Bloco Doido é Tu resgata alegria e autonomia de usuários dos CAPS de Fortaleza
Grupo fará festa de Pré-Carnaval neste sábado (31), na Praça da Areninha do Rodolfo Teófilo, e se prepara para desfilar mais uma vez no Carnaval de Fortaleza.
Há quase 20 anos, o bairro Rodolfo Teófilo ganha novas cores durante o período carnavalesco, por meio de uma iniciativa que une cultura popular e atenção à saúde mental. Nas ruas desde 2008, o bloco “Doido é Tu” movimenta, anualmente, centenas de foliões de todas as idades, tendo como protagonistas os usuários dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da capital cearense.
A ideia do bloco surgiu em 2007, quando a gestora cultural Eliza Gunther trabalhava em um projeto da gestão municipal que tinha como objetivo incluir artistas nas equipes dos CAPS de Fortaleza. Em uma das oficinas oferecidas aos usuários do serviço, Eliza percebeu que, mesmo enfrentando momentos difíceis, “as pessoas se animavam com as possibilidades do Carnaval”.
No ano seguinte, Eliza decidiu montar um bloco improvisado para atender àquela demanda. Convidou, sem pretensões, o público atendido pelos CAPS, seus familiares e as equipes do serviço para desfilar na Domingos Olímpio. Conseguiu um trio elétrico emprestado e juntou cerca de 150 pessoas – e muita animação – em uma grande festa na avenida.
Ali começava um projeto que, pouco tempo depois, se tornaria nacionalmente reconhecido como uma ferramenta importante de conexão entre arte e saúde mental. No terceiro ano de folia, o bloco começou a participar de editais do Ciclo Carnavalesco e, por meio de oficinas e de um fazer coletivo, conquistou mais estrutura.
Desde então, o Doido é Tu conta com pessoas que utilizam os serviços do CAPS como protagonistas de ponta a ponta, de quem coordena a produção dos adereços que vão para a avenida aos músicos e rainha de bateria.
Segundo a organização, as prévias e desfiles do bloco têm como principal intuito oferecer eventos carnavalescos tranquilos e seguros para quem está em sofrimento psíquico – e também para outros públicos vulneráveis, como crianças e idosos.
Um dos diferenciais do Doido é Tu, por exemplo, é o acordo com a comunidade para que não se comercialize bebidas nas proximidades da folia, para evitar que pessoas que sofrem com dependência do álcool possam aproveitar a festa com tranquilidade. Outro destaque são os enredos autorais, que costumam pautar a importância de se falar sobre a saúde mental.
Além do bloco, o projeto também possui um grupo vocal, intitulado “Delírios Sonoros”, que reúne usuários do CAPS, educadores e artistas que fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial.
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Para que tudo corra da melhor forma, o trabalho para o Ciclo Carnavalesco começa cedo, entre maio e junho. A antecipação tem motivo: a cada ano, o bloco cresce e a demanda por figurinos e adereços cresce, exigindo mais tempo. No ano passado, por exemplo, foram cerca de mil brincantes na Domingos Olímpio, o que demandou mil fantasias completas.
“Nós trabalhamos o ano inteiro. Somos a maior agremiação na avenida e o único bloco pentacampeão”, explica a idealizadora Eliza Gunther, que destaca o aspecto coletivo da construção do bloco. O projeto é gerido por ela, pela Fundação Silvestre Gomes e por um comitê gestor com representantes dos 16 CAPS de Fortaleza, entre profissionais e usuários.
Para participar, é preciso se comprometer a participar de rodas de conversa e outras etapas que antecedem o período carnavalesco. “A única proibição que a gente faz é fazer qualquer coisa destituída de significado. Então, a gente pede muito que aquele usuário que vai vestir aquela fantasia participe do processo de alguma forma”, pontua Eliza.
“O bloco vem reforçando uma coisa que a Nise da Silveira já dizia: a arte cura. A arte contribui para a cura, é necessária ao viver”, segue a gestora. “E quando a gente fala que a arte é necessária ao viver, a gente não tá falando só daquela arte que a gente pode botar numa galeria, num museu. A gente está falando da arte do dia a dia, da vida, de relações mais solidárias, mais criativas, onde as pessoas têm a oportunidade de se expressar”.
Atividades do bloco reduzem estigma e reforçam laços afetivos
Eliza Gunther destaca que, nos últimos anos, o bloco tem ajudado a reduzir o estigma que afeta pacientes do CAPS – pessoas com transtornos mentais, sofrimento psíquico intenso ou dependência de álcool e outras drogas.
“Para algumas dessas pessoas, os pré-carnavais, os CarnaCAPS [blocos realizados nos CAPS] e o próprio desfile são as únicas oportunidades que elas têm de socialização maior com a comunidade. Elas esperam, às vezes, o ano inteiro por esses momentos”, destaca.
“Fora isso, a gente tem visto uma mudança muito grande de olhar e de perspectiva na própria comunidade aqui do entorno da fundação. Antes, eles tinham muito preconceito, muito medo de se misturar, sabe? E hoje não: estão lá juntos, colaboram. A gente vê que mudou o olhar”, completa.
Além disso, o projeto oferece um outro formato de Carnaval, que aproxima os usuários do CAPS da folia sem causar riscos à saúde. “Temos vários depoimentos de usuários de álcool e outras substâncias que dizem que o bloco ressignificou o Carnaval para eles. Que tinham muito medo, porque para eles o Carnaval significava recaída e ficar ‘louco’ todos os dias, mas viram que existe uma outra forma”, comemora Gunther.
Cantor e diretor musical do bloco há uma década, o artista Ítalo Alves destaca que, apesar de a culminância do trabalho do Doido é Tu ser no Carnaval, o impacto positivo do bloco na vida dos brincantes e da equipe que coloca o bloco na rua vai além do período festivo.
“A gente vive em uma sociedade que tem dificuldade de entender o que é saúde mental, né? Que saúde mental não diz respeito só a diagnóstico, diz respeito a bem-estar, a autocuidado, independente de diagnóstico. Então, quando o bloco surge, ele surge com toda uma carga de enfrentamento a esse preconceito”, explica.
“E é interessante observar que a população de Fortaleza começou a entender o que é saúde mental, como a arte pode promover saúde e que de loucura todo mundo tem um pouquinho, e isso não impede a gente de ser feliz, isso não impede de desenvolvermos nossas potências”, aponta. “Esse crescimento numérico [do bloco] ao longo dos anos mostra que as pessoas começaram a entender o propósito e a aderir a esse movimento”, completa.
O diretor musical ainda aponta que as atividades artísticas possibilitam uma mudança na forma como os usuários do CAPS lidam com seus diagnósticos e como enxergam suas habilidades. Além disso, esses processos têm servido de ponte entre muitos pacientes e suas famílias, que também somam à folia.
“A participação delas é muito importante, porque a gente vê a reafirmação dos laços afetivos – já que a gente sabe que, muitas vezes, nesses processos, há muita ruptura emocional. Acho que o bloco é muito significativo dentro dessas sutilezas também”, conclui.
Habilidades artísticas que movimentam o ano inteiro
Na maior parte do ano, o clima é de expectativa na Fundação Silvestre Gomes, sede do Doido é Tu, e nos CAPS onde a equipe da agremiação oferta oficinas para quem quer aprender as artes do Carnaval.
Quem conta a experiência é Maria Iris Almeida Gonçalves, 65, que coordena a produção de adereços do bloco. Paciente do CAPS há mais de uma década, ela chegou à Fundação em 2014 e foi estimulada a aprender a costurar.
“Eu não sabia de nada. Só fazia chorar, por causa da depressão. Eliza me chamou para que eu aprendesse a fazer adereços para ver se eu me distraía”, conta.
No processo de aprendizagem, além da lida com tecido e acessórios, Iris também aprendeu a lidar melhor com o próprio diagnóstico. A convivência com outras pessoas, a rotina e a certeza de que seu trabalho era relevante para o bloco a ajudaram.
“Conheci pessoas e fiquei fazendo adereços. Nunca soube costurar e aprendi a costurar, cortar e tudo, e fui ocupando meu tempo”, conta. Desde então, seu quadro está controlado e o trabalho que desenvolve abrilhanta a avenida Domingos Olímpio.
“O bom mesmo é na hora que estamos na avenida, todos arrumados. Eu só queria ter um dia para ficar na arquibancada e ver todas aquelas coisas que já passaram pelas minhas mãos”, brinca. “O melhor momento do ano para mim é o Carnaval”.
Quem também é integrante antigo do Doido é Tu é Rodrigo Gualter, 35, o cantor principal do bloco. Autista e usuário do CAPS desde 2012, ele conheceu a iniciativa pouco após começar a utilizar o serviço de saúde e, pouco depois, assumiu o vocal.
Para ele, chegar ao bloco foi o início de uma nova fase, que vai bem além do período festivo, estendendo-se por todo o ano. Conquistou não só habilidades musicais e fãs, mas também mais autonomia.
“A minha experiência foi de superação. Essa é a palavra-chave. Superei meus limites e minhas capacidades, porque o Doido é Tu é um bloco que leva o respeito e a inclusão”, conta.
Apresentações ocorrem durante todo o Ciclo Carnavalesco
Em 2026, a folia do Doido é Tu começou no último dia 17, com o primeiro Pré-Carnaval deste Ciclo Carnavalesco. Neste sábado (31), será realizada a terceira prévia carnavalesca do bloco, que deve reunir centenas de brincantes, familiares e amigos, além de moradores das proximidades, a partir das 17 horas, na Praça da Areninha do Rodolfo Teófilo.
No próximo sábado (7), o bloco realiza seu último pré, no mesmo horário, também na Praça da Areninha. Já no Carnaval, o Doido é Tu desfilará mais uma vez na Avenida Domingos Olímpio, em busca de mais um prêmio de melhor bloco do Carnaval de Rua de Fortaleza.
Pentacampeão, o bloco tornou-se sinônimo não só de atenção à saúde mental, mas também de folia carnavalesca de qualidade, ressalta Eliza Gunther.
“Quando eu saía do desfile, normalmente as pessoas me abraçavam chorando [e diziam]: ‘ah, é um bloco tão bonitinho, pobrezinhos’. Isso me incomodava muito, e eu disse ‘gente, eu quero chegar a um ponto que as pessoas olhem e digam ‘parabéns, que desfile maravilhoso, que desfile lindo’, e que isso seja o mais forte. E isso tem acontecido”, celebra a gestora.
Neste ano, o bloco tem como tema “Doido é quem não te ama, Fortaleza!” e conta com repertório autoral renovado, além de marchinhas e hits de axé. Neste Carnaval, são esperados mais de 700 brincantes. Quem desejar participar da festa deve procurar a Fundação Silvestre Gomes, por meio das redes sociais ou na sede da instituição.
Serviço
Pré-Carnaval do Bloco Doido é Tu
Quando: 31 de janeiro e 7 de fevereiro
Horário: A partir das 17h
Onde: Praça da Areninha do Rodolfo Teófilo, próximo à Fundação Educacional Silvestre Gomes (rua Frei Marcelino, nº 1511 - Rodolfo Teófilo)
Mais informações: @fundacaosilvestregomesoficial