Festa gratuita anima Centro de Fortaleza com forró pé de serra, bingo e faz a alegria da 3ª idade
Realizado no Complexo Estação das Artes e inspirado nos clubes de dança da cidade, programa“Baila Comigo” celebra dois anos de realização em meio a socialização de idosos e muita história para contar
Para onde você vai em noite de sexta-feira? Nas primeiras de cada mês, há um lugar preferido para centenas de pessoas – e poderia ser o seu também. É onde forró pé de serra, bingo, comidas típicas e toda espécie de alegria unem-se em torno da celebração da vida. É onde ninguém fica parado, e até chama mais gente. O Baila Comigo é mesmo especial.
Nascido há dois anos, o projeto acontece de forma gratuita no Complexo Estação das Artes e celebra aniversário neste mês de agosto. O Verso participou da edição comemorativa da ação, e testemunhou algo bonito: a força da vontade de bailar.
Casais de diferentes gerações, pessoas na própria companhia e marinheiros de primeira viagem ocupavam a Gare, pátio central da Estação, em ritmo de liberdade e entrega total. Do início do projeto até aqui, já foram realizadas 23 edições, com alcance de mais de 10 mil participantes, sobretudo pessoas idosas. Um marco.
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“O Baila Comigo busca proporcionar uma experiência autêntica, inspirada nos clubes de dança do Centro de Fortaleza. Toda primeira sexta-feira do mês, a Gare da Estação das Artes se transforma em uma verdadeira pista de dança, na qual pessoas se encontram para movimentar corpo e mente”, diz Uliana Lima, diretora da Estação das Artes.
Segundo ela, o programa surgiu a partir de um diálogo permanente entre a gestão do equipamento e habitantes do bairro Moura Brasil, território no qual a Estação está inserida. O objetivo inicial era oportunizar a socialização de idosos da localidade por meio de uma atividade com a qual eles já eram familiarizados: a dança.
“Frequentadores assíduos de clubes do Centro de Fortaleza – a exemplo do Santa Cruz – moradores como seu Jurandir, Madrinha Lúcia e seu Ismael sugeriram a realização de um baile com forró tradicional na Estação das Artes. A sugestão foi acatada, e a primeira edição aconteceu em 3 de agosto de 2023”.
Entre as características do projeto – fáceis de conferir em poucos minutos no evento – estão a presença de bailarinos convidados, para que ninguém fique parado na pista; talco no salão, o qual facilita as passadas no baile; e o tradicional bingo, com marcação de cartela em palitinho de dente. Este momento, em específico, acontece entre um forró e outro.
Grandes nomes, a exemplo de João Bandeira, Luizinho Calixto, Zé Bandeira, Diana Franco, Clementino Moura Filho e Dedim Gouveia Jr., já subiram ao palco do programa e colocaram muita gente para dançar.
“É um compromisso do poder público assegurar à pessoa idosa, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à cultura, conforme assinalado no Estatuto do Idoso. E é exatamente nesta perspectiva que o Baila Comigo está inserido”, comemora Uliana.
Do Moura Brasil para a pista do forró
Um dos principais envolvidos com o processo de consolidação do Baila Comigo, Jurandir Bezerra, conhecido como Didi, é morador do Moura Brasil e dimensiona o quanto o projeto muda a vida do bairro.
“Depois que equipamentos como a Estação das Artes começaram a funcionar, o Moura Brasil está com outro olhar. Está bem mais rico por causa da programação todo fim de semana. O Baila Comigo, pelo menos, se expande cada vez mais”, observa.
Apaixonado por gafieira desde os 14 anos de idade – quando passou a dar os primeiros passos nas diferentes pistas de dança de Fortaleza – o profissional multitarefas aperfeiçoou o conhecimento na arte ao ensaiar com uma vassoura. Hoje, embora chegue sozinho ao Baila Comigo, não fica parado: é do próprio feitio incentivar o movimento.
“Às vezes, vejo uma pessoa meio triste e pergunto se quer dançar, porque o objetivo do evento é esse, que todo mundo dance”, conta. “É uma gratidão imensa saber que essa estação, antes parada, agora é um equipamento capaz de resgatar a cultura da gafieira – quase morta no Centro devido à violência. O Baila Comigo é referência para o Ceará”.
Presidente da Associação dos Ferroviários Aposentados do Estado, Maria Erivanir Soares da Silva tem a mesma impressão. Gosta de saber que a estação, outrora silenciosa e desgastada, nos anos em que ficou sem funcionar, agora se revigora com projetos feito esse, de dança, encontro e felicidade. “É uma transformação artística, cultural e de revitalização do Centro”.
Ela foi funcionária da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) ao longo de três décadas; hoje, aos 81 anos, observa o novo movimento no espaço com emoção. O sentimento fica ainda mais forte devido à própria militância na causa da pessoa idosa. “Me sinto muito feliz ao ver essa transformação porque vivemos em um mundo tão frenético, tão desumanizado, que quando observamos aqui essa mistura social, a gente se emociona”, diz.
“Adoro ir lá pra frente, dançar com as pessoas idosas que moram no Moura Brasil. Conheço muita gente do bairro, as lideranças, acho maravilhoso. O projeto deveria ser mais vezes no mês, gostaríamos que fosse pelo menos duas. O Baila Comigo faz com que as pessoas mais vulneráveis se sintam valorizadas”.
Além disso, destaca: “A gente não pode esquecer a importância da ferrovia. Hoje temos o metrô e o VLT, mas ainda me emociono ao lembrar da sensação do trem. Já fiz algumas vezes o trajeto atual, e é mais moderno, diferente… Mas a memória fica. Vir à Estação das Artes é recuperar um pouco disso”.
Fortalecer a autoestima
Um dos aspectos mais relevantes do programa também diz respeito ao fato de dispor de bailarinos para dançar com quem está sem par. Sinalizados com camisa amarela, ficam disponíveis ao longo de toda a festa, de 18h às 22h – embora quase nunca livres, uma vez que a procura pelo serviço é grande.
“Somos solicitados até demais porque ainda não conseguimos dar conta de todos”, brinca o professor de dança Flávio Diogo. A participação dele no programa iniciou ao frequentar a festa de forma despretensiosa, desde o início da ação. Com o tempo, mediante observação da coordenação do equipamento, foi convidado a somar na iniciativa.
A partir daí, chamou um corpo de bailarinos para auxiliar na missão. Agora, vários deles promovem instantes de leveza e bem-vinda companhia, além de despertar algo valioso: a autoestima em quem chega perto, geralmente sozinho, para dividir um passo. Garantir que mantenham o brilho no olho e no bailar da vida.
“Aqui não existe a pessoa dizer ‘não sei dançar’. Estamos de prontidão pra todo mundo mexer o esqueleto. A melhor parte é que o público que chega, já chega pra dançar. Até mesmo quem quer dá apenas dois passos pra lá e dois pra cá, procura a gente”. Para Flávio, mais que diversão, saber-se o par de alguém é libertador para quem se achega aos bailarinos.
“Particularmente, recebo nas minhas redes sociais um grande acolhimento do público. Sempre agradecem. Uma mulher, inclusive, disse que perdeu o marido e ele gostava de dançar. Ao dançar comigo ou com um dos meninos, sentiu um abraço acolhedor. É muito gratificante essa troca. Vejo como um momento de se divertirem, de explodirem de alegria”.
Uliana Lima reitera a fala de Flávio ao considerar: “Dos processos de curadoria artística – com a escuta ativa do público, e divulgação, a partir da produção de flyers e spots que circulam no território por meio da colaboração de seu Ismael, morador do Moura Brasil – até a realização do Baila, há um cuidado permanente para que as pessoas frequentadoras desfrutem de um momento especial. Que se reconheçam ali, sintam-se pertencentes à atividade, abraçando as memórias de um passado-presente no compasso da dança”.
Baila Comigo também é cupido
E até mesmo começar ou reforçar um amor. Encontramos Carlos Alberto e Eugênia Moura no maior chamego enquanto, no palco, a banda ecoava mais um clássico do forró. Ele com 82 anos, ela com 66, saíram do José Walter para desfrutar do Baila Comigo no Centro. “Aqui é ótimo, vale a pena vir de tão longe”, festeja a dama.
Conheceram-se no exato soar da sanfona, há seis anos. Além do Baila Comigo, percorrem outras festas, em Fortaleza e na Região Metropolitana, nas quais o forró é bandeira alta. “Dançar é uma terapia maravilhosa, você se sente muito bem”. Quando indagados se faz diferença um amor regado a música, olham um para o outro e não disfarçam: “É bom saber que a gente não precisa mais olhar só de longe; agora, estamos um ao lado do outro”.
Mesmo ritmo bailante tem Cátia Reis, 55, e Francisco Reginaldo, 56. Moradores do Moura Brasil, somam 15 anos juntos após a primeira dança no Clube Santa Cruz. Comemoram o fato de o Baila Comigo ser realizado no território do bairro, promovendo diversão e bem-estar à população. “A gente vem sempre, é bom demais”, sorri Cátia.
Ao que Reginaldo complementa: “Acho que a principal diferença desta para outras festas do gênero é que aqui o ambiente é bem familiar, muito comunidade. É uma ótima opção para o Moura Brasil porque muita gente do bairro não tem condições financeiras para frequentar outros lugares. O forró causa uma alegria, a gente extravasa... Você esquece os problemas, é um momento mágico. Um amor que não tem forró deve ser muito triste”.
Embora sem par fixo na festa, Antônio Batista da Silva, 75, tende a concordar com a opinião de Reginaldo: coisa sem graça é corpo sem bailar. Não à toa, diretamente do Bom Jardim, reveza-se entre uma acompanhante e outra ao longo da noite. Ao término, faz conta breve: deve ter dançado com cinco ou seis. “Desde pequenininho, sou assim”, gargalha.
“Danço com quem queira dançar. No Bom Jardim não tem forró, aqui é o mais próximo. E sou viciado. Pra mim, é a maior alegria do mundo. Quando eu era novo, às vezes meu irmão me levava pro forró, e eu acabava dormindo por lá mesmo. Daí que veio essa paixão”.
A partir da compreensão da importância do Baila Comigo, neste ano ele foi oficialmente inserido no Plano de Trabalho da Estação das Artes, com meta e atividades específicas. Não à toa, até o começo de 2027, em toda primeira sexta-feira do mês o Baila seguirá oportunizando a socialização de idosos na Estação das Artes.
“A permanente participação do território e do público focal é de extrema importância para que o programa siga cumprindo com o papel social que lhe foi atribuído. Possivelmente, nos próximos meses, devem ser contratados mais bailarinos para dar conta do aumento de frequentadores”, adianta a diretora da Estação das Artes.
“Toda essa energia se reflete também em um atendimento com alegria, educação, cuidado e atenção necessários para fazer o público sempre retornar”. Para onde você vai em noite de sexta-feira? Estude bem a rota. Vá bailar.
Serviço
Programa Baila Comigo
Toda primeira sexta-feira do mês, de 18h às 22h, no Complexo Estação das Artes (Rua Dr. João Moreira, 540 - Centro). Gratuito. Mais informações nas redes sociais do equipamento