‘Cheesecake japonês’: entenda as diferenças entre versão viral e original do doce

Receita que viralizou nas redes sociais com apenas dois ingredientes e versão original da sobremesa japonesa são bem diferentes.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Dois potes de sobremesa cremosa são apresentados sobre uma tábua rústica branca, com um deles destacando biscoitos de chocolate mergulhados em creme branco e o outro finalizado com cacau em pó. A composição vibrante inclui colheres de metal, biscoitos secos ao redor e um tecido de linho, criando um cenário gastronômico convidativo e detalhado.
Legenda: Receita viral do cheesecake japonês leva apenas dois ingredientes e se popularizou nas redes sociais neste começo de 2026.
Foto: Yulia Furman / Shutterstock.

Uma receita simples, com apenas dois ingredientes, tomou conta das redes sociais desde o começo de 2026: com iogurte do tipo grego e biscoito speculoos (com especiarias, típico da Bélgica), a promessa era a de que seria possível saborear, após algumas horas de geladeira para firmar, o cheesecake japonês.

A combinação, no entanto, não é exatamente fiel à sobremesa original do país asiático, que leva mais ingredientes e tem características específicas e diferentes, inclusive, do cheesecake mais conhecido no Brasil.

A partir disso, o Verso explica as diferenças, a história e os sabores tanto do doce que viralizou, quanto da sobremesa japonesa original.

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Cheesecake japonês viral

Pelo Google Trends, plataforma do Google que mede as tendências de pesquisas no site, é possível observar um “grande aumento” de buscas do nome dessa sobremesa a partir de meados de janeiro, com ápice registrado no último dia 4 de fevereiro. 

Nas redes sociais, também são milhares os vídeos de pessoas reproduzindo a receita. Uma delas foi a influenciadora cearense Carol Zacarias. “Eu estava rodando pelo Instagram, TikTok, e vi essa sobremesa, achei super fácil de fazer”, divide.

“Sou uma pessoa super formiga, amo doces, e esse ano quero maneirar na minha alimentação, diminuir o consumo de doces, e aí vi que seria uma opção boa, um pouco mais saudável e com ingredientes de fácil acesso”, segue Carol.

“A grande questão da viralização muitas vezes é a simplicidade do preparo: você abrir um pote de iogurte, colocar alguns biscoitos e aquilo adquirir uma textura”, inicia Matheus Vieira, confeiteiro, professor de gastronomia e treinador e avaliador das Competições Senac de Educação Profissional.

Simbolicamente, ele ressalta que a receita viral “aproxima” a confeitaria do público geral. “A viralização, como aproxima os leigos da cozinha, tem esse poder do ‘eu consigo fazer com facilidade’ e o produto ganha logo muitas reproduções, visualizações”, considera.

Carol partilha que gosta de testar receitas virais para mostrar aos seguidores, caso do famoso morango do amor, por exemplo. “É uma experiência que a gente tem de algo novo, fácil de fazer. Acho muito legal essas comidas que viralizam, fico sempre de olho em uma ou outra e trago sempre a minha versão”, afirma.

O resultado da receita viral, no entanto, “não remonta realmente à cheesecake japonesa, porque as texturas são bem diferentes”, como pondera Matheus. A afirmação é reforçada por Jessany Gomes, sócia da Tokyo Cheesecake Fortaleza, confeitaria especializada na tradicional sobremesa japonesa.

“Apesar do nome estar sendo usado, essa receita não configura um cheesecake japonês. Ele tem uma técnica específica de preparo, que envolve ovos, cream cheese, clara em neve e um método de cocção delicado, para alcançar aquela textura aerada característica”
Jessany Gomes
sócia da Tokyo Cheesecake Fortaleza

“Receitas simplificadas podem até resultar em uma sobremesa saborosa, mas não reproduzem a estrutura, textura e identidade do cheesecake japonês original”, reforça a empreendedora. 

Versões e adaptações do cheesecake japonês viral

A mistura simples de iogurte com biscoito de especiarias tem feito sucesso no Brasil, como observa o professor e confeiteiro, por se aproximar de sobremesas comuns por aqui, que misturam camadas de biscoito com creme.

“A gente tem muitas sobremesas onde temos camadas de biscoito e creme, então para um brasileiro é bem interessante. A gente adora pavês, torta holandesa — que apesar do nome é uma invenção nossa”, exemplifica.

Outra característica bem própria da experiência brasileira, segue ele, é a adaptação e criação de outras versões. “Logo surgiu uma versão do iogurte com biscoito misturada com café e polvilhada com cacau, mais uma forma desse produto ganhar uma nova roupagem”, afirma.

Uma mulher de óculos e cabelos longos segura um pote de sobremesa com pó de cacau, levando uma colher à boca em uma expressão descontraída. Ela usa uma blusa listrada e exibe diversas tatuagens nos braços, em uma composição caseira e iluminada que destaca o prazer de saborear o doce.
Legenda: Influenciadora Carol Zacarias provou duas versões da sobremesa viral de cheesecake japonês.
Foto: Acervo pessoal.

No vídeo de Carol Zacarias, ela mostrou duas versões da receita viral, uma mais simples e outra sendo a que leva café e cacau. “Comprei o material para fazer outra versão, que é com limão, que ainda não fiz e estou doida para fazer. Se popularizou justamente por isso, as pessoas gostam de provar coisas diferentes”, acredita.

O próprio biscoito da receita original, o Speculoos, tem sido trocado por similares com especiarias em versões da receita partilhadas pelas redes sociais, como a da própria influenciadora.

“Ele tem um custo elevado para a gente no Brasil. Vai noz moscada, canela, gengibre em pó, cravo em pó, tem um sabor bem presente de especiarias, mas acredito que dê para reproduzir com biscoitos parecidos”, aponta Matheus.

Um atrativo da versão viral “raiz”, destaca o confeiteiro, é o efeito que o uso de iogurte causa na mistura. “Como ele tem ainda muito líquido, (o biscoito) consegue absorver e traz uma textura mais macia. É diferente se você pegar um pote de cream cheese e colocar biscoitos, não vai ficar com resultado parecido”, explica.

O que é cheesecake e qual a diferença da versão original japonesa?

A tradução literal de cheesecake para o português é “bolo de queijo”. A receita não tem origem definida, mas há registros na História que remontam há séculos atrás, como explica o confeiteiro e professor de gastronomia Matheus Vieira.

“O primeiro registro do que seria algo parecido com uma torta feita com queijo, alguns grãos como trigo, ovos e mel, remonta à Grécia Antiga”, inicia. Atualmente, segue o especialista, existem três “linhas principais de cheesecake” reconhecidas mundialmente: a japonesa, a americana e a espanhola. 

“Em relação ao japonês, o (cheesecake) que ficou mais famoso é o da (confeitaria) Rikuro, que fica em Osaka. Parece um bolo, a textura é um pouco mais aerada, fica no meio termo do que seria uma massa esponjosa da confeitaria com sabor de queijo”, explica.

Já a versão americana é feita com cream cheese, uma invenção do século XIX que tentava reproduzir um queijo francês, e conta com textura mais lisa e uniforme. Finalmente, há a torta basca, advinda da região do País Basco, que tem textura mais cremosa no centro. 

Tipos de cheesecake

  • Japonês: tem textura mais aerada, mais leve, com uma presença um pouco maior de ovos;
  • Americano: feito em banho maria, é um pouco mais branco, cremoso e uniforme; 
  • Espanhol: bem mais tostada por cima e com interior bem mais cremoso, tendo cozimento um pouco mais irregular como característica central

Ao Verso, a influenciadora Carol Zacarias reconhece que o nome da sobremesa viral virou “detalhe” frente à curiosidade pela junção. “Soube depois que era esse nome. Na verdade, não sei nem se se parece com cheesecake de verdade, nem entendo porque chamam de cheesecake japonês, mas fui mais pela receita”, explica.

Questionada se já havia provado, a cearense brinca: “Nunca provei o cheesecake japonês e, dependendo da cara dele, talvez eu tenha curiosidade e vontade de provar, sim”, diverte-se.

Onde encontrar cheesecake japonês em Fortaleza

Diferentemente da versão do viral, o cheesecake japonês original tem como diferenciais a delicadeza e a leveza, evidentes pelo caráter aerado já citado pelo confeiteiro Matheus Vieira e pela empreendedora Jessany Gomes.

No final de 2025, chegou a Fortaleza uma franquia da confeitaria Tokyo Cheesecake, que surgiu originalmente em São Paulo e chamou a atenção de Jessany, uma das sócias do negócio. 

Duas variações de cheesecake japonês, tradicional e de limão siciliano, são apresentadas sobre bases de madeira e vidro com uma cobertura delicada de açúcar de confeiteiro. A primeira unidade é decorada com morangos frescos na lateral, enquanto a segunda exibe raspas de limão no topo, compondo um cenário gastronômico suave e convidativo.
Legenda: Tokyo Cheesecake apresenta variações de sabor da sobremesa no cardápio; na imagem, fotos das versões tradicional e de limão siciliano.
Foto: Divulgação.

“O que mais nos encantou foi o contraste com o cheesecake tradicional: mais leve, delicado e com uma experiência completamente diferente”, lembra. Após pesquisa de mercado, veio a decisão de abrir franquia na capital cearense. 

“Tivemos a vontade de apresentar algo ainda pouco explorado por aqui, mas que conversa muito com o paladar de quem busca uma sobremesa menos doce, mais aerada e sofisticada”, avança.

“Ele é macio, úmido e derrete na boca. Em termos de sabor, é suave, equilibrado e pouco enjoativo, com um dulçor delicado que valoriza os ingredientes”
Jessany Gomes
sócia da Tokyo Cheesecake Fortaleza

A Tokyo Cheesecake Fortaleza trabalha sob encomenda e por delivery e tem a versão tradicional do cheesecake japonês como carro-chefe. No entanto, há também “variações que respeitam a base original, mas trazem novos sabores”.

Entre eles, há opções de Creme de Ganache, Caramelo e Limão Siciliano. Segundo Jessany, a recepção do público de Fortaleza tem sido positiva. Os produtos servem de 8 a 10 pessoas, com preços que variam entre R$75 e R$110, a depender do sabor. 

“O cheesecake japonês acaba conquistando tanto quem já gosta de doces quanto quem normalmente evita sobremesas mais pesadas, e isso tem gerado uma aceitação muito forte e recorrência de pedidos. Temos um público também de apreciadores da cultura e da gastronomia japonesa, que compõem uma boa parte da nossa clientela”, aponta.

 

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