Distopia ambientada em Quixadá leva escritora cearense à editora Aleph

Kinaya Black lançará livro “Memória Cheia”, que coloca o Sertão no mapa da ficção científica, no segundo semestre.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
A escritora cearense Kinaya Black é um dos cinco primeiros nomes brasileiros a integrar o catálogo da editora Aleph.
Legenda: A escritora cearense Kinaya Black é um dos cinco primeiros nomes brasileiros a integrar o catálogo da editora Aleph.
Foto: Divulgação.

Como parte de um movimento de ampliação e diversificação do catálogo, a editora Aleph, principal casa editorial de ficção científica do País, começará a publicar romances de artistas brasileiros a partir deste ano.

Entre os cinco primeiros nomes selecionados está o da escritora cearense Kinaya Black – pseudônimo de Gisele Sousa Santos, 30 –, que vem se destacando pela escrita de ficção especulativa sob o viés do afrofuturismo.

Intitulado “Memória Cheia”, o novo livro de Kinaya deve ser publicado no segundo semestre e se passa quase inteiramente em Quixadá, cidade natal da escritora. Esse será o terceiro livro da autora, que já publicou o livro de poemas “Versos Livres Como Nós” (2019) e a novela “Eu Conheço Uzomi” (2021), sua estreia na ficção.

Em ‘Eu Conheço Uzomi’, uma professora que perdeu o emprego após a desativação das escolas públicas em Quixadá começa a trabalhar em uma fábrica para conseguir sobreviver. Com o tempo, ela percebe que vários funcionários da fábrica começam a sumir e decide investigar os motivos por trás dos desaparecimentos.

Kinaya com um exemplar de 'Eu Conheço Uzomi', seu segundo livro publicado.
Legenda: Kinaya com um exemplar de 'Eu Conheço Uzomi', seu segundo livro publicado.
Foto: Divulgação.

Apesar de não ser uma continuação de sua publicação mais recente, a história contada em “Memória Cheia” se passa no mesmo universo de “Eu Conheço Uzomi”: um futuro distópico em que as pessoas precisam sobreviver ao impacto da dominação do mundo pelas big techs, passando por processos de luto, migração forçada e sobrecarga tecnológica. 

O livro conta a história de Chico, um homem viciado em armazenar coisas que sai de Fortaleza para morar em Quixadá e lá conhece uma mulher que se torna sua esposa, com quem divide uma vida pacata, apesar da instabilidade política da cidade onde vive. Após se tornar viúvo repentinamente, Chico é obrigado a abandonar o individualismo e confrontar a realidade ao seu redor.

“É a partir de como ele lida com o luto que ele redescobre a cidade, a sociedade e tem contato com outros personagens, que é onde eu apresento toda essa questão social de como está o Ceará”, explica Kinaya, em entrevista ao Verso.

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Segundo a autora, como na maioria das distopias, a história fictícia tem relação com situações reais da atualidade, a exemplo da polarização política que toma conta da política brasileira desde 2018 e o impacto da chegada de um data center do TikTok em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.

“Acredito que quando a gente vai estudar a fundo o real interesse dessas grandes empresas e desses bilionários em países de terceiro mundo, a gente entende que não é só sobre dar emprego para a população”, aponta Kinaya. “Infelizmente, a maioria do lucro fica com eles, não com a gente. É como se fosse um segundo tipo de colonização”, completa.

Iniciado em 2022 e finalizado em janeiro deste ano – com pausas na escrita devido à conclusão do mestrado em Literatura Comparada da Universidade Federal do Ceará (UFC) –, “Memória Cheia” reflete, ainda, o clima político que afetou o País nos últimos anos.

“Talvez esse medo de perder o que a gente entende por democracia me levou, também, a escrever sobre um país que privatizou muitos serviços – que a gente tem hoje como direitos”, explica a autora.

Demarcação do Ceará na ficção e no afrofuturismo

Criadora de um universo distópico ambientado em um lugar real – o Sertão Central do Ceará –, Kinaya destaca a importância de uma ficção que preserva a identidade do autor e une pertencimento e discussões relevantes sem perder de vista a narrativa fantástica.

A artista conta que faz questão de demarcar a linguagem e a geografia cearense em suas obras, como forma de colocar o Estado no mapa da ficção especulativa.

“É uma coisa até que eu tinha receio quando eu lancei ‘Eu Conheço Uzomi’, porque eu não costumava ver muitas histórias de ficção científica se passando aqui no território que eu moro. Você ver, por exemplo, um ciborgue que mora no Sertão Central é uma coisa de outro mundo”, brinca. 

As autoras Octavia Butler e Conceição Evaristo.
Legenda: As autoras Octavia Butler e Conceição Evaristo.
Foto: Reprodução/The Octavia E. Butler Estate / Mônica Ramalho/Divulgação.

A artista conta que teve como inspirações principais a norte-americana Octavia Butler – nome fundamental da ficção científica cujas obras levaram 40 anos para chegar ao Brasil – e a brasileira Conceição Evaristo, que se tornou conhecida ao escrever histórias protagonizadas por mulheres negras que partem de suas próprias vivências. 

Ambas foram responsáveis, cada uma a sua forma, por incentivá-la a se denominar uma autora de ficção especulativa preta, que parte de olhares diferentes dos que dominam o mercado literário.

“Quando a gente pensa nessa categoria, a gente tem dois caminhos. O primeiro, para algumas pessoas, seria que a gente tá se colocando numa caixinha – o que acontece, também. Para ser lembrado só em novembro, por exemplo, nas listas de ‘conheça autores negros’”, brinca Kinaya. 

“Mas eu prefiro ir pelo outro caminho, onde eu determino que existe também uma ficção especulativa escrita através de um olhar não tradicional, que seria o olhar de pessoas brancas, o olhar de pessoas que sempre tiveram estudo, sempre tiveram acesso, né? É uma literatura feita a partir de outra perspectiva”, completa.

O afrofuturismo me ensinou a valorizar a minha identidade cultural, o meu território, os meus costumes, a cultura daqui do Ceará. Todas as minhas histórias se passam aqui.”
Kinaya Black
Escritora

Apesar da forte influência de autoras de outros lugares, Kinaya destaca a importância de uma obra cearense em sua literatura: o fenômeno “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli.

“Uma mudança essencial em mim ocorreu quando eu li um diálogo dela onde não tinha marcação de como o personagem falava aquilo, e eu sabia ler exatamente do jeito que eles iam falar, só pela forma que estava escrito. Aquilo acendeu em mim ali uma coisa de ‘nossa, eu posso fazer isso também’. É muito sobre exemplo e se identificar”, conta. “E é um realismo fantástico, um realismo mágico que eu acho incrível”.

A artista destaca que, além dos autores já conhecidos, o Ceará “ainda tem muita coisa para mostrar”. “A gente tem escritores maravilhosos de ficção especulativa aqui, como o Wilson Júnior, a G.G. Diniz”, comenta. “São muitas pessoas que escrevem muito bem. É o Ceará, né? Em qualquer literatura, a gente escreve bem demais”, ri.

Publicação realiza sonho de infância

Escritora é natural de Quixadá, no Sertão Central.
Legenda: Escritora é natural de Quixadá, no Sertão Central.
Foto: Divulgação.

Escritora amadora desde a infância, quando reescrevia cenas das histórias que lia nos paradidáticos da escola – incluindo a participação dela própria nos textos – para se sentir representada, Kinaya Black conta que o convite da editora Aleph demarca uma nova fase em sua carreira. Com entusiasmo, ela afirma que a casa editorial é a sua favorita e que a ficha de que seria uma autora publicada em um selo trouxe um mix de sentimentos.

“Fiquei um pouco receosa, porque existe um público de ficção científica acostumado com tradução. E você sabe que uma tradução, apesar da ‘domesticação’ que existe dentro da linguagem, ainda não é a mesma coisa de ler um livro onde as palavras estão com a grafia errada propositalmente, né?”, comenta. 

“Quando eu estava escrevendo o livro, toda palavra ‘cearense’ eu colocava em itálico, porque quando fosse para revisar, a pessoa já ia saber [que não era para mudar]”, completa.

De maneira geral, no entanto, o sentimento que tem dominado a nova fase é o de alegria. “Sabe aquele momento que termina o arco do personagem?. A nova temporada ou o final da temporada? Mas isso não pode ser o final da temporada, eu tenho que pensar para além disso, eu tô com muitas expectativas”, afirma. 

“Eu tô muito feliz, e acho que trabalhar estando feliz leva você a caminhos bons, caminhos bonitos. E a minha expectativa é poder fazer lançamento em diferentes lugares, diferentes estados”, completa. 

Além da dedicação à escrita e à campanha de lançamento de seu primeiro romance, Kinaya afirma que pretende continuar criando conteúdo literário nas redes sociais – onde é conhecida pelo perfil @afrofuturistacearense –, já que as ferramentas digitais foram essenciais para que ela formasse um público interessado em ficção especulativa.

A nova safra de leitores, afinal, tem demonstrado cada vez mais interesse em conhecer quem está por trás dos livros e em ler histórias sob perspectivas menos exploradas comercialmente.

“O avanço da tecnologia de aplicativos para publicar livros – como o próprio Kindle, o Catarse e esses financiamentos coletivos – facilitou muito para que as pessoas conseguissem publicar. E isso também fez a gente perceber que tem diferentes tipos de pessoas publicando literatura de ficção especulativa”, ressalta. 

“Acho que dentro dessa leva de ‘facilidades’ – ainda não é tão fácil, mas há oportunidades melhores para publicar –, faz com que o mercado também cresça nesse sentido de leitores que encontram autores com quem se identificam”, conclui.

Serviço
Acompanhe a autora nas redes: Instagram | TikTok
Para conhecer a obra de Kinaya Black, clique aqui

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