Começar a morar junto, reatar namoro, planos de casar: as movimentações amorosas durante a pandemia

Na terceira reportagem da série “Amor na pandemia”, três casais cearenses partilham de que maneira a relação se desenvolve a partir da decisão de reatar o namoro ou dividir o mesmo lar num contexto de exceção

Legenda: Feito outros casais, os administradores cearenses Lucas M. e Raphael O. perceberam que não seria possível ficar distantes durante o isolamento e, por isso, resolveram dividir o mesmo teto nesse período
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“Não é aquele bicho de sete cabeças”, confessa o administrador cearense Lucas M., 33, sobre o fato de passar a dividir o mesmo teto, durante a pandemia de Covid-19, com o também administrador Raphael O., 31. “Descobri que eu consigo, sim, morar com alguém, casar, ter vida a dois. Antes eu tinha na minha cabeça que nunca iria conseguir ter uma convivência de casal com alguém pelas minhas manias, meu jeito. Agora, não”, completa.

Os dois optaram pela decisão de compartilhar o lar ainda na segunda quinzena de março, quando o período de restrições começou a dar o tom no cotidiano de Fortaleza. À época, perceberam que não seria possível ficar distantes ou se arriscando para se ver. “Então, resolvemos nos isolar na casa dele, que já morava só”, conta Lucas.

Sete meses depois, a convivência continua, e o administrador percebe que, de lá para cá, muita coisa mudou entre os dois.

“Ficamos mais unidos, a relação ficou mais forte; nesse tempo juntos, conhecemos mais um ao outro. De fato, a união ficou mais sólida”, declara. Ao mesmo tempo, não foi satisfatório ficar longe da família, tendo em vista que Lucas é muito apegado aos parentes. 

Ainda assim, no caso do casal, o saldo dessa mudança considerável de aproximação foi positivo. “Percebi que a convivência é de extrema importância para os dois se conhecerem, que namoro é algo bem diferente de morar juntos, casamento. Conviver com alguém diferente de você, com manias, jeitos, comportamentos e pensamentos distintos, faz com que você aprenda a respeitar o próximo na sua individualidade, na forma de agir e pensar. Te dá uma certa evolução como ser humano”.

Quanto aos planos para quando a pandemia passar, está tudo bastante claro: oficializar  o ato de morar juntos com o casamento. “Acho que já passamos por isso na prática, o casamento é apenas a parte técnica da coisa”, diz.

Legenda: Quando a pandemia passar, o plano de Lucas M. e Raphael O. é oficializar o ato de morar juntos com o casamento
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Novos horizontes

Professor Doutor do Departamento de Psicologia da UFC e pós-graduado em Filosofia pela mesma instituição, José Olinda Braga avalia que o contato direto com as complexidades que o intrincado cotidiano trouxe otimizou a chance de nos reposicionarmos diante da vida.

“Assim, a partir desse horizonte, fazermos novas escolhas ou repactuações das decisões passadas que careciam de nutrição. A forçosa ou até natural reabertura de canais de comunicação dos casais, o olhar para o cotidiano, o revalorizar a vida, todos esses aspectos representaram possibilidades de fortalecimento ou enfraquecimento das relações amorosas”, situa.

Ele também comenta que, em qualquer momento da existência, os relacionamentos humanos, sobretudo os amorosos, são pautados pela subjetividade dos envolvidos e pelas circunstâncias externas que lhe dão suporte. 

“Relacionamentos amorosos ganham novos formatos e novas reestruturações com ou sem pandemias. É fato que aspectos impactantes do cotidiano podem precipitar ou apressar esses novos arranjos. A quarentena apenas nos trouxe a possibilidade de percebermos com maiores detalhes e clareza o que tem se passado na rotina de nossas vidas pela forçosa decisão de recolhimento imposta pelas ameaças da pandemia”, complementa.

Aprendizado conjunto

A engenheira agrônoma Marina Freire Porto, 26, e o instrutor de Jiu-Jitsu Anderson Brandão Pereira, 30, igualmente precisaram se reestruturar para atravessar os meandros da crise pandêmica. No caso deles, Anderson precisou se mudar para a casa de Marina devido ao fato de, na família dele, a convivência ser dividida com idosos.

A partir da gradual retomada das atividades presenciais em Fortaleza, no entanto, os dois voltaram à realidade que não permitia mais essa residência conjunta. Marina elenca o que foi mais desafiador nesse processo de união no mesmo lar – experiência que os dois nunca haviam vivenciado antes. “As complicações foram mais relacionadas a todo o estado de estresse coletivo, com as incertezas da pandemia”, sublinha.

Legenda: Marina Freire Porto e Anderson Brandão Pereira aproveitaram o momento de convivência ininterrupta para desenvolverem mais atividades em conjunto, a exemplo da prática de esportes
Foto: Arquivo pessoal

Sob outro espectro, foi um momento para ambos desenvolverem mais atividades em conjunto. “Mas foi um pouco cansativo também, a gente não pode negar. Deixamos de ver todos os amigos, de fazer os esportes de grupo que gostamos... Porém, a partir daí, resolvemos começar a treinar em família e foi muito bom, pro corpo e pra mente. Então, no momento, mudou tudo e não mudou nada, entende? Sem dúvidas, foi possível enxergar um outro eu e um outro ele, consequência do maior tempo juntos”.

A engenheira destaca ainda que houve um grande acúmulo de tarefas domésticas e de trabalho remunerado, fatores que não tornaram fácil a rotina. Junto a isso, o sentimento de medo em relação ao risco de contaminação e notícias sobre familiares adoecidos com o vírus geraram bastante desconforto. 

“Por isso que, para mim, a principal reflexão que fica desse momento é: somos todos feitos de luz e sombras, e elas são o equilíbrio do que somos. Acho que as pessoas ficaram ainda mais carentes nesse período, com o isolamento social, mas, após tudo isso, as formas de conexão vão ser ainda mais pelas redes e de maneira menos pessoal ainda, o que não ajuda em nada com a carência”, percebe Marina.

Legenda: Maior interação entre Marina e Anderson na mesma casa também envolveu toda a família dela em atividades
Foto: Arquivo pessoal

Reaproximação

Tal perspectiva vai na contramão do que ocorreu com Aila Rodrigues, 20, e Luiz Paulo Mesquita, 19: ambos diluíram as fronteiras físicas e instauraram algo novo em suas vidas, primando pela intensificação da experiência pessoal quando num relacionamento.

Cearenses, a consultora de vendas e o estudante reataram o namoro durante a pandemia. A reaproximação já vinha acontecendo desde o Natal do ano passado, por meio de uma amiga em comum; porém, a partir da crise sanitária, os dois se conectaram ainda mais.

“Ele também é muito querido por minha família, o que contribuiu para isso”, diz Aila. “Então, com o isolamento, tomamos a decisão de namorar novamente porque sabíamos que ainda havia um sentimento bom entre ambos e, com nosso amadurecimento, tudo mudou”, completa. 

Legenda: Aila Rodrigues e Luiz Paulo Mesquita reataram o namoro durante a pandemia
Foto: Arquivo pessoal

A rotina é baseada em encontros aos fins de semana, período em que o casal se dirige a alguma praia ou fica na área de lazer no condomínio onde residem, na Capital. Quando não estão juntos presencialmemte, geralmente se comunicam por meio de aplicativos ao longo do dia, com mais frequência à noite.

“Pude aprender a viver o presente, sem pensar e agir no futuro, com medo que não desse certo novamente. Tudo está melhor nesse retorno, pois a decisão de nos separarmos a primeira vez foi por nossa falta de maturidade. Com amadurecimento, pensamos em construir um futuro juntos, estamos montando um negócio on-line e, futuramente, um físico”, adianta. “O que se torna um pouco desagradável nesse período atual é o fato de não podermos nos encontrar com nosso amigos, não podermos curtir muito juntos”.

O turbulento momento pandêmico, portanto, otimizou a valorização e o respeito ao espaço e às necessidades, tanto de Aila quanto de Luiz Paulo. Ainda que levando uma vida em conjunto, ambos compreenderam que precisam de instantes de conexão consigo.

Legenda: Turbulento momento pandêmico otimizou a valorização e o respeito ao espaço e às necessidades, tanto de Aila quanto de Luiz Paulo
Foto: Arquivo pessoal

“Ele até diz que a maior mudança que notou em mim nesse período foi meu jeito com ele. Passei a ser mais carinhosa, tanto em ciclos de amizades, como no relacionamento. Madura e com melhores decisões”, conclui Aila.

 

> Nesta sexta-feira (16), confira a quarta reportagem da série "Amor na pandemia", sobre o cotidiano de casais que tiveram que manter o relacionamento fisicamente distantes por conta do período de isolamento, intensificando o contato via redes sociais.

 

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