Idoso caminha 54 km em romaria como prova de amor à esposa e a Padre Cícero
Osmundo da Cruz tem 86 anos, é afilhado de Frei Damião e há 17 anos realiza a romaria.
Osmundo José da Cruz não carrega o mundo no próprio nome à toa. Age como se fosse gigante. Aos 86 anos de idade, atravessa 54 quilômetros a pé madrugada adentro para reverenciar quem intercede a Deus pelo bem-estar de todos e honrar a saudade habitante do peito. O nome da falta é a esposa, Maria Ivete Leite da Cruz.
Falecida há 17 anos, foi o grande amor do cearense morador de Jardim, Sul do Ceará. Com ela, alicerçou a família de três filhas, seis netos e um bisneto. Ocupou casa, enxergou esperança, gostou de estar vivo. A partida da mulher fez nascer no homem a vontade de promover alguma coisa para que o vazio não dominasse, para que fosse para longe.
Uma romaria pareceu a homenagem perfeita. Ele assim o fez e faz. No último mês de dezembro, reuniu mais de 400 pessoas em direção a Juazeiro do Norte com toda a coragem e resistência que a missão impõe. No mundaréu de gente, havia aquele senhor alegre e muito destemido caminhando até a mansão maior do fervor.
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“Durante a caminhada, eu rezo, converso com as pessoas na estrada… Nunca nem encostei num carro pra beber água, quem pega é meu povo”, conta com a simplicidade de um orgulho tímido.
Essa história começa muito antes, porém, no convívio sobretudo com a avó. Seu Osmundo recorda a fé dela, a entrega. Dizia que o Padim Ciço era milagroso. “Quando eu era menino, fui pegando intimidade com isso, e hoje também tenho essa fé grande nele”.
Anos depois, um amigo fez promessa ao homem santo, alcançou graça e tratou de cumprir a promessa de ir a Juazeiro. O jovem Osmundo acompanhou-o em uma dessas e pegou gosto. Não à toa, mesmo quando o colega não quis mais ser fiel ao compromisso, continuou indo e não parou mais. A partida da esposa acendeu nele um gosto diferente de prestar culto, e assim passou a chamar a família para também acompanhá-lo.
O que começou com 16 romeiros, hoje ostenta mais de quatro centenas de corações. Gente que foi se achegando porque gostou daquele movimento familiar de seu Osmundo. Na estrada, ele é o último, fechando o pelotão, porque acha ruim “deixar alguém pra trás”. “Posso chegar mais tarde que os outros, mas quero chegar com o derradeiro”.
É a atenção do patriarca. Unido a Padim Ciço, perdeu a conta de quantas vezes pediu e foi atendido: quando filha e neta foram curadas do câncer; na lida diária da roça, em meio aos pés de feijão, de fava, de milho; quando a esposa venceu o medo de cirurgia e foi operada para ter saúde. Carrega essas conquistas no semblante feito o amuleto que de fato são.
O fim do ano é momento de tudo se repetir. Em dezembro, mês de férias e Natal, o período se abre para a jornada acontecer: colocar o pé para fora de casa às 17h, atravessar noite de lua cheia – e apenas de lua cheia, pela iluminação que ela proporciona aos andarilhos – e chegar às 7h aos pés da estátua de Cícero, para missa, louvor e até prosa. Seu Osmundo conversa com o Padim. “Peço bênção para todos nós”.
A preparação para o grande encontro acontece desde agora. Envolve caminhadinha ao fim de tarde, boa alimentação e sonhar acordado. O maior dos desejos: estar vivo e com saúde. O resto está na conta do sublime.
“Amor é a gente gostar do próximo e o próximo gostar da gente. Eu tinha muito amor pela minha esposa, mas, como Deus levou, dou amor à minha família. Sinto muita saudade dela. Pra mim, tá viva. Abaixo de Deus e do meu Padim Ciço, por meio da romaria, eu chego lá”.
Esta é a história de amor de Osmundo José da Cruz pela esposa, por Padre Cícero e pela família. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.