Com dono quase centenário, bar em Fortaleza serve à boemia raiz com sabor de feijão cozido à lenha

Lucidez do proprietário, funcionamento diário e painel icônico com fotos de visitantes fazem do Feijão Maravilha O Paraibano, no bairro Farias Brito, um espaço para se demorar

Escrito por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br

Verso
Legenda: Aos 96 anos, seu Paraíba – apelido de Macedo Saturnino Gomes – toca o estabelecimento com carisma, simpatia e fartura de causos
Foto: Kid Júnior

Dia de jogo para um dos times cearenses. Quem é torcedor, se prepara. Contata amigos, veste camisa, sai de casa cedo. O domicílio na Rua Dom Jerônimo, 256, no bairro Farias Brito, em Fortaleza, lota aos poucos devido a esse movimento. É noite de quarta-feira, e o Ceará Sporting Club enfrenta o The Strongest, na Bolívia. Transmissão aguardada.

O tal “domicílio” trata-se do bar Feijão Maravilha O Paraibano, há três décadas no endereço que virou recanto. Outrora funcionando em outros dois pontos, é neste último a sede final da alegria. Basta entrar. Ultrapassada a fachada escura – fina luz a clarear mesas e cadeiras de plástico – logo damos de cara com o pai da simpatia. Seu Paraíba sorri quando nos vê.

“Vamo entrando”, convida o proprietário. Aguarda nossa chegada junto aos amigos. Já são muitos – quase duas dezenas – reunidos em frente à TV de 50 polegadas, acoplada na parede. Petiscos, cachaça e ansiedade. “Tão tudo esperando o jogo começar, ó”. Enquanto a lenta confusão de vozes vai ocupando o espaço, seu Paraíba ajusta a máscara e inicia a prosa.

Legenda: Seu Paraíba é quem passa troco no botequim; em tempos de Pix, só aceita dinheiro vivo
Foto: Kid Júnior

Diz que, esbanjando saúde e sendo ajudado por Deus, vive num mar de rosas. Não é exagero. O boteco (também residência) tocado por ele tem ar de sala, família no sofá aos domingos. É isso: parece ser sempre domingo no Feijão Maravilha. O estabelecimento funciona diariamente. Desde às 6h, as portas estão erguidas. Silêncio? Só na Sexta-Feira da Paixão. 

É coisa da vitalidade do dono. Aos 96 anos, seu Paraíba  – cujo nome na certidão é Macedo Saturnino Gomes – não possui doença, não toma remédio e é quem passa troco no botequim. Em tempos de Pix, só aceita dinheiro vivo. “É mais garantido”, sentencia, sem desgrudar os olhos de uma caixa separadora branca, onde estão notas e moedas. 

Legenda: Interação do proprietário com a clientela é fácil e direta; no Feijão Maravilha, todos são amigos
Foto: Kid Júnior

Embora abra o bar cedinho, os quitutes mesmo só são servidos por volta do meio-dia. A dinâmica segue até ele dizer que, por ora, já chega. Isso só acontece tarde da noite, porém. Em tom de brincadeira, alguns clientes o apelidam de Seu Lunga. Paraíba leva tudo na graça. “Aqui, tudim é meu amigo. Ninguém briga nem arenga. Vivo feliz”.

Montar o painel, construir um santuário

Esse clima de camaradagem é sentido não apenas no ar, mas de forma concreta. Vários detalhes enriquecem a experiência de estar no Feijão Maravilha. A começar talvez pelo mais chamativo: o enorme painel com fotografias de quem já visitou o bar. Clientes-amigos de curta ou longa data, e até personalidades do quilate do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de quem seu Paraíba é ferrenho admirador. 

O encontro entre os dois aconteceu nos anos 2000, quando o atual candidato ocupava o mais importante cargo político da nação. “Ficou bonita a foto, né? Vocês já viram?”, indaga o proprietário. À época, Lula estava no Ceará para inaugurar o Porto do Pecém. Foi uma amiga de seu Paraíba, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), que o levou até lá. Emoção.

Legenda: Fotos preenchem as paredes do bar por todos os lados, compondo um imenso painel de lembranças de clientes, amigos e familiares
Foto: Kid Júnior

Tem mais. No boteco, o famoso feijão – carro-chefe da casa, servido com osso de boi e, pasmem, cozinhado no fogão à lenha – é prato cobiçadíssimo e delicioso. Experimentamos com paçoca e carne. Um primor! Além disso, o fato de ainda usarem calculadora, caderno para anotar pedidos e conservarem a aura dos tradicionais botecos, sem luxo nem burocracia, torna tudo ainda mais aconchegante.

A única pessoa que trabalha no estabelecimento é Simone Meire Gomes, 53, uma das sete filhas de seu Paraíba. Enquanto o pai recebe a clientela, ela cozinha, serve e limpa. Desafio grande, tendo em vista que, para além do serviço no bar, atua como auxiliar administrativa numa loja em frente ao recanto. “A gente vai se virando”

Legenda: Seu Paraíba aponta para a foto na qual ele está ao lado do ex-presidente Lula: orgulho
Foto: Kid Júnior

Por vezes, recebe ajuda do irmão mais velho e de outras pessoas que, feito família, chegam junto nos afazeres. No cardápio, por exemplo, além do já comentado feijão, prepara-se costela, carneiro, almôndegas e peixe – para felicidade dos fãs de tira-gosto. Aos fins de semana, a cartela de pratos aumenta, juntamente à quantidade de público.

Ao falar sobre o negócio idealizado por seu Paraíba quando ele ainda era jovem – forma de ocupar as horas antes do expediente noturno de vigia – a herdeira é direta: “O movimento é esse mesmo, tem mais o pessoal da velha guarda. E papai está sempre firme e forte, conversador que só”, suspira.

Legenda: Uma das filhas de seu Paraíba, é Simone quem cozinha o famoso feijão servido na casa, preparado no fogão à lenha
Foto: Kid Júnior

Para completar, o ícone ainda é revestido de causos – até mesmo envolvendo o próprio nascimento. Durante muito tempo, acreditou que havia nascido em 10 de outubro de 1927; contudo, em viagem ao interior da terra natal, descobriu ter sido no dia 1º de outubro daquele mesmo ano. Por sua vez, recebeu o apelido de “Paraíba” apenas quando chegou ao Ceará, em 1957. Foi batizado lá. Mas veio ao mundo mesmo no Rio Grande do Norte.

Amizade e intimidade

Amigos do proprietário saúdam toda essa fartura de excentricidades. É onde mora o carisma de seu Paraíba e do pequeno império que construiu. Frequentador do bar há mais de 25 anos, o corretor de seguros Emanoel Ribamar, 71, considera ser o local uma extensão da própria casa. Passa por lá de uma a três vezes por semana. “Me sinto bem demais aqui”.

Feito seu Paraíba, também é torcedor ferrenho do Ceará e, entre uma colherada e outra de feijão, revela que o dono do boteco já foi inclusive jogador de futebol – em times de Natal e de João Pessoa. Afirma também sempre convidar outros colegas e até parceiros de trabalho para conhecer o bar. “Seu Paraíba precisa ser estudado”, diz.

Legenda: Aos 71 anos, o corretor de seguros Emanoel Ribamar frequenta o Feijão Maravilha há mais de um quarto de século
Foto: Kid Júnior

“A memória dele é muito boa, não esquece nada. No dia 1º de outubro, faz 97 anos. E todas as vezes, nessa mesma data, não perco a comemoração. É sagrado. Ele só não trabalha aqui na Sexta-Feira da Paixão. Há dois anos, ainda ia para o mercado fazer compras. Mas, como teve chikungunya e Covid, não foi mais. Nessa época, fiquei preocupado, sem saber se meu amigo voltava do hospital. Com menos de 30 dias, ele retornou”.

Numa mesa próxima, o advogado Marcos Barros, 54, igualmente tece elogios ao mestre. Há apenas dois meses frequentando o Feijão Maravilha, sempre às quartas-feiras, já tem boas histórias para contar. “O forte daqui é o papo, a amizade e o osso que vem com o feijão, bem carnudo. Eu gosto. Fora que o cozimento no fogão à lenha é diferente”, destaca.

Legenda: O advogado Marcos Barros, 54 (de camisa quadriculada), frequenta o bar há apenas dois meses, mas já desenvolveu amizade com todos
Foto: Kid Júnior

“Outra coisa interessante é a caixinha do seu Paraíba, e o fato de que ele não gosta de receber Pix. A gente já tem essa intimidade – minha com ele, e também com a Simone. Sempre estou reunindo os amigos e convidando mais gente para conhecer o bar”.

O homenageado ouve tudo com gosto. Já são quase 19h30 quando ele pega a bengala, levanta da cadeira de balanço e se dirige à mesa mais próxima do balcão de atendimento. É hora de tomar a sopa – prato diário, servido religiosamente no mesmo horário. No caminho, abraça a clientela, manda beijos, solta alguns impropérios engraçados. Passa pela plaquinha que fez questão de colocar com o tempo: “Não aceito debate político aqui”.

Legenda: Em letras garrafais, placa foi colocada pelo próprio seu Paraíba no estabelecimento
Foto: Kid Júnior

“É porque tinha gente que chegava e dizia, 'O Lula é ladrão', 'O Lula não presta'. Decidi que ia acabar com isso”, explica. “O que continua é a cachaça. Você pode ter o maior pecado do mundo, o pessoal não resolve nada. Sabe o que resolve? Botar um barzinho e vender cachaça. Lidando com um cara que bebe cachaça, você vai pro céu”. 

Legenda: Fachada do Feijão Maravilha O Paraibano, um lugar para se demorar
Foto: Kid Júnior

Mais tarde, naquela mesma noite, o time do Ceará venceria o The Strongest por dois a um. Seu Paraíba decerto dormiu feliz. Os amigos torcedores também. Mas o bar não dorme nunca. Feito o próprio dono, sossegado chama: “Vamo entrando”.

 

Serviço
Feijão Maravilha O Paraibano
Aberto diariamente, a partir das 6h. Rua Dom Jerônimo, 256, bairro Farias Brito, Fortaleza

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