Garis e catadores recebem cartas de amor, e gesto emociona trabalhadores

Estudantes de projeto nascido em Quixeramobim, no Ceará, escrevem textos para valorizar profissionais.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 09:16)
Legenda: Entrega de cartas a garis de Quixeramobim promoveu afeto e emoção.
Foto: Arquivo pessoal.

“Nunca vou esquecer o que vocês fizeram”, diz um gari ao receber a primeira carta da vida. Chora. Sorri. O texto não foi escrito por ninguém da família, nem por amigo próximo. Não foi entregue em dia de aniversário ou noutra data especial. O carinho se deu ali, no meio da lida com o lixo público, entre aromas e resíduos que se dissiparam tão logo o amor entrou.

A “culpa” por esse momento é de uma turma de estudantes. São jovens ainda, 15, 16 anos. Mas participam de um projeto cujo objetivo é despertar, por meio de ações concretas e da palavra em papel, a empatia pelo outro e formas calorosas de transformar o cotidiano em algo mais: lugar de visibilidade para todos – sobretudo os esquecidos pela sociedade.

“Girassóis - As mãos da sustentabilidade pelos olhos da dignidade” nasceu em maio de 2025 sob o calor de Quixeramobim, Sertão Central do Ceará, e de um desejo grande de revolução pela ternura. Não é movimento fácil. A dureza dos dias parece conclamar outro tipo de olhar. Mas, tijolinho por tijolinho, a ação tem conseguido ir longe, principalmente no que toca ao sentimento. São muitos envolvidos em todo o processo.

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Amparados pelos cinco R’s da sustentabilidade – Reduzir, Reciclar, Reutilizar, Repensar e Recusar – os integrantes participam de feiras, projetos científicos e várias outras atividades nos quais o foco é valorizar profissionais de economia solidária no interior do Estado. A ideia de escrever cartas a esses trabalhadores surgiu a partir do “R” de Repensar.

“O intuito é potencializar e utilizar a força que os alunos têm para dar força a quem está fora”, resume Rayane Fernandes, professora das redes municipal e estadual de ensino em Quixeramobim e idealizadora do projeto. O ponto de partida foi o Liceu Alfredo Almeida Machado, localizado no município, e, segundo ela, tudo tem se transformado.

Na imagem, vista superior de uma mesa branca onde diversas mãos de diferentes pessoas tocam e organizam várias folhas de papel espalhadas. As folhas contêm textos escritos à mão, alguns com canetas de cores diferentes (azul, preto e rosa) e pequenos adesivos ou desenhos. Os papéis parecem ser cartas ou mensagens de agradecimento e relatos. As mãos ao redor da mesa sugerem um momento de compartilhamento ou revisão coletiva do material produzido.
Legenda: Cartas são escritas por jovens com supervisão da professora Rayane Fernandes.
Foto: Arquivo pessoal.

“Quando cheguei no Liceu, percebi que as competências socioemocionais dos alunos – principalmente autoconfiança, empatia e amabilidade – precisavam melhorar. Além de ser professora de Língua Portuguesa, sou uma pessoa que sente. E, a partir da produção escrita, por ser formada em Letras-Português, percebi que poderia elevar a autoestima dos estudantes, ao mesmo tempo que valorizar pessoas muitas vezes invisibilizadas”.

Não à toa, além de garis (Recusar), a iniciativa contempla catadores (Reciclar), costureiras (Reduzir) e pacientes oncológicos (Reutilizar). Cartas não são os únicos carinhos entregues à mão. Ternamente, estudantes e professora preparam diários, cordéis, poemas, fanzines, desenhos, pinturas, tudo embalado com sementes de girassol, fazendo jus ao nome do projeto.

Na imagem, duas jovens estão inclinadas sobre uma mesa branca, auxiliando duas senhoras idosas em uma atividade de pintura. A jovem à esquerda usa um uniforme escolar branco e orienta a senhora à sua frente, que pinta um desenho com um lápis cor-de-rosa. À direita, a outra jovem, de camiseta azul marinho, observa sorridente enquanto a segunda senhora colore um desenho de paisagem com lápis verde. Sobre a mesa, há diversos lápis de cor espalhados. O ambiente é iluminado e possui paredes revestidas com azulejos em tons de bege.
Legenda: Visitas a pacientes oncológicos também faz parte do roteiro de atividades do projeto Girassóis.
Foto: Arquivo pessoal.

“Muitas vezes tiro os alunos da escola e levo até esses trabalhadores pra gente conhecer o cotidiano deles, e vice-versa: os profissionais também são convidados a estar na escola. Como posso amar algo que não conheço? Sempre tive muito isso em mim. Como posso pedir para eles amarem, terem empatia com alguém, se não conhecem aquela realidade? Era preciso fazer isso”, dimensiona Rayane.

O resultado de todo esse investimento humano é múltiplo. Da parte dos estudantes, notas aumentaram, frequência foi ampliada e a participação em sala é notável. Da parte dos trabalhadores, a sensação é de voltar para uma casa onde nunca tinham entrado. Morada de sonhos, de afetos e até possibilidades. Passam a enxergar o mundo sob outra ótica.

Na imagem, uma mulher de cabelos longos e vestido preto entrega um maço de envelopes brancos para um grupo de outras mulheres em uma oficina de costura. A mulher à esquerda, de óculos e camiseta floral, recebe uma carta sorrindo. Ao fundo, outras quatro mulheres observam a ação. Na parede branca, há um suporte com ferramentas de costura e avisos de segurança. O ambiente é iluminado e sugere um momento de integração no local de trabalho.
Legenda: Professora Rayane Fernandes entrega cartas escritas por estudantes a costureiras.
Foto: Arquivo pessoal.

A própria Rayane é testemunha. Na primeira entrega de cartas, muitos garis e catadores, por exemplo, acharam que era engano, que o texto não era para eles. Mediante esforços e constância dos integrantes do projeto, o panorama mudou. Hoje anseiam pelos pequenos envelopes e, mesmo fora do expediente, cumprimentam a trupe amorosa.

Por isso os relatos se espraiam. E são bem fortes. “Um gari já disse, ‘não sei ler, mas minha esposa leu a carta pra mim, e é algo que eu nunca vou esquecer’. Em outra carta, um aluno órfão de mãe escreveu: ‘Sei o frio da solidão, e tenho certeza que você já perdeu alguém que amava. Perdi minha mãe, e sofro muito. Então quero dizer que você não sofre sozinho. Assim como você sofre sem me conhecer, eu também sofro e acolho seu sofrimento’”.

Na imagem, um grande grupo de aproximadamente quarenta pessoas, majoritariamente crianças e adolescentes, posa para uma foto coletiva em um pátio escolar coberto. Eles estão posicionados à frente de uma parede pintada de amarelo e azul, que exibe no topo o brasão da
Legenda: Integrantes do projeto reunido durante ação: amor, entrega e transformação.
Foto: Arquivo pessoal.

“Enquanto eles compreenderem que cidadania gera transformação, vou acreditar que minha prática está dando certo. A escrita me transformou, e tenho fé que ela permanecerá mudando a vida das pessoas. É minha missão enquanto professora. Quero muito que esses alunos se reencontrem, e percebam que têm voz, vez e força. E essa força não nasce de grandes coisas, mas do gesto”. Não à toa, Rayane define o amor como bell hooks define: prática, ação.

Para o futuro, quer esticar as redes, jogá-las num mar mais aberto. Ou em solo, para que brotem ainda mais girassóis. Quem sabe entregar cartas a ainda mais trabalhadores? Quem sabe ensiná-los a ler, se porventura precisarem? O campo está aberto para reinícios.

“Podem tirar nossa roupa, brincos, sapatos… A gente pode ganhar R$ 1 milhão e amanhã perder. Mas ninguém tira a força que habita em nós para sempre recomeçarmos”.

 

Esta é a história de Rayane Fernandes e do projeto Girassóis, em Quixeramobim. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

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