“Amor na pandemia”: série de matérias situa dinâmica dos relacionamentos amorosos durante isolamento

Dos solteiros aos casados, passando por aqueles que se separaram ou reataram o enlace afetivo, um panorama de como as relações amorosas estão se desenvolvendo em um período atípico de reclusão e novas vivências

Legenda: Série de reportagens “Amor na pandemia” será compartilhada desta terça-feira (13) até domingo (18), no portal do Diário do Nordeste, e abordará diversos assuntos que cercam as relações humanas em meio ao isolamento social
Foto: Foto: Shutterstock

Daqui a alguns anos, quando as gerações que estão por vir tiverem conhecimento suficiente para ler e interpretar o mundo, elas compreenderão um conjunto de questões acerca do momento atípico que estamos atravessando a partir da pandemia do novo coronavírus. Saberão dos desafios da Medicina, dos entraves na área econômica, no boom de resistência e criatividade culturais. Ficarão por dentro das mazelas, deficiências que uma crise sanitária traz e expõe, ao mesmo tempo que constatarão o quanto muito pode ser feito, com solidariedade e entrega, a fim de contornar o caos.

Em igual medida, analisarão o comportamento humano a partir dos efeitos que um isolamento social compulsório gera na dinâmica pessoal e interpessoal. Nesse sentido, os relacionamentos amorosos são um grande chamariz para observarmos essa trajetória de afetos múltiplos. Compatibilizados entre quatro paredes, mediados por telas ou enfrentando a dor da saudade ou da ruptura, a maneira como essas tessituras sentimentais acontecem vão desenhando cartografias, modos de vivenciar histórias e experiências, gravando-as no registro histórico do presente atual.

Antropólogo, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em sexualidade e gênero, Martinho Tota afirma que, levando em consideração o fato de a pandemia ser um acontecimento inédito na vida da maioria das pessoas – cujas consequências futuras poderão ser melhor observadas conforme a passagem do tempo – deve-se ter em mente uma série de aspectos ou valores constitutivos das sociedades urbanas modernas para bem observar esse panorama. Desta feita, à luz da Sociologia, pode-se apreender as nuanças deste período no que toca às relações amorosas. 

“Como exemplos desses aspectos e valores, temos o individualismo, a preeminência do self sobre a coletividade, o psicologismo, as transformações nos modelos historicamente vigentes de sociabilidade, e a ênfase na intimidade, autonomia e independência dos sujeitos”, enumera. “O aparecimento da internet e das redes sociais apenas fez com que estes valores e estas transformações atingissem um grau máximo em sua vigência”.

Segundo ele, uma das muitas questões que se impõem no cotidiano pandêmico é: como conviver com o outro, coabitando um mundo na companhia de outras pessoas? “Desde o início da pandemia, tem sido corriqueiras matérias jornalísticas noticiando o aumento no número de casos de violência doméstica e de brigas entre vizinhos. Assim, como conciliar a autonomia do indivíduo, sua liberdade e, ao mesmo tempo, termos de lidar com as exigências éticas que a vida em sociedade impõe, como o respeito ao outro, seu espaço e tempo?”, provoca.

Relatos e reflexões

É a partir desse alicerce de pensamentos que a série de reportagens “Amor na pandemia” foi idealizada pelo caderno Verso e, desta terça-feira (13) até domingo (18), poderá ser conferida no portal do Diário do Nordeste. Em foco, o interesse em trazer a público relatos de diferentes perfis de relacionamentos amorosos vivenciados durante a pandemia de Covid-19 no Ceará. A intenção é dimensionar de que modo eles estão acontecendo em meio a tantas e necessárias limitações, a fim de conter a propagação do vírus.

Dos solteiros aos casados, passando por aqueles que se separaram ou reataram o enlace afetivo – além dos que, mesmo à distância, permaneceram juntos dividindo aspectos da rotina – aqui poderá ser conferido um painel de histórias que mensurará como essas relações estão se desenvolvendo em um momento singular de reclusão e novas vivências.

Junto às narrativas, serão entremeadas opiniões e abordagens de distintos profissionais, ligados a áreas como Psicologia, Sociologia, Literatura e Ciências Sociais. O objetivo é fazer com que ganhem fôlego opiniões, dados e pesquisas fundamentados em estudos e projetos realizados durante esta época – fomentadora de amplos horizontes de análise em uma diversidade de campos.

Subjetividades

Um exemplo é a visão do Professor Doutor José Olinda Braga, do Departamento de Psicologia da UFC e pós-graduado em Filosofia pela mesma instituição. Ele situa que, dentre as características ontológicas do ser humano, naquilo que há de mais essencial em seus modos típicos de existência, uma delas – de fundamental importância – é a de sermos gregários. Isso significa que tendemos a viver em agrupamentos muito mais do que isolados e restritos a um mesmo ambiente. 

Durante a pandemia, contudo, fomos obrigados a subverter essa lógica, tendo que nos manter em redomas para enfrentamento do ameaçador vírus, o que provavelmente trouxe, em diferentes medidas e intensidades, repercussões das mais variadas. 

“Como exemplo, houve os que se deram conta da importância de ter alguém ao lado, outros puderam avaliar melhor como se comportam seus afetos em situações de restrições sociais, tantos outros foram lançados ao desespero da solidão; enfim, cada um de nós que passou por tais condições impostas vivenciou a partir de suas subjetividades, sentimentos e percepções, novas visões de mundo as mais variadas e de impossível previsão”, afirma.

Ou seja, nada passou incólume. Uma vez deparados com essa nova realidade, os relacionamentos amorosos também passaram por reveses, reavaliações, provações, ameaças e re-significações, todas decorrentes do presente estilo comportamental imposto.

“Nenhuma receita prévia seria possível, a não ser o fato de que cabe a cada um tomar para si a responsabilidade pelo terceiro, que não é um nem outro, mas a relação amorosa que se gesta, se nutre, se cuida”, complementa o estudioso. Verifiquemos, então, as diversas formas como isso se dá.

Você tem interesse em receber mais conteúdo de entretenimento?