e belos que refletem nossa crise atual e a crise do passado”, destacou.

O discurso de Trier teve, então, um chamado: “Quero terminar parafraseando o maravilhoso escritor americano James Baldwin, que nos lembra que todos os adultos são responsáveis ​​por todas as crianças. Que não votemos em políticos que não levam isso a sério”, conclamou.

O cineasta Joachim Trier discursa no palco do Oscar 2026 segurando sua estatueta, enquanto o elenco de
Legenda: Joachim Trier citou produções da categoria de Melhor Filme Internacional no discurso.
Foto: Patrick T. Fallon / AFP.

Para finalizar, outra curiosidade: o único membro do elenco de "Uma Batalha Após a Outra" a vencer um prêmio foi Sean Penn, intérprete do grande vilão da obra e que tornou novo membro do seleto clube de vencedores de três Oscars de atuação. 

Um dos nomes mais vocais politicamente de Hollywood atualmente (mesmo que de maneira geralmente questionável), Penn poderia ter feito um discurso mais explícito sobre o "estado de espírito" das coisas nos EUA. 

No entanto, o ator não pôde comparecer à cerimônia deste domingo (15) — ou, na piada do apresentador da categoria Kieran Culkin, "não quis", num símbolo torto da veia política deste 98º Oscar: ausente ainda que presente.

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