Museu Ferroviário tem programação infantil de férias, mas encanta todo o público
Atividades são gratuitas e abertas a todos, em Fortaleza e no interior.
Quando pôr os pés no Museu Ferroviário Estação João Felipe, Centro de Fortaleza, preste atenção na sensação. Considere o sentimento. De repente, toda a luz externa cessa e um portal convida a ingressar na História, Memória e movimentos de um Ceará que ainda passeia por trilhos e estações. O encanto é geral, e acerta em cheio sobretudo gente de menor idade.
É o que justifica o investimento do equipamento em uma programação voltada especialmente ao público infantil neste período de férias escolares. É o que também deve motivar você a sair de casa e dirigir-se ao lugar. Com entrada gratuita e aberta a todos, o Museu se torna imperdível não apenas pela mágica aura das ferrovias, como também pelas ações que oferta.
Neste domingo (18), por exemplo, de 11h às 12h30, acontece o Cafezinho nos Trilhos, derivado do programa Café nos Trilhos: um Passeio entre Museus. A intenção é realizar visita mediada com crianças pelas exposições “Nos trilhos do tempo: histórias da ferrovia do Ceará”, no Museu Ferroviário, e “Caminhos do café no Ceará”, no Museu da Indústria.
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São 15 vagas reservadas aos pequenos e responsáveis. As inscrições estão abertas no perfil @museuferroviariojoaofelipe, no Instagram. Além da visita mediada, também haverá oficina de pintura, tudo sob o lúdico guarda-chuva do universo ferroviário.
“É incrível como as crianças se encantam. Quando você vê um grupo com pais, tios e avós, essa presença fica intergeracional porque o lugar da ferrovia transita em todas as idades. Mas a criança é apaixonada. Digo porque existe a série de Harry Potter, aquele mundo de fantasia, e tudo aqui lembra muito. Elas amam”, situa Alênio Alencar, diretor do Museu Ferroviário.
Ainda para os pequenos, ele também destaca um encontro entre crianças surdas e o ilustrador João Filho – profissional surdo, artista e tradutor. Ocorrerá no dia 28. Durante a atividade, o convidado falará sobre a própria trajetória pessoal, acadêmica e profissional, além de mostrar os diversos eixos no campo das artes visuais.
A mediação do momento será de Lyvia Cruz – professora, tradutora e contadora de histórias em Libras – e deseja fortalecer a autoestima das crianças e aproximar as famílias da diversidade de possibilidades profissionais para pessoas surdas.
Por que crianças adoram o Museu Ferroviário
O motivo é claro: tudo no espaço do equipamento está a favor delas. A própria luz baixa, indireta, já instaura um clima de aconchego e proximidade. Outro fator preponderante – e um dos mais notáveis – é a altura com que ficam todos os objetos em exposição. Reparem que, se para um adulto já é confortável observar itens nessa conformação, imagine para quem não precisará esticar os pés para dar de cara com peças de grande valor simbólico.
Entre elas, está uma grande maquete tátil, em branco e vermelho, no centro do Museu, com detalhes ricos e belíssimos de uma locomotiva. Pequenos bonecos, repletos de detalhes, deixam tudo ainda mais especial, e o público é capaz de ficar longos minutos observando – seja para recordar o tempo que andava de trem, seja para adentrar nesse panorama.
Outra maquete – essa com dimensões bem maiores e com proposta ainda mais imersiva de mergulho – é outro convite certeiro. Ela tem cinco metros de extensão e retrata o complexo das Oficinas do Urubu, como ficaram conhecidos os locais de manutenção e reparação de locomotivas, vagões e carros, dando suporte à RVC (Rede Viação Cearense).
São galpões, trens, tratores, grandes faixas de terra, areia e grama, tudo em miniatura. A produção iniciou em 2015 e foi feita em um ano por Antônio José Simão, aposentado da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Hoje, é uma das atrações mais queridas do museu, sobretudo porque os trenzinhos podem se movimentar, e há até sons.
Falando em miniaturas, há várias espalhadas pelo equipamento, bem como relógios, utensílios, vestimentas e até bancos originais da época de funcionamento da ferrovia. Um grande mapa digital, sensível ao toque, permite que visitantes saibam detalhes das diferentes estações presentes no Ceará, em Fortaleza e no interior.
“Sou historiador e gestor cultural, então é nesse lugar da História, da Memória e do Patrimônio que criamos pertencimento com aquilo que somos. Quando estamos no Ensino Fundamental e Médio, estudamos muito Europa, América, Ásia, um pouco de África, ou seja, sempre muito ‘pra fora’. E acabamos não estudando ‘pra dentro’. Quase não estudamos sobre sertão, por exemplo. E esse sertão precisa ser conhecido porque vivemos nele. O lugar em que vivemos é o lugar que nos pertence”, poetisa Alênio Alencar.
Segundo ele, conforme observação da equipe do Museu, a comunidade autista é uma das que mais abraça o que o equipamento tem a oferecer, sobretudo por ser um lugar silencioso, com iluminação difusa e por eleger o trem como objeto de destaque – muitas vezes, o hiperfoco de quem vai visitar. “Eles se sentem muito pertencentes, e se encantam com esse universo”.
Atividades também no interior
Para além da Capital, o Museu estica trilhos Ceará adentro – e igualmente com programação infantil. A ideia é descentralizar conhecimentos e experiências na área, chegando até onde talvez não chegaria. Dito isto, em Baturité, na antiga estação ferroviária da cidade, será lançada a Coleção Histórias Ferroviárias - V.1 - Estação de Baturité, no dia 22.
A cartilha foi desenvolvida com a finalidade de apresentar a história do lugar aos diversos tipos de públicos. Também busca preservar e valorizar a memória ferroviária, em movimento de reconhecimento e importância.
“É uma memória que pertence a todos nós porque é uma herança. Quando recebemos essa herança de tudo o que foi construído pela humanidade – entre eles o patrimônio ferroviário e a lembrança desse segmento, espalhada pelo Estado – somos responsáveis pela salvaguarda”.
Por sua vez, em 29 e 30 de janeiro, serão realizadas visitas mediadas no município de Senador Pompeu a partir de diálogo sobre a trajetória ferroviária da cidade. Logo após, haverá oficinas artísticas voltadas somente para o público infantil.
No dia 29, a proposta é que os pequenos montem e decorem um trem, feito com palitos de picolé e tampinhas de garrafa na oficina Construindo Locomotivas. No dia 30, será a vez da Oficina de Isogravura, na qual produzirão imagens inspiradas nos símbolos da ferrovia cearense e em passagens marcantes da cidade a partir de isopor.
Para o diretor do Museu Ferroviário, cada rumo que essas ações tomam apontam para um fim: mudança de perspectiva do público acerca do mundo da ferrovia. “A gente passa a olhar para cidades, sertão, serras e litoral de forma mais humana, lúdica e afetiva”, diz.
“Esse lugar da afetividade, inclusive, faz com que o Museu Ferroviário seja uma casa de memória, um lugar que abraça a História e a fomenta por meio de ações para que as pessoas compreendam, aprendam e protejam esse patrimônio”.
Tem para todo mundo
Ultrapassando a dimensão infantil, outras faixas de idade são totalmente contempladas no museu. Um dos projetos mais legais são as Rodas de Conversa com Ferroviários, realizadas tradicionalmente às quartas-feiras.
Neste mês, os temas serão: A memória ferroviária de Acopiara, Ceará; Trens do Ceará: história e memória; e Personalidades homenageadas pela Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) e Associação dos Engenheiros da Rede Viação Cearense (AERVC).
Após as duas últimas rodas, também acontecerão oficinas de aquarela e jogos de mesa. As atividades acontecem na Associação dos Ferroviários Aposentados do Ceará (AFAC), no período da tarde.
No dia 25, haverá mais uma edição da ação “Trechos” a partir da temática “As oficinas ferroviárias de Fortaleza: dos primórdios às Oficinas do Urubu”. Nesta, o convite é para percorrer a exposição de longa duração do Museu Ferroviário, conduzida pelo artista e ferroviário aposentado Antônio Simão, autor da maquete em exibição do espaço.
Já no dia 31, acontece a visita mediada em Libras, realizada mensalmente por meio do programa Ferrovia Acessível. Os educadores museais, juntamente com os Tradutores Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (TILs), farão um resgate histórico ao longo da exposição “Nos trilhos do tempo - Histórias da ferrovia do Ceará”.
“O trem é um brincar e, ao mesmo tempo, um conhecimento. E é assim que trabalhamos”, arremata Alênio Alencar.
Serviço
Museu Ferroviário Estação João Felipe
De quarta a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 12h às 20h; e domingo, das 10h às 17h. Endereço: Rua 24 de Maio, s/n, Centro. Gratuito e aberto ao público. Mais informações nas redes sociais do equipamento