Cineasta iraniano que disputa Oscar diz que premiação é 'insignificante' diante da guerra no Irã
Jafar Panahi afirmou viver sentimentos contraditórios enquanto seu país enfrenta conflitos e crise política.
"Comparado ao que está acontecendo no meu país, o Oscar e qualquer outra coisa são realmente insignificantes". A declaração é do cineasta iraniano Jafar Panahi, que comentou o contraste entre a indicação ao Oscar de seu filme "Foi Apenas um Acidente" e a situação de conflito e instabilidade no Irã. O diretor participou de um evento em Los Angeles, na sexta-feira (13), com os indicados da categoria de melhor filme internacional.
Durante o encontro, Panahi revelou que tentou suspender a campanha de divulgação do longa após o fim do período de votação da Academia, no início de março. Segundo ele, a decisão foi motivada pela gravidade do cenário em seu país. "Pedi a eles [distribuidores] para não contar a ninguém até o dia do Oscar", contou.
O diretor explicou que os responsáveis pela distribuição consideraram necessário informar a Academia sobre a decisão. "Mas eles disseram que precisaríamos avisar a Academia. E que seria controverso. Como eu não queria causar uma cena, estou, de certa forma, continuando à força."
Sentimentos contraditórios
O filme de Panahi disputa o prêmio de melhor filme internacional, concorrendo com o brasileiro "O Agente Secreto", dirigido por Kleber Mendonça Filho. A produção também está indicada na categoria de roteiro original.
Mesmo com o reconhecimento, o cineasta disse se sentir dividido por participar da premiação enquanto seu país enfrenta um momento delicado. "A verdade é que tenho sentimentos contraditórios. Eu realmente não entendo por que estou aqui. E, talvez, eu nem quisesse estar aqui."
Veja também
Filme inspirado por experiências pessoais
O longa "Foi Apenas um Acidente" narra a história de um grupo de pessoas que sequestra um homem que acreditam ter sido responsável por torturas sofridas durante a prisão no regime iraniano. Ao longo da trama, os personagens discutem se devem ou não buscar vingança.
Panahi contou que pensava na obra como uma reflexão sobre o futuro do país após uma eventual mudança política. "O ciclo de violência vai continuar, ou vamos chegar a um ponto e dizer: ‘corta’, e pôr um fim nisso?".
Segundo o diretor, os acontecimentos recentes no Irã tornam esse cenário cada vez mais distante. "Mas há novos desdobramentos a cada minuto que nos afastam cada vez mais desse ideal".
O cineasta também mencionou a prisão de seu colega de roteiro, o jornalista e ativista Mehdi Mahmoudian, após a assinatura de uma carta que pedia a saída do líder supremo iraniano.
Panahi afirmou que sua própria experiência na prisão influenciou diretamente o desenvolvimento do filme, que foi gravado em segredo no Irã. "Se eu não tivesse ido para a prisão, se não tivesse sido afastado da sociedade e enfrentado esses desafios, talvez esse filme nunca tivesse sido feito", disse. "De certa forma, o regime me presenteou com este filme".