'Crepúsculo' segue como fenômeno pop com nostalgia, marketing e memes

Primeiro filme da saga adolescente, que volta aos cinemas em março, foi ressignificado ao longo dos anos pelo público.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 10:18, em 06 de Fevereiro de 2026)
Uma colagem vibrante reúne diversas cenas e personagens da saga Crepúsculo, destacando Bella, Edward e Jacob em diferentes momentos sobre um fundo com brilhos dourados e roxos. Elementos icônicos como a maçã vermelha entre mãos e uma romã aberta compõem a arte, que utiliza recortes de papel e molduras de coração para criar uma narrativa visual nostálgica e dinâmica.
Legenda: Nostalgia, marketing e memes seguem fazendo de "Crepúsculo" um fenômeno pop até hoje.
Foto: Arte de Louise Dutra com fotos de divulgação.

É comum a um fenômeno popular ser tão amado quanto odiado. No caso da saga “Crepúsculo”, baseada na série literária de romance adolescente da autora Stephenie Meyer, o fervor dos fãs e as altas cifras de bilheteria ocorriam ao mesmo tempo de críticas e indicações ao “Framboesa de Ouro”.

Lançado em 2008, o primeiro filme da franquia será relançado nos cinemas do Brasil em 19 de março, para celebrar os 20 anos do lançamento original do primeiro livro nos EUA, ocorrido em 2005. 

18 anos depois da estreia do longa, o Verso chamou fãs e especialistas para analisar: fenômeno pop criticado à época, como “Crepúsculo” foi ressignificado pelo olhar do público?

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“Filme conforto”

Era o final de 2008 quando chegava ao Brasil o primeiro filme da saga “Crepúsculo”, já estabelecida na época como um fenômeno mundial “superlativo” — adjetivo usado em crítica sobre a obra publicada no Diário do Nordeste em 26 de dezembro daquele ano.

Bella Swan e Edward Cullen encaram-se intensamente em um close cinematográfico, destacando o rosto pálido de Bella com fones de ouvido enquanto Edward a observa de perfil. A página de jornal apresenta o título
Legenda: Fac-símile de crítica do filme "Crepúsculo" publicada em 26 de dezembro de 2008 no Diário do Nordeste.
Foto: Fac-símile do Caderno 3 de 28/12/2008.

A trama do longa segue a jovem tímida Bella Swan (Kristen Stewart), que se muda para uma cidadezinha nublada onde conhece e se apaixona pelo misterioso Edward Cullen (Robert Pattinson), que descobre ser um vampiro. Fechando o triângulo amoroso, surge Jacob Black (Taylor Lautner), um lobisomem.

Jacob Black, Bella Swan e Edward Cullen encaram-se em um momento de tensão ao ar livre, destacando Jacob com sua tatuagem tribal no braço enquanto observa Edward. O cenário arborizado e a iluminação natural reforçam o clima dramático do triângulo amoroso em uma composição focada nas expressões dos personagens.
Legenda: Jacob (Taylor Lautner), Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) vivem triângulo amoroso na saga "Crepúsculo".
Foto: Divulgação.

Àquela altura, já tinham sido vendidos 25 milhões de exemplares dos livros que deram origem aos filmes, assinados pela autora Stephenie Meyer, e o longa, dirigido por Catherine Hardwicke, tinha acumulado bilheteria de US$ 140 milhões, quase quatro vezes o valor do orçamento, em menos de um mês em cartaz nos EUA.

Dados de bilheteria do site Box Office Mojo indicam que os cinco longas da saga Crepúsculo, lançados entre 2008 e 2012, arrecadaram mais de US$3.36 bilhões mundialmente.

Na época, o sucesso do filme atraiu a atenção de Duda Menezes, que hoje tem 26 anos e trabalha como social media. Mesmo criança, lembra de ter ficado “louca para ver” a produção e, ainda, de ter acompanhado detalhes do filme por meio de publicações como a revista Capricho.

“Ao longo dos anos, após ter lido os livros, eu lia e ia ver os filmes no cinema, inclusive nas estreias. Para mim nunca ficou na nostalgia, pois todo ano eu assisto a saga pelo menos duas vezes. ‘Crepúsculo’ é meu ‘filme conforto’”, define.

Uma colagem apresenta à esquerda o recorte de uma revista com a manchete
Legenda: Fã de "Crepúsculo" desde a estreia, a social media Duda Menezes encara a produção como "filme conforto".
Foto: Acervo pessoal.

De outra geração, a costureira Rose Carvalho, de 46 anos, partilhou do mesmo entusiasmo na época da estreia nos cinemas. “Quando o primeiro filme foi lançado, fiquei entusiasmada para assistir. Lembro-me que assisti com minha sobrinha e me apaixonei pelo mistério dos vampiros”, rememora.

Para ela, a relação com a franquia aumentou com os anos. “A forma como a história explora temas como amor, amizade e auto-descoberta é muito cativante. Mesmo com o passar do tempo, a saga continua a ter um impacto significativo na cultura pop e na minha vida pessoal”, considera Rose.

Nostalgia e marketing explicam reestreia de "Crepúsculo"

Antes do relançamento previsto para março de 2026 de “Crepúsculo”, as cinco produções da saga voltaram às salas em dezembro de 2022, em comemoração aos 10 anos da conclusão da franquia

Até o momento, a distribuidora brasileira Paris Filmes ainda não confirmou se todos os filmes serão reexibidos. Para as fãs, o retorno da primeira parte do universo audiovisual focado em Bella e Edward será uma experiência imperdível

“A primeira coisa que fiz foi enviar pra minha amiga e dizer ‘vamos!’. Sempre ia ao cinema com ela, então é uma ótima oportunidade pra ter mais histórias juntas”, celebra Duda.

“É uma ótima oportunidade para os fãs reviverem a magia do filme e para novos fãs descobrirem a saga. Pessoalmente, pretendo rever o filme e aproveitar a experiência no cinema”, aponta Rose.

Como analisa Naiana Rodrigues — professora de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) —, “a palavra-chave é nostalgia”.

“O passado sempre está em nosso horizonte cultural, no cinema, na moda e, vez por outra, ele nos assombra com produções que considerávamos enterradas no tempo, mas que voltam oportunamente seja por movimentos espontâneos de descoberta do público, como no caso da música ‘Running up that hill’, de Kate Bush, em razão da presença na trilha sonora de ‘Stranger Things’; seja pela identificação pragmática do mercado”
Naiana Rodrigues
professora de Jornalismo da UFC

Na leitura da especialista, o novo retorno da saga aos cinemas “conversa” em especial com um público jovem que tem buscado se ligar a formatos e experiências considerados antigos, seja o analógico, seja a câmera digital. 

Taylor Lautner, Kristen Stewart e Robert Pattinson posam juntos no tapete vermelho da estreia de
Legenda: Taylor Lautner, Kristen Stewart e Robert Pattinson posam juntos no tapete vermelho da estreia de um dos filmes da saga, em 2010.
Foto: Jason Merritt / Getty Images North America / Getty Images via AFP.

Essa busca, elabora Naiana, surge na tentativa de “um escape em relação ao uso das telas e à velocidade imposta pela vivência exacerbada no ambiente online”. 

Em diálogo, a social media Duda Menezes liga o filme ao “tempo em que só íamos para o cinema e éramos felizes, colecionávamos, sem ter que mostrar pra ninguém, apenas por gostar, por querer, não exatamente por ter que postar nas redes sociais”.

Na opinião da professora, o relançamento é uma “oportunidade de conquista do público jovem do presente que busca outras experiências fora das telas dos dispositivos móveis e o cinema é uma dessas experiências imersivas que vai de encontro à fragmentação do habitat online”.

Dois exemplares do livro
Legenda: Acervo da social media Duda Menezes conta com diferentes edições do primeiro livro da saga "Crepúsculo".
Foto: Acervo pessoal.

Outro “catalisador” relevante para a volta do filme aos cinemas destaca Naiana, é o “sucesso de bilheterias à época que faz os distribuidores sonharem com ganhos fáceis sem custos de produção e com baixo orçamento de marketing”.

A docente ainda conecta o lançamento em fevereiro da nova versão do clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” com o retorno de “Crepúsculo” em março — isso porque o livro de Emily Brontë é citado como um dos favoritos de Bella Swan. “Talvez, esse seja um detalhe digno de um caçador de deixas simbólicas, já diria Michel De Certeau, mas é algo a ser explorado pelo marketing”, aponta.

Público feminino majoritário

Na época do lançamento estadunidense de “Crepúsculo”, o site de venda de ingressos de cinema Fandango fez uma pesquisa com 5 mil espectadores que haviam comprado tíquetes na plataforma. 95% eram mulheres e, desse grupo, 42% tinham mais de 25 anos. 

O fato do filme ter uma audiência majoritariamente feminina, inclusive, em parte se liga a diferentes críticas que a produção recebeu à época.

Uma das mais controversas foi a do youtuber Felipe Neto, que em 2010 publicou um vídeo de reação a “Crepúsculo” no qual afirmou que o público-alvo seriam pessoas com “idade mental de uma garota de 13 anos”.

Mais de uma década depois, o influenciador revisitou o vídeo e reconheceu equívocos em posicionamentos que teve na época. Para as fãs, as representações de relações entre homens e mulheres no filme podem ajudar a explicar parte das críticas.

Página de jornal que destaca foto do personagem Edward Cullen, que caminha casualmente em um cenário arborizado. Em destaque, a manchete diz: 'Eu quero um Edward Cullen'. A composição inclui uma cena íntima de Edward e Bella em uma floresta, acompanhada por uma reportagem que detalha a ansiedade das fãs para a estreia do filme 'Eclipse'.
Legenda: Além do sucesso do filme em si, nomes do elenco como o do ator Robert Pattinson ganharam fama mundial; na foto, fac-símile de matéria de 2010 sobre o personagem Edward Cullen.
Foto: Fac-símile do Caderno 3 de 24/6/2010.

“Hoje em dia vejo que muitas críticas negativas se davam por conta de o Edward não ser um macho alfa, como muitos esperavam de um vampiro, e ser romântico”, observa Duda. “Acho que as reações negativas ao filme se devem, em parte, à incompreensão da base de fãs e à crítica à representação da feminilidade e do romance na história”, dialoga Rose.

A conquista do público majoritariamente feminino se dá, como observa a professora Naiana Rodrigues, na aposta narrativa em focar nas “fantasias românticas”. “Crepúsculo”, define a especialista, “é um filme de vampiros com um ar de ingenuidade” e que tem narrativa fundada “na lógica do melodrama clássico”. 

A impossibilidade do romance principal ocorrer, no entanto, se dá não por classe social ou rivalidade familiar, como em clássicos como “Orgulho e Preconceito” e “Romeu e Julieta”, mas pela diferença de natureza do casal: uma é humana e o outro, não.

"A tímida Bella ser disputada por dois homens é outro elemento da trama passível de identificação com o público feminino, pois ela não encarnava a típica garota lindamente irresistível e tinha como rival não outra mulher, mas o próprio sobrenatural”
Naiana Rodrigues
professora de Jornalismo da UFC

“Crepúsculo” pode adquirir status de “cult”?

Ainda que a experiência digital no lançamento do primeiro filme tenha sido bem diferente da atual, a professora Naiana Rodrigues lembra do que chama de “contexto da convergência midiática” do fim dos anos 2000.

Este, segue ela, era marcado pela cultura dos blogs e das chamadas fanfics, histórias criadas por fãs com base nos personagens de alguma obra ou até em celebridades. “A expansão da história em diferentes mídias — livro, cinema e internet — lhe atribuiu uma relevância que não era estética, mas comunicacional, midiática”, elabora.

Tal prática ajudou que a saga ecoasse “para além do tempo de exibição em tela” — inclusive mesmo após a conclusão da franquia cinematográfica, com a entrada dos filmes em streamings, os recentes relançamentos nos cinemas e até memes, por exemplo.

Essas possibilidades fizeram com que “Crepúsculo” e as continuações dele seguissem, de alguma forma, debatidas até hoje. Recentemente, Kristen Stewart — que estreou como diretora — chegou a afirmar que “adoraria” dirigir um remake do filme.

Em diferentes sites que agregam notas do público e da crítica dadas a produções audiovisuais, o filme que abriu a franquia cinematográfica baseada nos livros de Stephenie Meyer tem média geralmente baixa.

No IMDb, que reúne opiniões do público, a nota do filme é 5.4 de 10. No Metacritic, o público deu 4.1 de 10 e a crítica, 5.6 de 10. Já no Letterboxd, uma das mais populares redes sociais voltadas ao cinema, a nota é um pouco melhor: 3.1 de 5, equivalente a 6.2 de 10.

Nesta última, inclusive, um diferencial é a presença de resenhas escritas pelos usuários. Entre as mais populares, estão comentários que definem “Crepúsculo” como “obra-prima”, “incrível” e “um dos filmes mais engraçados sem querer de todos os tempos”, por exemplo.

“Com o passar do tempo, o filme foi sendo lido por outros prismas, talvez, por uma leitura mais negociada — como definiu Stuart Hall — em que o público negocia os significados com a obra”, inicia Naiana.

“Há quem o veja como uma obra tosca - pois a imagética do filme envelheceu mal; há quem o veja buscando a ‘magia’, do amor adolescente e há quem o assista por considerar que seja um marco para uma leva de obras posteriores que exploram amores impossíveis sobrenaturais”
Naiana Rodrigues
professora de Jornalismo da UFC

@lifes.deep.questi What other weird stuff have you seen?? #hoahoahoa #twilight #BookTok #bloopers #details ♬ eyes on fire - ♰

Na história do cinema, não é incomum que filmes mal falados por crítica e/ou público revertam a fama negativa a partir da ironia, chegando até a alcançar status de “cult” ou “novo clássico”. Pode ser esse o caso de “Crepúsculo”? A resposta tem camadas.

“A etiqueta cult de fato não é somente atrelada a obras com esmero estético, jogos de linguagem ou marcas de autoralidade. Ela também abarca uma variedade de obras que entram para esse rol quase que pelas ‘qualidades’ opostas, como visualidade grotesca, desarmonia da linguagem, narrativa ruim e atuações robóticas”, explica Naiana.

A explicação da professora para o fenômeno se baseia no já evocado teórico Stuart Hall e a chamada “leitura de oposição”:

“Para o autor, podemos ler obras audiovisuais de forma afirmativa, concordando com o sentido dominante evocado por elas, o caso de ‘Crepúsculo’ na época de seu lançamento; podemos negociar a leitura, concordando com algumas passagens da obra e discordando de outras; e podemos nos opor à obra fazendo uma leitura cômica, irônica”
Naiana Rodrigues
professora de Jornalismo da UFC

Pelo argumento da professora, “a distância temporal do contexto de lançamento da obra favorece a leitura de oposição e um culto pelo que a obra tem de pior”. “É uma espécie de movimento de retorno da aura de um filme não pela sua elevação, mas pelo seu rebaixamento”, considera.

Exemplos como o musical “The Rocky Horror Picture Show” (1975) e o terror “A Coisa” (1985), ambos considerados "trash", são citados por ela. “De certa forma, é uma demonstração de ruptura com os cânones estéticos, uma maneira de exaltar o erro, a falha, o caricatural, o jocoso”, argumenta.

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Outra fator citado para ser considerado “cult”, conforme a professora, é “ser uma referência um tanto quanto obscura que somente os fãs de um gênero, de um diretor ou cinéfilos de carteirinha podem ter”.

“Talvez a era do disponível tenha desvalorizado esse aspecto das obras cults, mas por tudo isso é que não acredito que ‘Crepúsculo’ esteja ainda nesse patamar”, opina Naiana. 

“Apesar de ter personagens bem caricaturais e uma construção visual modesta para os padrões atuais, ele ainda está muito presente em reprises dos streamings, no imaginário dos millennials e no próprio cinema. A saga precisa descansar, ser esquecida, para retornar como mais valor de culto”, pondera.

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