Avó enfrenta desafios de locomoção para ver a neta cantar na janela do Natal de Luz
Dona Marilene da Costa acompanha Emilly há pelo menos 12 anos e reacende gosto pela magia natalina.
Se o princípio do Natal é celebrar um nascimento, quão belo seria festejar aquilo que faz a vida nascer de novo todos os dias? Dona Marilene da Costa Barros age assim. Aos 68 anos, a dona de casa enfrenta todo e qualquer desafio para ver quem ama feliz. Neste caso, a filha-neta Ana Emilly Barros Dantas, integrante do coral Ceará Natal de Luz.
Diariamente, assim que a temporada de apresentações começa, a sexagenária não poupa esforços para acompanhar Emilly. Moradoras do bairro Aerolândia, periferia da Capital, cedo começam o movimento de se aprontar para chegar a tempo na Praça do Ferreira. Não pegam táxi, não cogitam transporte por aplicativo. As finanças contemplam apenas transporte público, e é dentro de um que sonhos são ruminados.
O sobe e desce dos coletivos e toda a labuta das outras obrigações do dia – aliados à vontade de fazer dar certo para a neta – por vezes eclipsa algo extremamente dificultoso para dona Marilene: ela tem problemas de locomoção. Há 27 anos, um cachorro mordeu uma das pernas e causou a moléstia. O andar ficou custoso, complicado, sem muita energia.
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Quase sempre está sentada. Não aguenta tanto tempo em pé. “Fico tão cansada… Hoje mesmo já tinha vindo aqui ao Centro resolver um negócio, depois fui pra casa, almocei, descansei da comida, e já vim pra cá de novo, pra não deixar Emilly chegar atrasada. Vale a pena o sacrifício”, confessa, voz em passeio pelo passo a passo da rotina.
Nas palavras da avó, a menina de 14 anos é dedicada, estudiosa, nunca tirou nota vermelha, “só dá orgulho”. Quando a vê no segundo andar do edifício Excelsior, cantando e dançando para a vida, emociona-se. Chora porque lembra do marido falecido, outro acompanhante ferrenho da garota. Chora porque aquilo ensaia o paraíso na Terra.
“Acho muito bonita essa festa, o Natal de Luz. Se pudesse, subiria com a Emilly até as janelas”. Subiria mesmo. É realmente capaz de coisas grandes. Tem uma filha em Santa Catarina, onde passou Natal e Ano Novo durante alguns anos, mas deixou de ir frente ao zelo com a participação da neta no coral. Quer preservar esse gesto. “Acompanho desde quando ela tinha dois anos. Como é que eu não continuaria até hoje?”.
Emilly honra o compromisso. Ingressou no Natal de Luz quando ainda estudava no Colégio da Imaculada Conceição, mediante apoio de uma das professoras. Extrovertida que sempre foi – timidez nenhuma em cantar e dançar – foi fácil se enxergar numa situação na qual seria observada e aplaudida por todos.
“É uma coisa que gosto muito de fazer, porque a gente realmente transmite – não só eu, mas todas as crianças do Natal de Luz – uma energia diferente. Olhamos e percebemos que estamos fazendo uma mudança na vida das pessoas. Tem gente que está meio mal e, quando vem pra cá, fica feliz com nossa apresentação. Mandamos alegria”.
Todos os elementos reunidos dimensionam como tudo chega ao íntimo de dona Marilene. Natal, para ela, é isto: a alegria citada pela neta. E também estar em paz, com saúde, dividir a ceia na casa da vizinha, participar também do amigo secreto de lá. Sobre os ladrilhos da Praça do Ferreira, ver Emilly cada vez maior em sabedoria e graça. Agradecer por isso.
“Chego até a cancelar ou adiar alguns compromissos para estar aqui com ela. Faço tudo por Emilly, ela é minha vida. Se eu não tivesse ela, já estaria debaixo do chão”. Alguém um dia escreveu que o tempo não conserva nada, quem conserva é o cuidado. Todo dia é Natal e cuidado em quem decide permanecer.
Esta é a história de amor de Dona Marilene da Costa Barros e Ana Emilly Barros Dantas pelo Natal. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.