Casais iniciam namoro na pandemia e detalham rotina de descobertas e desafios

Segunda reportagem da série “Amor na pandemia” evidencia necessidade de contato físico e consequente otimização do uso de plataformas digitais por cearenses que se conheceram durante o período pandêmico e desenvolveram um novo relacionamento

Legenda: Raffael Rodrigues e Sasha Horannah se conheceram no período de isolamento social, atravessando esse momento a partir de uma relação de união e proximidade
Foto: Arquivo pessoal

Foi por meio das redes sociais que Sasha Horannah, 25, e Raffael Rodrigues, 24, se conheceram. Era agosto deste ano. À época, um dos boletins epidemiológicos semanais da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) anunciava que, pelo menos em cinco dias daquele mês, Fortaleza não havia registrado mortes em decorrência da Covid-19.

Nesse movimento, alguns municípios do interior cearense também avançavam de fase no Plano de Retomada Econômica, e a Capital, juntamente com cidades da Macrorregião, seguia na Fase 4, com grande parte do comércio e outras atividades liberadas, cumprindo todos os protocolos de funcionamento.

Portanto, há uma sintonia entre a situação do entorno e a relação travada entre Sasha e Raffael: em ambos os casos, percebe-se a exploração de novos horizontes a partir desse contexto específico de gradual reabertura

A artista e o funcionário de um restaurante iniciaram um relacionamento amoroso exatamente nesse período pandêmico, trilhando, a partir dali, estradas ladrilhadas pela união e partilha conjunta – muito embora enfrentando inúmeros desafios em face do (ainda) nebuloso panorama de crise sanitária.

“É bem complicado manter um relacionamento durante a pandemia. Não é fácil porque a gente não pode se ver todos os dias”, lamenta o casal. “Assim, estamos mantendo contato via vídeo, por meios de aplicativos, e pouco nos vemos presencialmente, cerca de duas vezes ao mês”.

Segundo eles, enveredar pelo autoconhecimento nessa época de limitações tem sido a melhor saída para vivenciar bem o enlace a dois gestado num tempo de exceção. Além disso, conhecer uma pessoa que compartilha da mesma luta  – Raffael é um homem trans e Sasha é uma mulher trans – tem sido algo bastante positivo.

“Mas realmente a distância física é ruim nesse processo”, reafirmam. Não à toa, o desejo do casal para quando tudo isso passar já é certo: dividir todos os dias juntos, aproveitando ao máximo a companhia um do outro.

“Mesmo com o distanciamento e problemas por conta da pandemia, as pessoas que se gostam acharam uma maneira de amadurecer e de se amar. Trouxe uma conexão maior para os casais, pois, para continuarmos juntos, precisamos de mais compreensão do outro. Isso fortalece a relação amorosa”, percebem.

Necessidades

Mariana Oliveira, sexóloga e terapeuta de casais, reforça o consenso científico de que o enfrentamento da pandemia de Covid-19 demanda isolamento e distanciamento social. O problema é que são exatamente nos momentos mais difíceis da vida que sentimos maior necessidade de contato, intimidade e interações afetivas, para nos dar suporte e ajudar a atravessar as adversidades. 

“Afetivamente, parece um contrassenso ficar ‘sozinho’ exatamente no meio de uma crise de tal dimensão. Entretanto, ao mesmo tempo, é preciso ser racional e entender que o distanciamento ainda é necessário para o controle do vírus”, situa a estudiosa. 

Com um trabalho voltado principalmente para ajudar mulheres a viverem relações mais saudáveis e prazerosas, ela também comenta que, para quem estava solteira, o momento de pausa compulsória pode ter significado maior solidão e restrições nas possibilidades de encontrar novos parceiros. 

Por sua vez, para quem já estava ou iniciou um relacionamento, feito Sasha e Raffael, o contexto pode ter gerado maior proximidade e intimidade, como também distanciamento e conflitos amorosos e sexuais – neste caso, devido ao maior número de fatores estressores e menor liberdade no cotidiano. “Acredito que a pandemia despertou em muitas pessoas a percepção do quanto é urgente cuidar da sua saúde mental, o que inclui a terapia sexual e terapia de casal”, assinala.

Legenda: Parte da conversa mantida entre Bárbara George e Jefferson Farias durante o isolamento: em tempos de exceção, a aproximação amorosa se deu por meio da tecnologia
Foto: Arquivo pessoal

Processo de conhecimento

Outro caso de aproximação amorosa durante o período pandêmico é aquele vivenciado por Bárbara George, 26, e Jefferson Farias, 37. A publicitária e o músico se conheciam desde outubro do ano passado. Estavam “ficando”, porém sem objetivos formais de namoro. Uma viagem que fizeram para a praia da Taíba no começo do ano representou um marco na aproximação de ambos.

“Ali, começamos a perceber com mais nitidez o quanto nossas ideias de vida, valores e prioridades se encaixavam e faziam sentido para nós”, conta Bárbara.

Assim, a vontade de se falar mais e estar perto foi aumentando e os dois seguiram respeitando o tempo de cada um. Logo que começou o período de quarentena, contudo, os encontros presenciais foram substituídos por uma maior adesão às conversas via WhatsApp – regadas, segundo Bárbara, a muitos áudios, mensagens, stickers e fotos.

“Trocávamos mensagens o dia inteiro e ele disse que, inclusive, aprendeu a ser multiplataforma comigo, porque tínhamos conversas paralelas no Whatsapp e no Instagram. Assistimos a muitas séries e filmes à distância. Adorávamos comentar em tempo real e ainda ficávamos a madrugada inteira (até amanhecendo o dia, muitas vezes) conversando sobre e sem notar a hora passar”, detalha a publicitária.

O namoro, portanto, foi consequência natural dessas trocas e aprofundamentos. Contudo, como manter uma relação num contexto que exige distâncias físicas? “Tem seus desafios. Passamos um bom tempo nos falando só pelo celular e, agora, já faz alguns meses que nos vemos com regularidade. Esse tempo que passamos trocando muitas mensagens sem nos encontrarmos pessoalmente foi muito proveitoso para aumentar ainda mais a nossa conexão. Então, nas poucas vezes que nos víamos, a sensação era de que nos conhecíamos há mais tempo. Acredito que conseguimos conciliar bem a vontade de estar junto, o contato físico, e o desejo de conhecer mais do outro”, situa Bárbara.

Ela também observa que um relacionamento amoroso desenvolvido em tempos de pandemia ganha novos ares por dar mais tempo ao casal para a troca. Tudo ficou mais intenso. A profundidade dos afetos vai se estabelecendo em menos tempo que o convencional. Ficou, assim, mais fácil para o casal, nesse processo, notar se o relacionamento flui bem, se as pessoas envolvidas têm modos parecidos de lidar com os problemas, jeitos que se encaixam. 

Legenda: Na visão de Bárbara, ter Jefferson para dividir as difíceis questões do momento de pandemia subverteu a situação negativa em algo positivo para o casal
Foto: Arquivo pessoal

A dificuldade durante esse percurso se dá pela ansiedade do período e todas as questões pessoais enfrentadas. O medo e a angústia do momento que vivemos atravessando o bem-estar da relação. Mas ter alguém para dividir essas questões subverte uma situação negativa em algo positivo para o casal”, complementa.

Na esteira do relato de Bárbara e Jefferson, Martinho Tota – antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), especialista em sexualidade e gênero – elenca o que deseja que este período atípico deixe como lição aos casais. 

“Gostaria que a pandemia nos ensinasse a valorar e valorizar os relacionamentos humanos de uma maneira geral, e os relacionamentos conjugais/afetivos, em particular, de outro modo; de uma forma mais empática, solidária, generosa, respeitosa. Mas isso é um desejo meu, não uma previsão”, torce.

 

> Nesta quinta-feira (15), confira a terceira reportagem da série "Amor na pandemia", na qual três casais cearenses partilham de que maneira a relação se desenvolve a partir da decisão de reatar o namoro ou dividir o mesmo teto num contexto de exceção.

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