Clássicos como ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ ganham novo fôlego e dominam as telas

Fenômeno também pode ser visto na literatura, com aumento nas buscas por livros como "Noites Brancas".

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
07 de Fevereiro de 2026 - 18:00
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Legenda: Diversas adaptações de clássicos têm chegado às salas de cinema.
Foto: Arte por Beatriz Rabelo com imagens de divulgação.

Uma vida inteira pode ser vivida para um clássico. Atravessando as linhas do tempo, essas obras carregam a capacidade de transformar visões do mundo e de alcançar o universal. Essa sobrevida da obra decorre, inclusive, das releituras realizadas a cada nova geração.

Neste ano, o cinema recebe pelo menos três grandes lançamentos inspirados em clássicos: “Hamnet”, filme vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar; “O Morro dos Ventos Uivantes”, com estreia marcada para próxima quinta (12), e “A Odisseia”, filme de Christopher Nolan previsto para julho. 

Mas esses fenômenos não estão restritos ao cinema. A literatura também tem registrado o aumento no crescimento de obras clássicas. Conforme divulgado na Lista Nielsen-PublishNews de Mais Vendidos de 2025, neste ano, o livro “Noites Brancas”, de Dostoiévski, registrou um aumento vertiginoso em relação a anos anteriores. 

Após viralizar no TikTok, a edição da Editora 34 acumulou  62,3 mil exemplares no varejo, enquanto costumava vender aproximadamente 1 mil exemplares anualmente.

Legenda: "O Morro dos Ventos Uivantes" e "Noites Brancas" são clássicos, enquanto "Hamnet" é uma releitura literária de um clássico.
Foto: Divulgação.

E essa não é a primeira vez que esse movimento é registrado. Em 2024, a tradução para o inglês do clássico brasileiro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, chegou a esgotar nos Estados Unidos. 

Outros exemplos podem entrar nessa lista: “A Canção de Aquiles”, uma releitura de “A Ilíada”, e “A Metamorfose”, de Kafka, ícone cult. No cinema, muitos títulos que já foram adaptados ou possuem adaptações marcadas: "Drácula", "Frankenstein", "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade". A lista é longa. 

Retorno dos clássicos em novas gerações

O professor Robert de Brose, da Universidade Federal do Ceará (UFC), explicou que esse retorno em diferentes gerações é justamente o que consolida essas obras como clássicos. Fontes inesgotáveis de conhecimento acumulado sobre a humanidade, são obras que abordam temas universais. 

“A única coisa que consagra um clássico é o tempo. E obras como ‘A Odisseia’ já passaram por essa prova do tempo. Os clássicos se conectam de uma maneira muito profunda e íntima com a humanidade em geral”, detalha.

As releituras podem acontecer por meio de produções cinematográficas, obras literárias, adaptações ao teatro ou mesmo criações de fãs. E quando essas novas versões surgem, há também um novo fôlego do clássico, acendendo novos debates e interesses. "A releitura incentiva leitores que talvez nunca tenham pensado em ler o original, a ir atrás e ler".

Esse convite às novas gerações a retornarem ao clássico pode ocorrer de diversas formas, inclusive através de produções compartilhadas no TikTok. Em 2021, por exemplo, uma adaptação cantada de “A Odisseia”, chamada "Epic: The Musical", viralizou no TikTok.

Na época, conseguiu gerar um aumento de interesse pela história original, com o criador Jorge Rivera-Herrans ganhando mais de 2 milhões de seguidores na rede. Além de divulgar o trabalho, ele também falava sobre o livro.

E esse interesse pelo original tem surgido também com a nova adaptação de "O Morro dos Ventos Uivantes". Há muitas discussões sobre os figurinos, a escolha dos atores, a relação dos protagonistas. Mas enquanto ocorrem as divergências e os burburinhos, surge também o estímulo para retornar à obra original. Seja por curiosidade dos que se interessaram ou por consolo dos que não gostaram. 

Experiências imensuráveis 

Os clássicos são obras que acompanham os leitores por uma vida inteira. A cada releitura, são descobertas novas camadas de significados. E, a medida que a vida vai sendo vivida e se transforma, a experiência da obra também. 

“Você adquire experiência e descobre ferramentas de como lidar com diferentes questões na sua vida real. Quando você lê ‘A Odisseia’, você entende a importância da paciência, da resiliência, dos desafios. É praticamente uma metáfora da humanidade, de como a gente progride, de como a gente tem diversos reveses”. 
Robert de Brose
Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Mas através da leitura, descobre-se que há crescimento na jornada, que somos sujeitos enriquecidos pelas experiências. A leitura surge como um treino para vida, um espaço seguro para mergulhar em conhecimento de vários séculos, que fazem parte da nossa história. Da Grécia antiga à Florença do século XVI, os leitores são enriquecidos por obras que fazem parte da formação da humanidade. 

Obras como
Legenda: Obras como "Anna Kariênina", "Frankenstein" e "A Odisseia" possuem adaptações para o cinema.
Foto: Divulgação.

Diante disso, o especialista levanta a questão: qual preço você pode colocar em uma experiência? Qual preço é possível ter a "perda" de uma ou duas horas para ler uma tragédia como "Hamlet"? Para Robert, é imensurável tudo que você aprende a partir de Shakespeare, Dostievski ou de um poema como a Divina Comédia ou de um livro como "O Morro dos Ventos Uivantes". 

"O enriquecimento que esses livros trazem e o crescimento que eles promovem para a nossa personalidade, para a nossa educação, é uma forma de nós conhecermos o humano através dessas experiências, e também de passarmos por experiências que na vida real poderia ser algo aterrador, destrutivo", disse.

Cada tradução e releitura contará com mudanças

Assim, Robert acrescenta que uma releitura sempre pede um coração aberto dos leitores. É preciso compreender que a narrativa vai ser experimentada em outro meio, outra mídia, então jamais vai conseguir ser uma réplica completa do original. Os figurinos, os roteiros, a escolha do elenco contam com liberdades poéticas. 

"Seria ingênuo a gente pensar que se poderia passar toda a complexidade de uma obra literária em outro meio. Necessariamente, vai ser preciso fazer compressões na história, adaptações. Algumas coisas vão ter que ficar de fora, porque é impossível contar uma história com a mesma quantidade de detalhes no cinema".

Para Robert, as releituras trazem enriquecimento e, mesmo quando o público não gosta, é uma oportunidade para repensar a obra original. Isso porque abre margem para questionamentos: por que não gosto? Como gostaria que fosse? E como era no livro?

"É claro que às vezes tem filmes que mudam completamente a história, mas é uma releitura. Então, eu acho que a frustração acontece muito quando as pessoas querem ler o livro através do filme. Não leram o livro, conhecem mais ou menos o resumo da história e vão ao cinema esperando que através do filme consigam realizar uma leitura da obra literária, e são duas coisas completamente diferente. Se eu quero ler a história exatamente como o autor escreveu, então a única opção possível é ler o livro", afirma.