Rupturas e desejo de superação: a realidade de casais que romperam a união em meio ao isolamento

Na última reportagem da série “Amor na pandemia”, um panorama com histórias de casais que se desvincularam afetivamente durante a quarentena e os motivos que os levaram a fazer essa escolha

Legenda: O noivo de Elisa rompeu o relacionamento faltando 15 dias para o casamento civil alegando que a união, devido ao isolamento, havia "esfriado"
Foto: Shuttersctock

Aquele que poderia ter sido um dos dias mais especiais do ano e da vida de Elisa (nome fictício) não aconteceu. Faltando 15 dias para o casamento civil, o noivo decidiu romper o relacionamento com ela alegando medo e insegurança financeira. 

Outro motivo destacado por ele diz respeito exatamente ao turbulento período da pandemia de Covid-19: com o distanciamento social do casal provocado pela crise sanitária, o relacionamento de sete anos, na visão dele, teria “esfriado”.

O término foi bem triste e sofrido para os dois”, diz Elisa. “Não chegamos a morar juntos sob o mesmo teto. Nosso contato estava sendo por WhatsApp, videochamadas e redes sociais. Tivemos que nos isolar 15 dias antes do casamento porque o pai dele contraiu Covid”.

A partir da separação, ela conta que fez algumas descobertas. Entre elas, a de se perceber sozinha. “Notei também que muitas amizades giravam em torno do nosso relacionamento. Assim, no começo do rompimento, deletei as amizades que me vinculavam a ele para não me causar mais dor”, diz.

Neste momento, o processo de superação da ruptura tem se dado a partir do fortalecimento dos vínculos familiares, de onde Elisa obteve maior apoio para não esmorecer. Uma dinâmica bastante diferente das primeiras semanas após o término.

“Achava que seria impossível obter um novo relacionamento diante do contexto em que vivemos. Mas fui vendo que existem pessoas que estão passando a maior parte do tempo em casa e respeitando o isolamento social o máximo que podem... Essas pessoas conheci no tinder”, diz, mencionando um dos mais populares aplicativos de relacionamento da contemporaneidade.

“O tinder ajuda muito, sim. Inclusive, por meio dele encontrei alguém bem especial e já enxergo essa pessoa com potencial para um relacionamento sério”, completa. Por isso mesmo, Elisa acredita que a pandemia veio para trazer reflexões sobre a tessitura dos enlaces amorosos, principalmente no que diz respeito ao tempo de qualidade consigo e revisão do que cada pessoa envolvida deseja para ela própria.

“Essa época mostrou que nem todos estão dispostos a aguentar e superar um distanciamento social, mesmo que seja de curta duração. O amor precisa ser muito forte para suportar a distância”, observa.

“Eu desejo continuar sendo feliz sozinha, primeiramente; e, se tiver outra pessoa para suplementar essa felicidade ao meu lado, será ótimo! Espero poder suplementar a felicidade do outro também. Quero também viajar bem mais quando a pandemia passar. Se será com outra pessoa ao meu lado... Veremos!”.

A face dos rompimentos

O caso de Elisa não é isolado. Pelo contrário: os casos de divórcio e separação durante a pandemia do novo coronavírus não apenas pautam conversas informais entre amigos como também levantamentos estatísticos realizados por grandes empresas. 

De acordo com estudo do site de buscas Google, foi registrado em março, no Brasil, um aumento de 82% nas pesquisas com o termo “Como dar entrada no divórcio?”. Por sua vez, em abril, o número foi ainda mais vertiginoso: 9900% foi o aumento registrado de pesquisas pelo termo “Divórcio online gratuito” na plataforma.

Legenda: Muito tem-se falado que a pandemia trouxe a “hora da verdade” para os casais, o que pode culminar num processo de ruptura – seja de relacionamentos de longa ou curta data
Foto: Shutterstock

Nos Estados Unidos – nação onde o novo coronavírus teve um avanço de proporções ainda maiores, se comparado ao território nacional brasileiro – observou-se um comportamento equivalente ao dos cidadãos daqui: casais confinados têm buscado muito mais advogados para ingressar com pedidos de separação.

Não à toa, muito tem-se falado que a pandemia trouxe a “hora da verdade” para os casais, o que pode culminar num processo de ruptura – seja de relacionamentos de longa ou curta data.

“Até que ponto relacionamentos amorosos atomizados, calcados num regime de coabitação e monogamia, no compartilhamento de cobranças (ao passo que os elementos amorosos, eróticos, vão perdendo lugar) são viáveis? Antes mesmo da pandemia já se discutia o futuro dos namoros e casamentos na era dos aplicativos de relacionamento. E agora?”, questiona Martinho Tota, antropólogo, professor da Universidade Federal do Ceará e especialista em sexualidade e gênero.

“Vale a pena relacionar-se, abrir mão da individualidade, da privacidade para estar com um outro, para compartilhar, dividir, conviver com um outro? Não tenho uma resposta para isso”, complementa. Na visão dele, a dinâmica dos relacionamentos amorosos neste momento de pausa compulsória está explicitando, de maneira dramática, a profunda solidão que uma sociedade pautada por uma ideologia individualista colocou a todos. 

“Em um mundo baseado em relacionamentos cada vez mais superficiais e passageiros, a pandemia tende a expor uma enorme crise (para não dizer a falência) de um modelo de relacionamento conjugal/afetivo anacrônico nos dias atuais”, pontua. “Há que se considerar também o fator emocional/psíquico. Muitas pessoas estão sofrendo com ansiedade, depressão, insônia. Certamente estes fatores não contribuem para o estabelecimento de relacionamentos amorosos estáveis e saudáveis”.

Nessa conta, há também que se levar em conta os casos de violência doméstica, igualmente responsáveis pela procura de pedidos de divórcio durante a quarentena. Conforme dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH), em abril, quando o isolamento social imposto pela pandemia já durava mais de um mês, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas no canal 180 cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês do ano passado. 

Em março, com a quarentena iniciando a partir da última semana do mês, o número de denúncias tinha avançado quase 18% e, em fevereiro, 13,5%, na mesma base de comparação. Contudo, apesar do maior volume de denúncias, os casos de violência nos domicílios escapam das estatísticas dos órgãos de segurança pública, principalmente porque, isolada do convívio social, a vítima fica refém na presença do agressor, sem chances de fazer um boletim de ocorrência na delegacia.

Liquidez

À luz da Sociologia, é possível também integrar essa equação o conceito de “liquidez” nas relações proposto pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (125-2017) e reforçado na fala de Martinho Tota, antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará, especialista em sexualidade e gênero. 

Segundo o estudioso, Bauman nos diz que, no mundo atual, os indivíduos tendem a voltar-se para si mesmos. Isso acaba se traduzindo numa outra maneira de se colocar na realidade, modo este caracterizado por uma grande impessoalidade e um ensimesmamento das pessoas.

“Lamentavelmente, se, no início da pandemia, muitas pessoas esperançosas acreditaram que estaríamos iniciando um novo momento histórico marcado por solidariedade, afeto e empatia, esta crença se mostrou ilusória em muito pouco tempo. Ou seja, tendo a concordar com a tese de Bauman, inclusive com o seu pessimismo no que diz respeito aos relacionamentos amorosos. Para Bauman, os nossos selves reais não se acomodam em nenhuma interação com o outro”, destaca.

“Na verdade, devo confessar o meu mais profundo ceticismo (para não dizer pessimismo) quanto ao futuro da humanidade e, por conseguinte, quanto às formas de relacionar-se e conviver com o outro. Não podemos esquecer que a pandemia é apenas uma das inúmeras consequências nefastas da forma como a humanidade tem se relacionado com o mundo, com a natureza. Assim, não creio que grandes mudanças positivas ocorreram no mundo pós-pandemia, mas espero estar completamente enganado, para o bem de todos nós”, reforça.

Legenda: Gilberto situa que não houve decisão mútua para a separação e detalha que o namorado já estava agindo estranho há algum tempo
Foto: Shutterstock

Reorganizar o viver

Gilberto (nome fictício) igualmente está na torcida para que melhores energias e trajetórias possam atravessar seu viver daqui para a frente, após o rompimento, durante a quarentena, de um relacionamento iniciado em junho do ano passado. Ele conta que não houve decisão mútua para a separação e detalha que o namorado já estava agindo estranho há algum tempo. 

“Eu sempre me questionava o que eu estava fazendo de errado, se era comigo. Perguntava para ele, sempre, se estava tudo bem. Ele alegava que sim, nada mudava, e eu insistindo. Até o dia em que ele disse que realmente não estava bem, mas que estava tentando ficar, porém achava melhor que acabássemos. O motivo, para mim então, foi falta de sentimento recíproco”, diz.

Gilberto situa que o acontecimento o deixou mal, porém tentou respeitar o espaço do ex-parceiro, tentando até mesmo reatar a união em alguns momentos. Sem sucesso. “Depois, percebi que realmente não era recíproco. Ele ficou mal por me deixar mal, tinha uma responsabilidade emocional forte comigo no primeiro momento. Depois de pouco tempo, isso mudou, ele já tinha superado e eu não, então ele seguiu a vida e eu ainda tento superar”.

Por não manterem convivência sob o mesmo teto na pandemia, ambos faziam de tudo para se ver. Contudo, o que, no início, foi um processo tranquilo, depois, de acordo com Gilberto, ganhou outros ares. “Ele foi deixando de fazer questão de que nos víssemos, nem uma visita ou conversa parecia ser suficiente para mudar o jeito que agia. Talvez estivesse decidido [a se separar], só não tinha coragem de me contar”, especula.

Agora, percebe que o rompimento lhe trouxe a oportunidade de se enxergar. Notou que consegue suportar o sentimento da saudade e o distanciamento, mesmo amando tanto uma pessoa. “Percebi também que não era possível fazer de tudo para sustentar um relacionamento e que a distância pode, sim, atrapalhar, pois conversa cara a cara talvez mude as coisas”.

Assim, o maior desafio ainda tem sido se reconhecer no posto de solteiro novamente, apesar do breve tempo de relacionamento com o ex-namorado – um período descrito por ele como “bom e intenso”. Voltar ao que era antes é complicado principalmente devido ao costume de ter outra pessoa caminhando junto. Gilberto afirma que reorganizar planos e pensamentos está demandando um tempo o qual não esperava, por isso tem sido uma tarefa difícil.

“Ainda sinto falta sim, porém não consegui ingressar com outra pessoa. Não usei aplicativos, acho que tem que acontecer naturalmente, sem procura. Nada contra quem usa!”, ressalta. “Se houve algo que, para mim, ficou muito forte diante dessa situação é que tudo é muito passageiro e que precisamos normalizar os fins dos ciclos. Tem coisas que precisam acontecer para que mais possam vir. Novos ciclos abrem portas. Eu posso não entender isso 100%  agora, mas procuro colocar na cabeça”.

Quanto ao que aspira para quando toda essa época pandêmica passar, Gilberto é categórico: “Eu espero ter superado completamente e conseguido me conhecer melhor. Espero conseguir preparar o meu coração para a próxima pessoa, estar preparado e maduro para colocar meu sonho de ter uma família em prática e, claro, achar alguém que esteja disposto a tudo isso, tão maduro quanto eu”, conclui

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