Exposição sobre Nise da Silveira em Fortaleza une arte, afeto e saúde mental
Mostra tem visitação gratuita e está em cartaz na Caixa Cultural Fortaleza até março de 2026.
Basta atravessar a entrada de “Nise - A Revolução pelo Afeto” para entender por que uma das estruturas da exposição elege exatamente a palavra “afeto” como destaque. Mais que um bom motivo para sacar o celular do bolso e fazer uma foto, o pilar sintetiza o que será encontrado em cada recanto de uma mostra que já nasceu destinada a inspirar e quebrar paradigmas.
São 157 peças – entre obras de arte, fotografias, esculturas e documentos – organizadas para apresentar quem foi a cientista e psiquiatra alagoana, nome essencial para compreender o tratamento de saúde mental do século XX até os dias de hoje. Intrigante, o trabalho parte da mulher para descortinar pessoas, processos e análises cujo foco é o sentir humano.
Em circulação pelo Brasil desde 2021, quando estreou ainda em meio ao turbilhão da pandemia de Covid-19, a exposição é oportunidade de colocar em perspectiva como o carinho e a arte, em sintonia com as dinâmicas da mente, podem remodelar a vida. Para melhor. É a primeira vez do projeto no Nordeste, na Caixa Cultural Fortaleza, até 1º de março de 2026.
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“Acho que as pessoas precisam visitar a mostra para compreender o tratamento humanizado e se sentirem confortáveis de falar sobre um tema cada vez mais atual”, conclama Isabel Seixas, participante do Um.Ba.Ra.Ká – estúdio de curadoria e design especializado na concepção e realização de exposições – e uma das curadoras do projeto.
Num passeio com nossa equipe de reportagem, ela explica a divisão temática da exposição. São três partes. A primeira, “Contexto, Dor e Afeto”, situa, por meio de ilhas, como estavam a arte e a psiquiatria no momento em que Nise se tornou protagonista no segmento. Há menção de outros precursores do mesmo pensamento dela, entre estudiosos e artistas.
“Quando Nise estava começando esse trabalho, a classe artística também estava questionando uma arte que fosse mais autêntica, mais genuína, fora dos grandes cânones da Academia. Quando essas duas partes se encontram, de certa forma há um casamento”, diz a curadora.
A ilha da Dor, por sua vez, aborda os tratamentos usados na época em que Nise começou a travessia com pacientes de complexidades mentais, a exemplo do excesso de remédios, a lobotomia e o eletrochoque. Há, inclusive, duas impressionantes esculturas, mostrando um antes e depois de uma lobotomia. Nessa mesma ilha, também há a famosa frase “Não aperto”, em alusão à primeira recusa pública da psiquiatra contra o uso do eletrochoque.
Por fim, a primeira parte da exposição culmina na ilha do Afeto – e no sentido desenvolvido pelo filósofo holandês Spinoza: afetar e ser afetado. Tocar realmente o outro. “É o afeto que move, que transforma. E Nise acreditava que isso só é possível num ambiente sem coação. Muitas vezes usou animais como co-terapeutas. Tudo isso cria uma atmosfera em que o cliente se sente confortável para se expressar, mostrar as profundezas da psique”.
Nessa área, registros, frases e documentos convidam o público a chegar mais perto e sentir, de fato, o aconchego vivenciado por Nise e os clientes na busca por uma compreensão mais adequada do que movimenta o íntimo.
A mulher e o ateliê
As outras duas partes concentram na pessoa de Nise e em como acontecia o trabalho desenvolvido por ela. “Nise - Ser Mulher, Ser Revolucionária” esmiúça a biografia da cientista, desde a criação com a família em casa até a protuberância intelectual conquistada em décadas de esforço e ousadia.
Nascida em 1905 e falecida em 1999, Nise da Silveira era rebelde assumida e elegeu o afeto como força motora de estudos e ferramenta trabalhista. À época única mulher da turma da Faculdade de Medicina da Bahia, era desejo dela substituir doentes dopados e alienados por pessoas integradas e afetadas, na mais bela e completa acepção do termo. Ou seja, amparava-se na ciência, mas não se levava apenas pela racionalidade.
Certa vez, falou: “Aprendi muito com os loucos, e isso vem atrapalhar um pouco o conceito de razão. Fala-se na fonte da sabedoria e na fonte da loucura, mas elas não são duas. Não há fontes separadas, está tudo muito próximo. De vez em quando uma pessoa ajuizadíssima comete um ato de loucura que, felizmente, diz muito a ela própria sobre sua forma de viver”.
Na exposição, recortes da vida dela são entremeados com obras de clientes tratados com essa verve generosa e afável – caso de Adelina Gomes e Emygdio de Barros – e de considerações de amigos da psiquiatra, a exemplo de Graciliano Ramos e de Carl Gustav Jung, suíço fundador da psicologia analítica. Mergulho diverso e multifacetado.
“Tivemos todo um cuidado na apresentação dos trabalhos”, salienta Isabel Seixas. A maior parte do que está exposto chega aos visitantes por meio do Instituto Nise da Silveira e do Museu de Imagens do Inconsciente, criado como centro de estudo e pesquisa, com mais de 400 mil obras entre telas, papéis, modelagens, textos e poemas, reunidas em mais de oito décadas.
O espaço é descrito como “centro vivo de estudo e pesquisa interdisciplinar sobre as imagens criadas pelos frequentadores de seus ateliês terapêuticos. Esses conhecimentos auxiliam na compreensão dos processos psíquicos no intuito de promover o cuidado, a saúde mental e o bem-estar social”.
Não à toa, a parte final da mostra contempla a forma como Nise atuava nos ateliês, simulando essa experiência com obras de clientes e artistas. Na base da seção, a revelação de como o afeto tem capacidade até mesmo de se transformar em metodologia científica para a reabilitação.
Clausura nunca mais
Museólogo e pesquisador atuante no Museu de Imagens do Inconsciente, Eurípedes Júnior realizou consultoria especializada para a exposição, oficina na Caixa Cultural Fortaleza com o tema “Nise, uma psiquiatra rebelde” e lançou, também no equipamento, o livro “Do Asilo ao museu – Nise da Silveira e as coleções da loucura”. Para ele, as obras expostas no Museu e aquelas na mostra constituem um patrimônio imagético único.
“Pela minha longa experiência no Museu, ajudei nessa mostra com aquilo que está de acordo com os princípios do museu e fazendo um pouco de cada coisa. Trabalhar no Museu de Imagens do Inconsciente é estar em contato o tempo todo com as riquezas do mundo interno, algo que a doutora Nise faz questão de pontuar durante toda a trajetória de vida”.
Travessia capaz de inspirar inclusive outras frentes de projetos. A quadrilha junina Cangaço Nordestino elegeu Nise da Silveira como tema do grupo no São João de 2026. “Nos ateliês que ela abriu ao mundo, o pincel se tornou bússola, e cada cor um território de cura. Onde muitos viam silêncio, Nise enxergava universos inteiros pedindo passagem”, explica a trupe.
Ao que Isabel Seixas complementa: “Há uma frase de Nise na qual ela diz que, quando saiu da cadeia, ficou com mania de liberdade. Nunca tive a experiência de estar enclausurada, mas cada vez mais, depois desse trabalho, tenho pavor a essa estratégia de resolver as coisas enclausurando – seja os próprios problemas, seja outras pessoas”, confessa.
“Acho, então, que a gente precisa buscar se expressar e formas humanizadas de tratamento, seja das pessoas em situação carcerária, seja das pessoas em tratamento psiquiátrico, seja você mesmo. Quanto menos encarceramento e mais liberdade, a cura está mais perto”.
Serviço
Exposição “Nise - A Revolução pelo Afeto”
Em cartaz na Caixa Cultural Fortaleza até 1º de março de 2026. Endereço: Avenida Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema. Visitação: terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 19h. Entrada gratuita. Mais informações pelo site e pelas redes sociais da Caixa Cultural Fortaleza