Quem é Macaúba do Bandolim, Mestre da Cultura homenageado no Carnaval de Fortaleza 2026
Aos 82 anos, ícone do choro cearense toma ‘cachacinha’ todo dia e sonha em montar uma academia do gênero em Iparana.
Viver à beira da praia, ao lado da pessoa amada e com a cabeça na música: a folia de Macaúba do Bandolim acontece todo dia. Homenageado pelo Ciclo Carnavalesco da Prefeitura de Fortaleza deste ano – sim, é o rosto dele nas ilustrações em palcos e estruturas, sorriso largo e boina – o Mestre da Cultura não poupa palavras frente ao destaque durante a festa.
“Tô feliz, agradecendo a Deus e aos amigos que me ajudam”, diz ao telefone em tarde de sexta-feira. Além de especial, o reconhecimento é oportuno.
Macaúba do Bandolim é um dos maiores nomes da música instrumental brasileira. Cria do bairro Rodolfo Teófilo, na Capital, hoje encontra na casa onde reside, em Iparana, Região Metropolitana de Fortaleza, o refúgio necessário para encarar a própria trajetória e os louros colhidos ao longo dela. São muitos, e justificam o porquê desse alcance todo.
Para se ter ideia, ele atuou na formação de jovens bandolinistas em Fortaleza, Iparana, Apuiarés, Umirim, entre outros municípios cearenses. Além de inseri-los no mercado da música, colaborou para a propagação de uma sonoridade tão forte quanto carinhosa – no caso do mestre, por sinal, intimamente ligada ao seio familiar.
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Foi o pai dele quem o apresentou ao universo do choro, gênero ao qual se dedica e brilha. “Ele nunca foi músico profissional, mas tocava. Tinha a profissão dele, mas fazia rodas de choro, levava gente lá em casa pra tocar, e eu ficava com eles. Tinha ciúmes dos instrumentos e não queria que eu aprendesse a tocar porque, com isso, eu também poderia aprender a beber”, conta, voz em passeio pela lembrança.
Apesar da peleja do patriarca, não deu outra: o menino, afoito que era, brincou de ser músico e começou a aprender. Não o cavaquinho – instrumento que o pai, já convencido dos movimentos do garoto, queria que ele dominasse; mas o bandolim, essa espécie de pêra musical de cordas duplas que despertou paixão, aconchego, amor.
“O fato é que, depois de certo tempo, aprendi a tocar cavaquinho também, mas simpatizei mais com o bandolim porque era muito fã do Jacob do Bandolim. Foi como comecei a tocar as canções dele, e fui aperfeiçoando a técnica no instrumento. Tinha uns 15 anos”.
Por que o apelido de Macaúba do Bandolim?
O epíteto pelo qual ficou nacionalmente conhecido tem aura bem menos poética. Nascido José Felipe da Silva, trabalhou durante 24 anos na Ironte, primeira fábrica de alumínio do Ceará. Entrou como varredor. Limpava máquinas, e funcionários o chamavam de puxador. Um dia, ao não varrer direito o gabinete de um dos profissionais, recebeu um “cascudo” na cabeça. “Sabe o que é cascudo, né? Um cocorote”, ri.
Imediatamente um caroço surgiu na cabeça, e, talvez, pela semelhança com a planta, o apelido foi inevitável: Macaúba. O nome pegou. Era o fim da década de 1950. Desde lá, ninguém o conhece mais como Felipe – e ainda adicionaram o instrumento à alcunha porque o artista tornou-se referência absoluta nele. Estava formada a fama.
Hoje, aos 82 anos, Macaúba do Bandolim dá risada de cada acontecimento desse. Ao mesmo tempo, reconhece os desafios pelos quais passou. Ao apreciar a sonoridade de nomes como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo, por exemplo, pedia dinheiro à mãe a fim de pagar para que músicas desses artistas tocassem nos alto-falantes da cidade. Era um modo possível de aprender a tocar as canções.
“Só dava pra ouvir um lado da música. Quando eu chegava em casa, já estava com o ouvido novo, aprendia uma parte da canção e, no outro dia, pedia mais dinheiro pra aprender a outra”. Já adulto, as contendas foram de outra ordem, sobretudo por precisar dividir trabalho com o até então hobby musical. Tão logo reconheceu que a música não era apenas capricho, a dificuldade foi propriamente chegar aos lugares onde faria show.
O pouco dinheiro dava apenas para o ônibus, e então muitas vezes era preciso esperar o Corujão e voltar para casa. “Durante esse tempo todo, sofri muito na noite. Era muito ruim. Mas tinha um bar perto da faculdade de Medicina, o Bar da Gia, em que nos dias de sexta e sábado, na minha folga, eu via o pessoal tocar lá. Eram amigos como Pedro Ventura, Luís Armando e Terezinha Silveira”, recorda.
“Um dia, o Pedro, violonista muito bom, disse, ‘Rapaz, por que você não pede as contas dessa firma e vem tocar comigo aqui?’. Eu tinha medo porque meu pai não queria que eu vivesse de música. Mas teimei, já era casado, pedi as contas do trabalho e fui tocar no Bar da Gia. A partir daí comecei a tocar em todos os bares de Fortaleza, a ponto até de viajar para Brasília e representar o Ceará”. A lenda estava construída: alçou voo.
Apreço pelo Carnaval
Quanto à festa na qual neste ano recebe homenagem, Macaúba diz ser presença cativa há muitos anos – da participação em um trio elétrico de Fortaleza até presença na outrora banda de música da Prefeitura, por onde se aposentou. Antes disso, tocava em carnavais de clubes e sempre foi de se animar perante a vida, feito as melhores folias mominas.
Não à toa, repete várias vezes ao longo da prosa por telefone o quanto é feliz. “Apesar da idade, tô com saúde, tenho uma esposa que gosta muito de mim, me ajuda, dá opinião, tem ouvido bom e me ensina. É muito bom. Também tenho dois filhos que me ajudam, e eu ajudo eles; e um neto que está engatinhando pra tocar comigo no palco”.
A presença dos filhos e do neto nas apresentações ao longo do Ciclo Carnavalesco da Prefeitura de Fortaleza neste ano, inclusive, está garantida. Nas palavras do mestre, “nosso carnaval não será só carnaval. Vou fazer uma trajetória: começarei tocando choro, algumas outras coisas, depois terminar com músicas da época mesmo”.
Até lá e depois, acumula vontades. Uma delas é abrir espécie de academia do choro, para formar novos nomes no segmento. O equipamento funcionaria em Iparana mesmo, cidade de morada. E, claro, sonha em viver mais para conquistar mais. “Minha mãe morreu com 97 anos, então ainda tem muita coisa pra eu fazer ainda”, prospecta.
“Sou feliz. Vivo na minha casa tocando meu bandolim, ouvindo música. Moro na beira da praia, tenho uma mulher com quem me entendo muito bem, e sigo assim. Tenho saúde, tomo minha cachacinha todo dia com peixe. Qualquer dia, se quiser vir pra cá, avise”, diz ao repórter. Quem recusa?