Diários de mãe inspiram romance sobre demência na velhice e busca pela memória

Obra "Por que são tão lindos os cavalos?" é o testemunho de amor de uma filha para a mãe.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
Imagem para ilustrar matéria sobre livro Por que são tão lindos os cavalos.
Legenda: Na imagem, Julieta aparece em fotografias de infância com a sua mãe, Sari, que enfrenta o processo de demência. As frases foram retiradas do livro.
Foto: Arte por Beatriz Rabelo com fotografias da escritora Julieta Correa (@castorbomba).

O que fazer diante do esquecimento de uma vida? Frente ao avanço da demência da mãe, a escritora argentina Julieta Correa se debruça sobre os antigos diários de Sari para construir um romance comovente e profundo sobre o envelhecimento. Sua estreia na literatura chegou ao Brasil em janeiro, publicada pela Editora 34, com tradução primorosa de Mirella Carnicelli.

Sem esconder as durezas, utiliza a escrita para iluminar as belezas no cotidiano materno. Julieta é neta de uma livreira, sua mãe gostava de brincar com palavras. A escrita é herança familiar, na qual ela encontra suporte para ir construindo e descobrindo o seu próprio estilo.

Imagem de Sari, mãe da escritora Julieta Correa.
Legenda: Sari gostava de cavalos, conhecia os pássaros e conversava tranquilamente com desconhecidos nas ruas.
Foto: Reprodução/Instagram/@castorbomba.

Por vezes, coloca em xeque seu lugar enquanto escritora, ainda que tenha sucedido no desafio de relatar as perdas no processo de envelhecimento precoce da mãe:

"A demência é uma doença que não tem como contar-se a si mesma. Não há relato possível quando as palavras faltam, só é possível contá-lo de fora. Essa é minha missão".
Julieta Correa
Escritora

E Julieta abraça a tarefa como uma forma de testemunho. Um movimento de dar nome ao que não se pode nomear, a decifrar os vazios que sua mãe já é incapaz de preencher. E percebe, em todo processo, ser necessário ajustar as "rédeas do luto". Sua mãe está viva, mas já não é mais quem costumava ser.

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Solidão nos cuidados 

Sozinha, Julieta foi capaz de ver os sinais deixados pela mãe muito antes dos diagnósticos médicos. Para ela, eram gritantes as evidências. Sari lhe ligava parecendo confusa, fora do eixo, preocupada demais. Além disso, a mãe deixou de lado a escrita religiosa de seus diários, ao qual manteve por mais de quarenta anos. 

Mas como Cassandra, que tentou alertar o que vinha pela frente, não foi escutada. Os médicos descartaram suas preocupações: uma gripe, tédio pandêmico, depressão. Até que era tarde demais, e algo de imensurável já havia se perdido

Houve diversos estágios dessa demência. Uma em que ela ainda conversava, em que aceitava caminhadas em parques e em museus. Mas gradualmente foi perdendo a fala e a presença nos ambientes. Até que se tornou quieta e silenciosa. 

Imagem de Sari, mãe de Julieta, escritora do livro por que são tão lindos os cavalos?.
Legenda: Sari tinha o costume de alimentar diários, mantendo escritos por mais de quarenta anos.
Foto: Reprodução/Instagram/@castorbomba.

Sari é feita de uma substância complexa. Acreditava que dentro de si havia um monastério — "um espaço amplo, silencioso, onde estava sozinha, isolada do mundo exterior (...) era sumamente agradável" — e ainda assim encontrava forças para ser terna e presente.

Amava os cavalos, as temporadas no sítio, escutava os sapos e cuidava de passarinhos machucados. No processo de guardar, Julieta entra em uma corrente de escritas sobre o esquecimento e o luto, como o de Flávia Peret, que criou uma obra sobre o Alzheimer da avó. "O luto pelo que perdemos, pelo que não vai mais voltar", afirma.

E até aqueles que não vivem processos similares, conseguem se sensibilizar com história. Ela é tão específica que se transforma universal. A perda e a morte fazem parte da vida. Todos possuem figuras familiares indispensáveis.

Comprometimento de lembrar

A obra surge como um movimento contrário ao esquecimento da mãe. Julieta parece conter ainda um receio profundo de que ela também passe pelo mesmo processo de demência. Então, escreve. Enquanto tudo ainda parece fresco e palpável, e cria o livro como registro. "Ela adorava quem pedia carona e conversava. A risada dela ecoava por todos os cantos da casa", relata sobre a mãe.

Sari ainda era conhecida por seu ouvido prodigioso. Carregava sensibilidade para reconhecer sapos, palavras, músicas e idiomas. "Queria ser querida, queria que apreciassem suas esquisitices, queria fazer a gente rir". O amor está na lembrança, mas também em conhecer o outro a fundo. As idiossincrasias que tornam Sari, quem é. 

Imagem de capa do livro Por que são tão lindos os cavalos?, de Julieta Correa.
Legenda: Obra resulta de um processo de escrita de mais de seis anos.
Foto: Divulgação/Editora 34.

E ainda que os diários de Sari não sejam mais preenchidos, que Julieta se veja diante de buracos e de fantasmas, que carregue uma sensação constante de estar perdendo algo, ela descobre um contrafluxo potente na escrita. 

Tudo está em vias de desaparecer, decerto. Mas enquanto estiver escrevendo, Julieta afirma que Sari e ela seguirão conversando. A mãe pode estar perdida em algum canto da própria mente, mas segue ali. O livro é seu modo de procurar por ela. 

Serviço

Livro “Por que são tão lindos os cavalos?”
Quanto: R$ 79,00
Onde comprar: Editora 34

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