Política pública de dança mais longeva no Ceará, curso técnico da Porto Iracema completa 20 anos
Com mais de 200 artistas formados, curso fortalece cena local, mas ainda enfrenta desafios para garantir continuidade e manutenção dos alunos
Criado em um momento de vazio de políticas públicas para a dança no Estado, o Curso Técnico em Dança (CTD) da Escola Porto Iracema das Artes completa, neste ano, duas décadas de atuação ininterrupta. Oriundo da mobilização de artistas que compunham o Fórum de Dança do Ceará após o fim do Colégio de Dança do Ceará, em 2003, a formação deu início a uma nova etapa do segmento artístico no âmbito local, com destaque para a Capital.
Inicialmente formulado como um curso técnico gerido em parceria pela Secult-CE, o Instituto Dragão do Mar (IDM) e o Senac, o CTD foi incorporado à Escola Porto Iracema das Artes em 2013. Segundo a bailarina, atriz e pesquisadora Bilica Léo, coordenadora do CTD, a formação tornou-se um marco na Cidade por permitir, principalmente, que artistas da dança conseguissem se manter no Ceará sem abandonar o amor pela arte e a profissão.
Isso porque a própria Bilica fez parte de toda uma geração que “para seguir dançando profissionalmente, tinha que sair do Ceará”, já que não havia políticas públicas para o setor. “Hoje ninguém precisa mais sair do Estado para ter uma formação técnica em dança. Ao contrário disso, nós já recebemos alunos do Maranhão e do Piauí, sem falar os alunos vindos do interior para fazerem o curso”, destaca a coordenadora.
Nos últimos 20 anos, formaram-se mais de 200 alunos, divididos em oito turmas. No momento, as inscrições para a 9ª turma estão abertas. Para participar da seleção, é preciso ter 16 anos ou mais, estar cursando ou ter concluído o 2º ano do Ensino Médio e preencher um formulário on-line. As inscrições vão até 6 de julho.
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Atualmente, para Bilica Léo, “o Ceará é um dos estados onde a dança é mais respeitada no País” – e parte dessa construção vem da manutenção de políticas públicas para o segmento. No caso do CTD, os alunos que concluem o curso, afirma Bilica, não apenas se tornam professores e coreógrafos, mas também fomentam a cena artística e a circulação de espetáculos.
O percurso de aprendizado também traz oportunidades de transformação social, já que qualifica, majoritariamente, estudantes oriundos de bairros periféricos e escolas públicas de Fortaleza.
De acordo com Bilica, essa transformação também traz sustentabilidade ao setor, já que “mantém e justifica a necessidade de implementação das políticas públicas, como os editais de cultura”, além de empregar ex-alunos. “Isso cria uma rede que fortalece o campo da dança na cidade”, aponta.
Aprendizado que se multiplica
Membro da primeira turma do CTD, o artista e professor de dança Rubéns Lopes, 38, dança “desde que se entende por gente”, mas só conseguiu procurar uma formação na área ao concluir o Ensino Médio. “Minha mãe costumava dizer que ‘primeiro vem a obrigação e depois vem o lazer’. Naquela época ela ainda não entendia que a dança se tornaria o meu trabalho (e nem eu)”, conta.
Ao adentrar no curso técnico ainda muito jovem, aos 16 anos, decidiu se dedicar com afinco para não ficar para trás, já que os demais alunos tinham mais experiência. “Ativei o modo ‘vou absorver tudo o que puder’. E assim o fiz”, conta, orgulhoso. Por meio do curso, conheceu a cena de dança no Ceará e chegou a ter aulas com professores de outros estados e países.
A partir do curso, se tornaria não apenas artista, mas também um multiplicador do que aprendeu no CTD, tornando-se professor de diversas turmas de dança até hoje, função que exerce até hoje.
“Meu repertório de dança aumentou consideravelmente. Após o CTD, comecei a dar aulas de dança e um tempo depois entrei na graduação em Dança (licenciatura), depois no mestrado em Artes”, compartilha.
Em 2017, uma década após se formar no CTD, o artista passou a, também, prestar serviços para o percurso formativo, ensinando módulos de dança contemporânea, jazz, dança e ancestralidade, além de orientar trabalhos de conclusão de alunos.
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Dança como ferramenta ancestral
A dança também sempre esteve presente na vida de Ana Carolina Soeiro Mandu, 31, fosse "nas brincadeiras de bumba-meu-boi, nos rituais religiosos ou nos gestos do cotidiano". Nascida em São Luís, no Maranhão, e indígena do povo Ka’apor, ela veio para Fortaleza para a 7ª turma do Curso Técnico em Dança em 2020 e conseguiu, pela primeira vez, transformar os conhecimentos que já possuía em uma formação estruturada e contínua.
"Foi onde pude olhar pra dança como pesquisa, como linguagem viva, como forma de reexistência. Um espaço onde pude aprofundar minha escuta e compreender meu corpo como território criador", conta.
A mudança para a capital cearense, de início, não foi fácil. Mandu tinha acabado de concluir a graduação em psicologia e passava por mudanças no âmbito pessoal, mas não quis deixar de lado a possibilidade de unir o amor pela arte da dança e o interesse pela investigação artística de sua ancestralidade.
"Pesquisei muito sobre o curso e, quando vi a possibilidade de entrar, segui o chamado", lembra. "O que o curso me trouxe de mais valioso foi a possibilidade de criar com liberdade e profundidade, com acesso a mentores incríveis, com espaço para pesquisar minha dança afroindígena e ritualística, e para entender meu corpo como território político, espiritual e artístico", celebra.
Mesmo longe da família e de sua terra, enfrentando desafios emocionais e financeiros, a artista considera que a formação técnica trouxe boas oportunidades. "ude aprofundar minha pesquisa artística, fazer conexões com artistas incríveis, circular por outros cursos e projetos dentro e fora do Ceará", ressalta. Atualmente, Mandu atua como artista da dança, visual e circense, performer, psicóloga e arteterapeuta, e fez da capital cearense sua morada.
Ceará ainda precisa formar plateia
Para Rubéns, hoje Fortaleza possui um cenário de dança muito mais forte, e a possibilidade de formação e transformação social ocorre não só no Porto Iracema, mas em outros espaços, como a Vila das Artes, que oferece um curso básico de dança para crianças e adolescentes de Fortaleza e Região Metropolitana, e o curso de dança do Centro Cultural do Bom Jardim, que, assim como o CTD, é financiado pela Secult-CE.
O artista ainda cita as graduações em dança da Universidade Federal do Ceará (bacharelado e licenciatura) como impulsionadoras de uma boa fase para artistas da dança cearense. No entanto, todas as formações citadas se concentram na Capital, trazendo empecilhos para alunos do interior.
Nos últimos anos, módulos que incluem temas e pesquisas artísticas ligadas à acessibilidade e ancestralidade foram incluídos no CTD, numa bem-vinda atualização do cronograma.
“Acredito que o próximo passo seria criar novos cursos básicos, técnicos e graduações nas outras regiões do Estado”, destaca o artista. É necessário, ainda, investir em programas de formação de plateia para a dança, algo ainda raro mesmo nos palcos de Fortaleza.
“Sinto que o Ceará tem uma carência muito grande de programas de formação de plateia para a dança e de programas que acolham os grupos e companhias de dança do estado. Não tem tanto mercado para a quantidade de profissionais que se formam, gerando muita insatisfação por parte da classe”, pontua Rubéns.
Desafio de garantir orçamento
A coordenadora do CTD, Bilica Léo, destaca que, ainda que se trate de uma política pública “exemplar e longeva”, o curso técnico ainda exige um olhar mais atento, especialmente no que diz respeito “à manutenção da qualidade do curso e a garantia orçamentária para que ele permaneça com a excelência de seu compromisso pedagógico”.
“É preciso abrir espaço para a compreensão da realidade de vida daquele aluno e quando possível dar o suporte necessário para que ele permaneça no curso e evitar a evasão. Acontece de alguns alunos desistirem do curso porque precisam trabalhar e não conseguem conciliar os horários de trabalho e das aulas”, lamenta a professora.
Para Bilica, parcerias com outras instâncias formativas, como os cursos da UFC e a Bienal Internacional de Dança do Ceará, são um meio de reduzir essas desigualdades e possibilitar aos estudantes o fortalecimento de suas trajetórias artísticas.
Atualmente, os alunos precisam dedicar pelo menos quatro horas por dia, de segunda a sexta-feira, à formação em dança. Assim como nas escolas e universidades, a carga horária é importante para garantir a qualidade do ensino, mas acaba dificultando a permanência de muitos alunos.
Já em 2005, no início do programa, essa realidade se impunha para Rubéns Lopes, que morava longe e precisava recorrer a amigos e familiares para continuar os estudos. “Muitas vezes precisei dormir na casa de uns amigos pelo bairro Benfica, para poder ir a pé para o IDM estudar no curso”, lembra.
A artista da dança e assistente social Karízia Silvestre, 28, se formou na oitava e mais recente turma do CTD e passou pela mesma dificuldade. Bailarina independente desde a infância e moradora do bairro Prefeito José Walter, ela entrou no curso com o sonho de se profissionalizar na área e destaca a “experiência rica e intensa” com “vínculos muito bonitos” que teve por lá, mas encontrou barreiras ao tentar conciliar trabalho e estudo.
“Conciliar o curso com o trabalho foi bem difícil, não só pra mim, mas também para muitos outros estudantes trabalhadores. O percurso diário até o curso também se fazia uma dificuldade, pois eram aproximadamente duas horas de deslocamento até chegar o Porto”, destaca a aluna. “Mas o curso em si nos dava o gás de querer continuar, pois tínhamos acesso a aulas e vivências que não seriam possíveis fora de lá”, completa.
Atualmente, Karízia sonha em unir os conhecimentos da dança e a atuação no Serviço Social em pesquisas e trabalhos interdisciplinares. O cenário para quem busca se dedicar à dança, para ela, é frutífero especialmente pelo talento de quem se dedica à arte no Estado.
“A dança no Ceará é muito potente e diversa. Para além dos grandes nomes já consolidados, que se tornam referências para nós que estamos em formação, também temos muitos nomes em ascensão. Muita gente jovem fazendo um corre massa e movimentando a dança em linguagens múltiplas”, aponta.
“O CTD contribui para esse cenário não só na cena de Fortal, mas no Ceará e fora dele, pois é uma formação que nos possibilita pensar criticamente a dança e entender que podemos ocupar diversos espaços com nosso corpo dançante”, conclui.