À beira da lagoa da Maraponga, borracharia surpreende com rodízio de caldo de cana

Estabelecimento funciona há 10 anos chama a atenção da cidade pelo inusitado.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, fotografia enquadrada pelo interior de um pneu preto em primeiro plano, criando um efeito de moldura circular. No centro, um homem de pele clara, meia-idade, usando óculos de grau, boné bege e uma camiseta preta com a estampa
Legenda: Antônio de Sousa, o Louro, deu nova vida ao lugar e segue atraindo diferentes públicos.
Foto: Fabiane de Paula.

Desbravar Fortaleza é encontrar lugares e pessoas capazes de fazer valer a pena viver nesta cidade. Na esquina da avenida Godofredo Maciel com a rua Nereu Gomes, essas duas pontas se unem de modo inusitado. É onde está localizada a borracharia O Louro.

O recanto, além dos serviços de Mecânica, também oferece ao cliente a experiência de um rodízio de caldo de cana, tudo às margens da lagoa da Maraponga  – e onde mais você poderia encontrar um local assim se não na capital cearense? O motivo por si só surpreende, mas não é o único. Rápida visita ao local revela porção de detalhes.

No corre-corre do trânsito, o ambiente é ponto fora da curva. Elege pequenas belezas como marca. Há um banco e uma cadeira personalizados nos quais está escrito com tinta branca, “Exclusivo para clientes”; penduricalhos ocupam o teto da oficina, deixando tudo menos sisudo, mais doce; e até uma pintura reproduzindo a lagoa da Maraponga está lá.

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Mas é mesmo o combo borracharia-caldo de cana o verdadeiro pulo do gato do empreendimento, responsável por torná-lo tão único. Tudo nasceu a partir da percepção de que, enquanto o cliente aguarda reparos no veículo, seria interessante algo para passar o tempo e alimentar quem estivesse com fome – sobretudo motoristas de aplicativo, com tão pouco tempo para refeições em meio ao frisson dos dias.

“Tem muita gente que chega cansada, quer repousar enquanto eu faço o serviço e, quando sabem do caldo de cana, geralmente pedem pra tomar”, explica Louro, apelido de Antônio de Sousa, 58, proprietário da borracharia. O rodízio da bebida – na prática, diz respeito à quantidade ingerida, e não a variações do líquido – custa R$ 8, servida em copo de 400ml.

Na imagem, fotografia em plano médio e luz do dia mostra a fachada do estabelecimento
Legenda: Estabelecimento é localizado na avenida Godofredo Maciel, bairro Maraponga.
Foto: Fabiane de Paula.

Segundo Louro, já houve quem colocasse dois litros da iguaria – feita na hora – para dentro, motivo pelo qual mantém o serviço na ativa. É possível combiná-lo, claro, com pastel, este disponível em quatro sabores. Tanto a preparação do lanche quanto as atividades da borracharia são feitas pelo próprio Louro, que, por vezes, divide a lida com o neto.

Uma década de história

Todo esse movimento completa 10 anos neste 2026. E iniciou não com Louro, mas com o ex-chefe dele, já falecido. Foi desse homem a ideia de combinar em um único lugar dois segmentos comerciais tão diferentes entre si.

Louro, contudo, repaginou o espaço com assinatura e capricho particulares. Atleta de ciclismo, enxergou oportunidade de trabalho.

Na imagem, fotografia colorida em plano médio mostra a fachada de um quiosque de rua verde vibrante, especializado em caldo de cana e lanches. No centro, um atendente homem, usando boné, óculos e camiseta preta, está inclinado para fora de uma pequena janela, servindo caldo de cana de uma jarra em um copo plástico. Um cliente, um homem de pele clara vestindo uma camisa polo bege, está de pé à direita, estendendo a mão para receber a bebida enquanto segura um celular na outra mão. O quiosque é decorado com grandes adesivos informativos. À esquerda, há uma lista intitulada
Legenda: Rodízio de caldo de cana custa R$ 8, e é servido ao lado da oficina.
Foto: Fabiane de Paula.

“Não tinha nada de estrutura, era tudo diferente. O local estava abandonado, então dei uma modificada pra que ele ficasse nas condições em que está hoje. Instalei um trailer – antes a gente atendia debaixo de uma árvore; pedi permissão à Prefeitura pra colocar uma tenda; e fui agindo para que as pessoas chegassem e não encontrassem nenhum empecilho”.

Na imagem, um homem de boné, camiseta preta e bermuda jeans trabalha no conserto de uma bicicleta branca e vermelha, que está posicionada de cabeça para baixo sobre um tapete de borracha. Ele está inclinado, manuseando a roda traseira em uma oficina rústica e aberta (borracharia). Ao fundo, veem-se pneus empilhados, ferramentas e uma parede com uma pintura de paisagem. No canto superior esquerdo, há uma placa com o horário de funcionamento escrito à mão. A iluminação é natural, sugerindo um ambiente externo coberto.
Legenda: Oficina funciona de segunda a sábado, e é apenas uma das facetas do empreendimento.
Foto: Fabiane de Paula.

Dito e feito. Além de alguns pormenores citados no início deste texto, há vários outros. Com as próprias mãos, Louro concebeu e instalou mesas e cadeiras fixas ao solo, onde clientes sentam para lanchar; introduziu uma espécie de altar dedicado a Nossa Senhora de Fátima; e construiu até um píer, cantinho preferido de quem busca um bom clique ao pôr do sol.

Nesse movimento, o rodízio de caldo de cana não é o único motivo para entreter a clientela. No espaço da oficina, Louro também guarda algumas varas para otimizar a pesca na lagoa. A cortesia é disponibilizada de forma sempre simpática pelo anfitrião, e parece reavivar uma Capital que esqueceu de observar o entorno e dar espaço para a pausa.

Na imagem, uma fotografia em plano médio mostra um homem de pele morena, vestindo uma camisa polo amarela clara e calças escuras, posicionado de costas no centro de um deck de madeira rústica. Ele está apoiado em um corrimão de metal preto, olhando para uma vasta extensão de água (uma lagoa ou rio largo). À esquerda, uma árvore de copa densa projeta sombra sobre o deck. À direita, a margem é composta por vegetação verde exuberante e vários coqueiros. Ao fundo, sob um céu com nuvens brancas e cinzas, nota-se a silhueta de um edifício distante. A cena transmite uma sensação de tranquilidade e contemplação.
Legenda: Louro construiu um píer próprio, com vista para a Lagoa da Maraponga.
Foto: Fabiane de Paula.

“Nesses 10 anos, o trânsito na região ficou maior e as pessoas mudaram também. Passaram a usufruir mais do calçadão – deteriorado durante muito tempo – e o próprio calçadão foi revitalizado. Isso acabou melhorando pra mim porque o público acaba tendo mais conhecimento do local. Passa aqui, vê… Tem gente que comenta, ‘moro aqui há vários anos, e não conhecia esse local”. A propaganda cresceu no famoso boca a boca”.

Hoje, todo o sustento do proprietário depende do estabelecimento. Reside no bairro Pici, e levanta às 6h diariamente. Às 7h20, já está na oficina, não sem antes limpar toda a extensão do terreno onde está o negócio. Gosta de manter tudo em ordem.

O funcionamento é de segunda a sábado – na semana até às 19h30, no fim de semana até às 13h. Mas quem chegar com urgência, mesmo próximo do horário de encerramento, ele atende.

Na imagem, um homem de pele clara e meia-idade, vestindo camiseta preta com a logomarca
Legenda: Caso clientela queira passar o tempo pescando, Louro disponibiliza varas para a prática.
Foto: Fabiane de Paula.

Minha vida mudou depois desse trabalho. A parte financeira estabilizou, já que eu era mototáxi e, hoje, saio de casa com destino certo. Não tenho o dinheiro exato com o qual retornarei, mas o destino eu tenho. E, como estou aqui nesse tempo todo, as pessoas me conhecem e me procuram pela qualidade do serviço que eu presto… Tento ser o mais correto para que se sintam convidadas a retornar. É assim que trabalho. Tenho clientela fiel”.

Valorizar o espaço

Cheio da graça típica de quem encontrou refúgio no próprio fazer diário, Louro confessa que passou a valorizar a oficina que ergueu porque é lugar de sustentação – no sentido financeiro da palavra, mas principalmente no que diz respeito ao que faz sentido ao fim do dia.

Na imagem, uma barraca de lanches colorida e rústica, chamada
Legenda: Cravejado de detalhes, empreendimento chama a atenção de quem passa pela avenida.
Foto: Fabiane de Paula.

Não à toa, o desejo de permanecer, lado a lado com a vontade de deixar tudo como está. “Penso que, quanto mais eu queira deixar mais bonito, mais terei trabalho pra manter. E, pra mantê-lo da forma como está hoje, limpinho e agradável, só tem eu”, diz.

“Me sinto criador desse espaço. Não criei o espaço ‘terra’, mas esse espaço físico eu criei. E, a cada dia que passa, tô vendo que é agradável às pessoas. Isso me dá empolgação para que eu continue, é um incentivo. Acho muito bom quando uma pessoa diz, “valha como aqui é legal, eu passava e nunca tinha vindo’. É um local que faz bem”.


Serviço
Avenida Godofredo Maciel, 1282, Maraponga. Funcionamento: de segunda a sexta, de 7h20 às 19h20; aos sábados, de 7h20 às 13h. 

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