Avó enfrenta desafios de locomoção para ver a neta cantar na janela do Natal de Luz

Dona Marilene da Costa acompanha Emilly há pelo menos 12 anos e reacende gosto pela magia natalina.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: Embora com movimento comprometido da perna, felicidade de dona Marilene é ver Emilly se apresentar nas sacadas do Hotel Excelsior.
Foto: Ismael Soares

Se o princípio do Natal é celebrar um nascimento, quão belo seria festejar aquilo que faz a vida nascer de novo todos os dias? Dona Marilene da Costa Barros age assim. Aos 68 anos, a dona de casa enfrenta todo e qualquer desafio para ver quem ama feliz. Neste caso, a filha-neta Ana Emilly Barros Dantas, integrante do coral Ceará Natal de Luz.

Diariamente, assim que a temporada de apresentações começa, a sexagenária não poupa esforços para acompanhar Emilly. Moradoras do bairro Aerolândia, periferia da Capital, cedo começam o movimento de se aprontar para chegar a tempo na Praça do Ferreira. Não pegam táxi, não cogitam transporte por aplicativo. As finanças contemplam apenas transporte público, e é dentro de um que sonhos são ruminados.

O sobe e desce dos coletivos e toda a labuta das outras obrigações do dia – aliados à vontade de fazer dar certo para a neta – por vezes eclipsa algo extremamente dificultoso para dona Marilene: ela tem problemas de locomoção. Há 27 anos, um cachorro mordeu uma das pernas e causou a moléstia. O andar ficou custoso, complicado, sem muita energia.

Veja também

Quase sempre está sentada. Não aguenta tanto tempo em pé. “Fico tão cansada… Hoje mesmo já tinha vindo aqui ao Centro resolver um negócio, depois fui pra casa, almocei, descansei da comida, e já vim pra cá de novo, pra não deixar Emilly chegar atrasada. Vale a pena o sacrifício”, confessa, voz em passeio pelo passo a passo da rotina.

Nas palavras da avó, a menina de 14 anos é dedicada, estudiosa, nunca tirou nota vermelha, “só dá orgulho”. Quando a vê no segundo andar do edifício Excelsior, cantando e dançando para a vida, emociona-se. Chora porque lembra do marido falecido, outro acompanhante ferrenho da garota. Chora porque aquilo ensaia o paraíso na Terra.

Na imagem, uma foto noturna e de close-up no rosto de uma mulher idosa de pele clara e cabelo grisalho, Dona Marilene. Ela está olhando para cima e ligeiramente para a esquerda com uma expressão de encantamento ou admiração. O rosto dela está iluminado por uma luz quente (laranja/amarela). Ela usa uma faixa clara no cabelo e um brinco pequeno. O fundo está em bokeh (desfocado), mostrando luzes amarelas intensas em formatos de arco (possivelmente decorações de Natal) e sombras de pessoas, algumas com tons arroxeados devido à iluminação ambiente.
Legenda: É costume de dona Marilene se emocionar enquanto assiste Emilly no coral.
Foto: Ismael Soares.

“Acho muito bonita essa festa, o Natal de Luz. Se pudesse, subiria com a Emilly até as janelas”. Subiria mesmo. É realmente capaz de coisas grandes. Tem uma filha em Santa Catarina, onde passou Natal e Ano Novo durante alguns anos, mas deixou de ir frente ao zelo com a participação da neta no coral. Quer preservar esse gesto. “Acompanho desde quando ela tinha dois anos. Como é que eu não continuaria até hoje?”.

Emilly honra o compromisso. Ingressou no Natal de Luz quando ainda estudava no Colégio da Imaculada Conceição, mediante apoio de uma das professoras. Extrovertida que sempre foi – timidez nenhuma em cantar e dançar – foi fácil se enxergar numa situação na qual seria observada e aplaudida por todos.

Na imagem, uma foto noturna e vertical em ambiente externo. Em primeiro plano, sentada em um banco ou assento escuro, está Dona Marilene, uma mulher idosa de pele clara e cabelo grisalho, sorrindo para a câmera. Ela usa uma blusa escura de manga curta e uma saia estampada clara. Ela tem uma bolsa preta apoiada na perna. Atrás dela, em pé, está Ana Emilly, uma jovem de pele morena, cabelo cacheado e óculos, com um sorriso alegre e a mão na cintura. Ela veste um traje de Natal composto por uma bata branca de cetim com detalhes dourados e um xale vermelho e branco, além de um gorro de Papai Noel. Elas estão abraçadas, com o braço de Dona Marilene no ombro de Ana Emilly. O fundo mostra uma árvore escura com luzes de Natal vermelhas, um prédio iluminado em estilo clássico e uma barraca de rua, tudo iluminado por luzes amarelas e brancas.
Legenda: Emilly honra o compromisso de ter a avó por perto e contar com ela para tudo.
Foto: Ismael Soares.

“É uma coisa que gosto muito de fazer, porque a gente realmente transmite – não só eu, mas todas as crianças do Natal de Luz – uma energia diferente. Olhamos e percebemos que estamos fazendo uma mudança na vida das pessoas. Tem gente que está meio mal e, quando vem pra cá, fica feliz com nossa apresentação. Mandamos alegria”.

Todos os elementos reunidos dimensionam como tudo chega ao íntimo de dona Marilene. Natal, para ela, é isto: a alegria citada pela neta. E também estar em paz, com saúde, dividir a ceia na casa da vizinha, participar também do amigo secreto de lá. Sobre os ladrilhos da Praça do Ferreira, ver Emilly cada vez maior em sabedoria e graça. Agradecer por isso.

Na imagem, uma foto noturna tirada em ângulo de contraponto (de baixo para cima), focando nas costas e no ombro direito de uma mulher com cabelo curto e grisalho. Ela usa uma blusa escura de manga curta e um brinco pequeno e prateado. A mulher está olhando para um prédio alto, que domina o centro da imagem. O prédio está intensamente decorado com luzes de Natal. A decoração é predominantemente neon/LED nas cores magenta ou roxo vibrante, com contornos amarelos/dourados, e inclui formas de estrelas e árvores de Natal vermelhas/rosas brilhantes. O céu noturno é completamente escuro, e a iluminação colorida do prédio contrasta fortemente com o fundo.
Legenda: Todo dia é Natal e cuidado para Dona Marilene, que insiste em permanecer ao lado de quem ama.
Foto: Ismael Soares.

“Chego até a cancelar ou adiar alguns compromissos para estar aqui com ela. Faço tudo por Emilly, ela é minha vida. Se eu não tivesse ela, já estaria debaixo do chão”. Alguém um dia escreveu que o tempo não conserva nada, quem conserva é o cuidado. Todo dia é Natal e cuidado em quem decide permanecer. 

 


Esta é a história de amor de Dona Marilene da Costa Barros e Ana Emilly Barros Dantas pelo Natal. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

Assuntos Relacionados