Viajantes criam roteiros para mulheres que querem conhecer o Ceará
Cearenses decidiram transformar o amor por viajar em projetos que estimulam outras mulheres a desbravarem o mundo.
É preciso muito planejamento para viajar: decidir o roteiro, aprender sobre o destino a ser visitado, contratar hospedagem, transporte e, claro, se organizar financeiramente. Para mulheres que desejam se aventurar, porém, há preocupações adicionais no caminho, especialmente relacionadas à segurança, que por vezes acabam por afastá-las da estrada. Neste cenário, projetos que planejam viagens turísticas exclusivas para o público feminino têm se popularizado nos últimos anos, dentro e fora do Brasil.
No Ceará, alguns desses projetos buscam, também, explorar destinos já conhecidos do Estado sob outra ótica e colocar novos lugares na rota do turismo. Um dos destaques recentes desse segmento é a a iniciativa Paulino Te Leva, que realizou, só no ano passado, 19 viagens de curta duração com grupos 100% femininos.
Ao todo, 247 mulheres participaram das excursões do clube de viagens, que visitaram cidades como Barbalha, Guaramiranga e Tejuçuoca, entre outras.
Idealizado pela publicitária Amanda Paulino, 31, o Paulino Te Leva começou de forma despretensiosa há cerca de três anos, mas só se tornou uma empresa de fato no início do ano passado. Viajante desde muito jovem, Amanda sempre compartilhava dicas dos lugares que conhecia sozinha e começou a receber pedidos das amigas para que organizasse viagens em grupo.
A primeira, elaborada de forma despretensiosa e custeada de forma colaborativa, ocorreu em dezembro de 2022, para um acampamento em Guaramiranga. Além de Amanda, viajaram quatro meninas, duas delas suas amigas. Ao compartilhar os detalhes da aventura no Instagram, houve demanda para uma nova viagem no mês seguinte, desta vez para Icapuí.
Ao longo de 2023 e 2024, a empreendedora organizou algumas viagens pelo Ceará. Com os grupos de viajantes aumentando e a operação se aperfeiçoando, a jovem comunicóloga decidiu investir profissionalmente no projeto. Há um ano, o PTL começou a funcionar oficialmente como um clube de viagens, com foco em excursões para grupos pequenos, de 10 a 28 pessoas.
As novidades do projeto são divulgadas no Instagram e em dois grupos do WhatsApp: um voltado para notícias e um para a criação de uma comunidade de viajantes mulheres.
“Lá a gente conversa sobre muita coisa: sobre a nossa vida pessoal, sobre viagens que a gente quer fazer, sobre viagens que a gente já fez, dá dicas para outras meninas. Então, se tornou uma comunidade para além do interesse de viagens e de amizade mesmo”, celebra Amanda.
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Mais segurança e novas amizades
Segundo Amanda, a decisão de direcionar o projeto ao público feminino foi natural. “Antes, eu já tinha um grupo [de dicas] no WhatsApp que era somente para mulheres, porque eu postava muita coisa da minha vida pessoal, tipo ‘gente, vou viajar daqui a um mês para tal lugar, comprei tais passeios’. Para a minha segurança, era preferível que fossem mulheres”, explica.
A empreendedora conta que, desde o início, pensou em organizar um espaço seguro para que outras mulheres pudessem vivenciar experiências como as que ela vivia. “Acho que uma mulher viajando sozinha é um ato revolucionário”, afirma. O estímulo, no entanto, exige cuidado, já que a atenção de viajantes mulheres precisa ser redobrada.
“Existem várias coisas que a gente, enquanto mulher, precisa estar mais atenta. A roupa que a gente vai usar, os lugares que a gente vai sair, as mentiras que a gente vai precisar contar”, lamenta.
Para criar ambientes mais seguros, Paulino destaca que as hospedagens das viagens costumam ser exclusivas para os grupos de mulheres, sendo em hostels ou casas de veraneio. Por segurança, principalmente, mas também para que as viajantes se sintam mais à vontade.
A ideia, segundo ela, tem funcionado, e muitas vezes os “elencos” de cada viagem criam vínculos que vão além da proposta inicial do clube. “Tem alguns casos bem legais de pessoas que foram e criaram amizades e laços que parecem de outras vidas”, celebra.
Atualmente, o clube de Amanda costuma realizar uma ou duas viagens por mês. Entre os destinos frequentes estão praias do Ceará, destinos do Cariri cearense e a Rota Verde do Café, no Maciço de Baturité, entre outros.
“A gente procura muitos lugares fora da rota turística que o Ceará apresenta, porque tipo, a gente tem um litoral muito lindo, muito rico, mas a gente tem muitas outras coisas tão bonitas quanto”, destaca..
No ano passado, o projeto também chegou a fazer uma viagem para fora do estado, no Rio Grande do Norte. Neste ano, o clube se organiza para fazer um pequeno tour pelo Nordeste e, em colaboração com uma agência de viagens de maior porte, explorar os primeiros roteiros internacionais – Colômbia, Espanha e Portugal, todos previstos para o segundo semestre.
Além disso, nos próximos meses, as viagens pelo Ceará devem continuar frequentes. Por enquanto, só no primeiro semestre, estão previstas rotas para Itarema, Pacoti, Icaraizinho de Amontada, Quixadá, Tianguá e Barbalha. As informações sobre as viagens estão disponíveis no perfil do projeto no Instagram.
O Brasil é muito rico, mas o Ceará também é. A gente tem litoral, a gente tem sertão, a gente tem serra, a gente tem coisas incríveis – incríveis mesmo, que quando eu conheço, eu falo ‘meu Deus, não acredito que eu estou no Ceará. Que bom que eu estou aqui!’. Acho que as pessoas precisam desmistificar isso de ‘estou de férias, tenho que ir para outro lugar do País’.”
Novas experiências e conexão intergeracional
Por ter sido estimulada a viajar desde cedo pela família, Amanda conta que também decidiu destinar o projeto a mulheres por entender que, de maneira geral, há mais empecilhos para as viajantes: além das questões relacionadas à segurança, muitas vezes as mulheres não encontram tempo e rede de apoio para conseguir realizar os seus sonhos.
“A mulher já nasce com algumas tarefas a mais. Não só de trabalho, mas de cuidar das pessoas, cuidar da família, precisar ou querer ‘cumprir tabela’ para montar uma família, ter filhos”, comenta. “E quando você não quer fazer isso e você só quer conhecer o mundo, entender sobre outras culturas, sobre outras comidas, sobre outras pessoas, é diferente”, completa.
Por ter como foco viagens de curta duração e dentro do Estado, o projeto também ajuda quem quer se aventurar em destinos mais distantes ou viagens mais longas a se “ambientar” sozinha, explica Amanda. “É um primeiro ensaio para pensar ‘como eu me comportaria com outras pessoas que não tem o mesmo ensinamento que eu, que não tem as mesmas vivências que eu?’, porque são mulheres de idades diferentes, comportamentos diferentes”, pontua.
Uma das viajantes frequentes do Paulino Te Leva, a psicóloga Simone Chabloz, 53, conheceu o projeto pouco depois de decidir fazer morada em Fortaleza, em abril do ano passado. Executiva de Recursos Humanos, Simone mudou de São Paulo para a capital cearense após conseguir um emprego em uma multinacional e terminar um casamento de 24 anos, duas transformações que a impulsionaram a buscar outros novos desafios.
“Decidi que iria somar à mudança a busca por qualidade de vida e novas experiências”, conta. Por meio de uma colega de trabalho, soube que um grupo de 15 mulheres desconhecidas iriam explorar o município de Tejuçuoca e decidiu embarcar na aventura.
A viagem foi a sua primeira sozinha. “Depois vieram Canoa Quebrada, Águas Belas e Acaraú”, comemora Simone, que destaca que encontrou, nas companheiras de viagem, “conexão e rede de apoio” nos destinos e na nova cidade.
“O ponto alto [do projeto] são as experiências locais com a cultura e para mim, a conexão geracional, pois são mulheres mais jovens, na maioria”, explica. “Esse formato é incrível por trazer segurança, porque infelizmente nós mulheres somos – ou ficamos – vulneráveis ao viajar sozinhas, diante do sistema que resiste em mudar”, completa.
Turismo comunitário e feminino
Também exclusivo para o público feminino, outro projeto cearense tem como intuito estimular viajantes a conhecerem roteiros menos “viralizáveis”, com foco na educação ambiental e na cultura popular cearense. Tendo como base o turismo comunitário, o Imersa foi idealizado pela oceanógrafa Luana Castelo, 34, e até o momento realizou uma excursão para fora de Fortaleza, além de diversas atividades turísticas na própria capital cearense.
A ideia de um projeto voltado para um turismo sustentável e protagonizado por mulheres surgiu quando Luana estava na faculdade, por volta de 2016. A partir dos estudos, ela começou a entender melhor o impacto do turismo de massa – especialmente em pequenas cidades do Ceará que se tornaram sensação entre turistas, como Jijoca de Jericoacoara.
Na mesma época, ela começou a explorar novos destinos, muitas vezes sozinha e sem muito planejamento, o que chamava a atenção de amigas. “Eu viajava e todo mundo ficava ‘ai, me chama’, ‘me leva quando for’. Aí eu pensava ‘cara, tem dois vieses aqui: as pessoas estão querendo viajar e existe essa problemática do turismo’. E ficava pensando que, em algum momento, eu queria fazer um projeto abordando essas problemáticas”, lembra.
No ano passado, após uma pesquisa aprofundada para entender as dinâmicas e demandas dos possíveis destinos, Luana lançou o Imersa ao mundo, não só como um projeto de viagens, mas também uma plataforma que conecta turismo e educação ambiental.
A primeira viagem, realizada em junho, foi para a Praia do Balbino, em Cascavel, e reuniu algumas amigas – e amigas de amigas – em um roteiro 100% voltado à natureza e aos saberes tradicionais da região. No destino, o grupo aproveitou para conhecer as dunas, mangues e lagoas da região, além de participar de atividades culturais, rodas de conversa e uma trilha ecológica.
Desde então, o Imersa também realizou atividades de turismo comunitário na capital cearense, a exemplo de uma trilha ecológica pelos manguezais da Sabiaguaba. As rotas incluem passeios e atividades formativas, como rodas de conversa com lideranças locais – inclusive, todos os roteiros são aprovados pelas organizações de moradores das comunidades, visando reduzir o impacto negativo da atividade turística.
Viagens possibilitam construção de laços
Para Luana, as experiências que têm sido pensadas pelo projeto Imersa buscam não só conscientizar sobre o impacto do turismo no Ceará, mas também sobre a importância do protagonismo feminino nesse setor, tanto para quem trabalha no segmento quanto para quem usufrui dele.
“A gente carece de espaços que sejam nossos”, pontua. “Não só pelo fato da gente precisar ter essa segurança quando a gente viaja, mas também pelo fato de que, quando a gente se reúne, só mulheres, a gente consegue construir outros laços”, completa.
Uma das participantes da primeira excursão do Imersa, a geóloga Gleiciane Correia da Silva, 33, reforça o pensamento. “O processo de escuta é real entre mulheres, nos sentimos acolhidas e não em uma competição de promoção das nossas concepções”, destaca a viajante, que coloca a conversa com a mestra Francisca Pires, rendeira e Tesouro Vivo, como outro momento importante de trocas na Praia do Balbino.
“Ela apoia esse formato de turismo comunitário como alternativa para a resiliência dos espaços costeiros. Quando o turista vem e consegue ver o manguezal como ele é, com o cheiro e com a textura que só tem aqui, é que faz a diferença”, aponta.
Idealizadora do Imersa, Luana Castelo destaca que a relevância de elaborar novos caminhos para mulheres viajantes inclui, também, uma afirmação de um lugar que não foi concedido, mas conquistado. “A gente vem conquistando esse espaço de poder viajar, de poder ter as nossas férias, o nosso cuidado. Mas a gente ainda tá exposta, vulnerável às violências”, pontua.
“Muita mulher quer viajar, mas não quer viajar só. Quando você viaja em grupo, você dá oportunidade a uma mulher que quer muito viajar, que queria muito fazer alguma coisa, mas até então não sabia como fazer isso, ou não teve estímulo para isso”, conclui.
As próximas viagens do Imersa já estão planejadas e devem ocorrer trimestralmente. Em março, haverá uma excursão para a Praia do Fortim; em maio, um roteiro que mostra uma Canoa Quebrada menos conhecida.
No início do segundo semestre, a ideia é desbravar o Norte do País em uma viagem pelo Pará, expandindo a atuação do projeto. As informações sobre os novos destinos podem ser conferidas no Instagram.