Morre seu Paraíba, lendário e centenário dono de bar em Fortaleza

Ele era proprietário do Feijão Maravilha O Paraibano, no bairro Farias Brito.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 10:17)
Na imagem, um homem idoso, de pele clara, com óculos de armação grossa e cabelos brancos curtos, aparece em primeiro plano olhando para a câmera. Ele veste uma camisa polo branca com golas pretas, que traz o escudo do Ceará Sporting Club no peito. Ao fundo, a parede é decorada com um padrão xadrez em vermelho e branco (estilo toalha de mesa de cantina). Nela, há um grande logotipo circular de madeira escrito
Legenda: Experiência de estar no bar tocado por seu Paraíba era singular devido à fartura de detalhes.
Foto: Kid Júnior.

Boemia fortalezense de luto. Morreu nesta segunda-feira (2), aos 100 anos, Macedo Saturnino Gomes, nome de batismo de seu Paraíba, proprietário do bar Feijão Maravilha O Paraibano. O estabelecimento funciona no bairro Farias Brito, na Capital.

Segundo a família, a partida aconteceu às 4h da madrugada. A causa da morte foi natural e está sendo investigada. O velório acontece às 14h na Funerária Jerusalém, no Centro; o sepultamento será nesta terça-feira (3), às 9h, no cemitério Jardim do Éden, em Pacatuba.

"Meu pai foi uma lenda. Chegou aqui em 1957 e, como ele contava, começou a trabalhar na Serraria Carneiro. Colocou o comerciozinho dele em que só vendia banana, e foi se expandindo", lembra a filha, Simone Meire Gomes, com quem o empreendedor dividia as atividades do bar.

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"Como tinha umas empresas aqui perto, e os funcionários não tinham onde almoçar, começaram a pedir ao papai que fornecesse comida, e assim ele começou a vender. O feijãozinho dele era famoso".

Para ela, o pai foi figura querida e importante para a Cidade, sobretudo para o bairro Farias Brito. "Hoje está partindo, e seguirá como lenda".

Seu Paraíba deixa sete filhos, cinco netos e um bisneto.

Como é o bar Feijão Maravilha

A experiência de estar no bar tocado por seu Paraíba é singular, a começar talvez pelo mais chamativo: o enorme painel com fotografias de quem já visitou o recanto. Clientes-amigos de curta ou longa data, e até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de quem o homem era ferrenho admirador. 

Também era torcedor apaixonado do time do Ceará e adorava uma prosa. Em reportagem publicada pelo Diário do Nordeste em julho de 2022, comentou sobre o fato de a casa estar sempre cheia: “Aqui tudim é meu amigo. Ninguém briga nem arenga. Vivo feliz”.

Na imagem, o homem idoso de cabelos brancos e óculos, vestido com a camisa branca e preta do Ceará Sporting Club, está sentado em uma cadeira de vime ao lado de uma pequena mesa amarela de plástico. Ele está focado em contar dinheiro, segurando notas de Real (moeda brasileira) em suas mãos sobre uma pequena caixa registradora branca de madeira ou metal, que está aberta sobre a mesa. Dentro da gaveta da caixa, é possível ver algumas moedas e notas de diferentes valores organizadas em divisórias. Na mesa amarela, além da caixa, há um tecido dobrado e uma máscara de proteção descartável branca. Ao fundo, a parede branca exibe quadros com diversas fotografias de clientes e momentos no estabelecimento, reforçando a atmosfera de um local tradicional e histórico. A iluminação é clara, vinda de cima, destacando as mãos do senhor e o interior da caixa de dinheiro.
Legenda: Bar só aceitava dinheiro vivo, e o próprio proprietário passava o troco.
Foto: Kid Júnior.

Ao longo de três décadas na Rua Dom Jerônimo, 256, o bar só aceitava dinheiro vivo – nem transações por Pix eram aceitas – e refletia o jeito do dono: abria cedo, às 6h da manhã, e só fazia silêncio na Sexta-feira da Paixão.

O próprio Paraíba passava troco no botequim, e se orgulhava de não ter doença nem tomar remédio. Devido ao jeito muito direto de lidar com o público, alguns amigos o apelidavam de seu Lunga.

Na imagem, uma fotografia em plano médio mostra o interior de um restaurante tradicional e movimentado. Em primeiro plano, um grupo de cerca de seis pessoas está sentado ao redor de uma mesa branca, conversando e comendo. Entre eles, destaca-se uma jovem de costas usando uma camisa do Ceará Sporting Club (listrada em preto e branco com o número 10) e um homem de regata verde. À esquerda, o mesmo senhor idoso das fotos anteriores aparece em pé, usando sua camisa polo do Ceará e apoiando-se em uma bengala de quatro pontas. Ele observa o movimento do salão. A parede ao fundo é repleta de quadros com fotografias e há um cartaz com o aviso:
Legenda: Seu Paraíba sempre estava no bar, onde recebia clientes e amigos.
Foto: Kid Júnior.

Quanto ao feijão presente no nome do estabelecimento, era servido com osso de boi e preparado no fogão à lenha. Delicioso, é o verdadeiro carro-chefe da casa. A clientela sempre reagiu acalorada a essa fartura de símbolos.

Um dos frequentadores afirma: "A gente tem essa intimidade. Sempre reunimos amigos e convidamos mais gente para conhecer o bar”.

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