Distantes por segurança: casais relatam como mantiveram relacionamento durante pico da Covid-19

Quarta reportagem da série “Amor na pandemia” aborda que sentimentos e aprendizados pautaram a realidade dos pares no auge da crise pandêmica no Ceará

Legenda: No momento mais turbulento da pandemia do novo coronavírus no Ceará, casais ressignificaram relacionamentos por meio da tecnologia
Foto: Shutterstock

A tela do celular acende. Pouco importa se é cedo da manhã, meio do dia ou já no apagar da noite. Do outro lado, o rosto da pessoa querida aparece. E, de repente, mediante o sorriso que a acompanha, olhos brilhando ocupando o ecrã, o caos lá fora parece que se ameniza. É redentor estar ali, partilhando o viver – as alegrias, dores e descobertas de se estar vivo. Bom seria se estivessem próximos fisicamente. Mas quem disse que conviver pode ser apenas de modo presencial?

Foi assim que o pico da pandemia do novo coronavírus no Ceará alterou o cotidiano de Matheus Freire, 21, e Aíslan Pontes, 20. O isolamento compulsório, ao mesmo tempo que trouxe dor e saudade, alargou as possibilidades de contato entre os dois. 

Há um ano e três meses juntos, dividindo olhares e diálogos presenciais todos os dias, os estudantes cearenses tiveram que vencer a dor da ruptura física para garantir a saúde neste turbulento período. Foram quatro meses sem sentir a pele um do outro.

“Agora, devido à reabertura das atividades, retomamos o contato físico, mas cheios de medo, tomando todos os cuidados”, situa Matheus. “Porém, ainda é muito difícil a falta do outro no cotidiano, da convivência. As mudanças foram inúmeras”.

A principal delas, em face do maior uso das redes sociais para manter a comunicação, tem aspecto positivo: ambos notaram um melhor desenvolvimento da relação a partir de uma dimensão ampliada da importância do que cultivaram juntos. “Amadurecemos demais e observamos melhor o que estava faltando na relação, ou falhas”.

Essa singular inclinação para notar o parceiro se deu de várias formas, articulada por entre tantas plataformas digitais. Até a ferramenta Google Meet – geralmente utilizada para aulas ou reuniões profissionais – o casal usou para partilhar os momentos de estudo.

Legenda: Após quatro meses sem a presença física um do outro, Aíslan e Matheus se reencontraram com todos os cuidados
Foto: Arquivo pessoal

“Falamos sobre nosso dia, atividades, de como estamos. E também dos nossos sonhos e projetos. Acredito que pensar sobre o futuro nesse meio pandêmico deixa a gente até com um pouco mais de esperança”, confessa Matheus. 

“Acho que fizemos várias descobertas sobre nossa espiritualidade, amadurecemos sobre questões individuais. Dedicamos um tempo mais particular para a nossa singularidade além da relação, ao nosso corpo e mente. E até questões sociais. Conversamos muito sobre amor próprio e nossas inseguranças. Acredito que nossas particularidades dentro do relacionamento são mais vistas pra nós porque teve espaço pra conversa”, completa.

Caminhando, assim, entre fragilidades e medos, prospecções e ternuras – além de algumas conquistas pessoais durante esse período, no âmbito acadêmico e profissional – Matheus e Aíslan percebem que o apoio da pessoa amada durante essa tão complicada época, ainda que mediado por telas, é salvação.

“Lembro claramente que, antes da pandemia, a gente comentava se ia aguentar um relacionamento à distância, e sempre dizíamos que não, porque éramos muito dependentes e apegados. Então, chegou o momento, a gente foi posto à prova, e continuamos com muito apego. A presença física, sem dúvidas, é muito importante, mas a gente ressignificou muitas coisas, e o simples nos leva adiante. Entre outras coisas, isso serviu pra gente lembrar do quanto somos capazes e às vezes esquecemos de que, além de namorados, somos amigos”, conclui o estudante.

Legenda: As dificuldades de manter o relacionamento à distância durante a pandemia se transformaram em novos modos de Matheus e Aíslan otimizarem a parceria
Foto: Arquivo pessoal

Amores e lonjuras

Foi exatamente percebendo as diferentes nuanças de relacionamentos mantidos à distância devido à pausa compulsória que a escritora cearense Vitória Andrade idealizou a antologia “O amor nos tempos de lonjura”. A obra, gestada e lançada nesta quarentena, está disponível para download gratuito no site do projeto Mirada Janela Cultural.

Após ler o clássico do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), “O amor nos tempos do cólera”, a autora alimentou o ímpeto de reunir mulheres para falar sobre o sentimento do mundo nestes tempos em que estamos distantes, por meio do tato, das pessoas que amamos.

“Estamos distantes, mas o amor ainda pulsa. Com isso, levamos a necessidade de estarmos todes juntes para a escrita. Esta obra reflete as diferentes sensações de corações que amam e que sentem”, explica Vitória.

O clamor está bastante presente nos textos. Afinal, escrever sobre amor e lonjura pode ser doloroso, mas reprimir o sentimento torna-se uma prisão difícil de lidar. Assim, é possível perceber, a partir da leitura completa do livro, que até os pequenos detalhes da rotina nostálgica passaram a ficar mais evidentes. As escritoras foram firmes ao externar prazeres, sedes e desejos. 

“Nós estamos muito apegados à ideia de estarmos sempre perto do outro para se ter amor. O apego pode ser tão nocivo quanto o pensar da urgência ou relacionamento ideal. Sentir amor pela própria companhia é algo primordial para cada ser humano. Há como sentir prazer com o próprio corpo e há como satisfazer-se com isso.  A antologia dialoga com diferentes mulheres e com diferentes formas de pensar e amar. Essa é a parte bonita: tentar enxergar a falta sob diferentes perspectivas”, situa.

No posto de uma das organizadoras da coletânea – Vitória dividiu o ofício com a também literata cearense Naiana Íris – a escritora também comenta de que forma enxerga a necessidade de externar, por meio da literatura, as saudades amorosas que o confinamento impôs.

Legenda: Capa da antologia idealizada por Vitória Andrade durante a pandemia: mulheres narram enlaces amorosos vivenciados à distância
Foto: Divulgação

“Certa vez, o poeta Manoel de Barros disse que ‘A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse os nossos mais fundos desejos’. Eu sinto que a literatura visita nosso âmago e conversa com as nossas entrelinhas. Ela nos abraça em qualquer universo e faz palpitar a sensibilidade que habita em todos nós. Dessa forma, penso que escrever sobre saudade é despertar o anseio cravado no corpo e transformá-lo em algo que deságua”.

Por sua vez, quando questionada a respeito do que a pandemia deixa como principal reflexão a respeito dos relacionamentos amorosos, Vitória afirma que depende de cada experiência e do modo de olhar para si e o outro.

“Diante do isolamento social, tivemos que nos distanciar, fisicamente, de pessoas queridas. Entender as particularidades de outrem é imprescindível para manter um relacionamento saudável, e entender que o outro possui um espaço e que você precisa respeitá-lo também. Talvez as pessoas reflitam sobre o amor como algo pode ser potente, mas que também pode ser leve”, considera.

Jogar luz

Pelo fato de conviverem com familiares inseridos no grupo de risco da Covid-19, o casal Jorge e Amanda (nomes fictícios) igualmente decidiu romper o contato físico e manter o namoro de seis anos à distância. Separados por entre as tantas geografias cearenses – Jorge trabalha fora da Capital, enquanto Amanda continua nela – ambos conversaram por meio de telefone e plataformas digitais diariamente no momento de maior pico da doença no Estado.

Legenda: Ilustração presente na obra "O amor nos tempos de lonjura": necessidade de contato
Foto: Ilustração de Lara Tavares

Trocando vivências sobre a vida e a rotina de modo mais intenso, até o desejo de construir uma família se intensificou. “Não tive descobertas, apenas coloquei luz em algumas ideias que já tinha, em medos que me paralisavam... Então, foi e tem sido um período, apesar dos pesares, de reconexão, de comunhão com sonhos e desafios que já tinha em mente. Está sendo bom o convívio familiar pelo maior tempo disponível, como também o maior tempo para me dedicar à leitura, a assistir a filmes e séries”, comenta Amanda.

Ao mesmo tempo, ela elenca a necessidade de reclusão neste momento, embora necessária, como causa da ruptura da rotina de antigamente, impactando na troca de afetos entre amigos, perspectiva de viagens etc. “Mas o que permaneceu, e até acentuou, foi o nosso amor, traduzido pelo esforço de nos mantermos afastados como forma de cuidado”, sublinha.

“Passei a notar mais o meu sentimento, não necessariamente o outro. A importância do apoio emocional é fundamental, pois, sem ele, seria tudo cinza e cansativo. Então, para mim, a pandemia ensinou que devemos dar valor uns aos outros, independentemente da situação que se enfrente”, complementa.

Amanda também acredita que as formas de se relacionar amorosamente no futuro vão mudar, dependendo, contudo, de quem levou o período de isolamento a sério, aproveitando o momento para realizar um autoconhecimento. “Do contrário, creio que, para algumas pessoas, a forma de se relacionar seja a mesma porque internamente não mudaram”, considera.

Relacionar-se na era digital

Publicado pela Editora dos Editores e organizado por Adriana Nunan e Maria Amélia Penido, o livro “Relacionamentos Amorosos na Era Digital” aprofunda essas questões abordadas pelos casais no meio de toda a intrincada crise pandêmica.

A obra acaba de ganhar uma versão digital e traz, entre outros conteúdos, dicas para encontrar um parceiro ou parceira no ambiente virtual de modo seguro e interessante para ambos. 

Além disso, um dos pontos que merecem destaque na publicação diz respeito à presença obsessiva nos aplicativos, fato que tem gerado uma exaustão nas pessoas. O fenômeno, conhecido como “dating burnout”, já é uma realidade para muitos.

Legenda: Capa do livro "Relacionamentos amorosos na era digital": olhar científico sobre o amor neste momento
Foto: Divulgação

Para se ter uma ideia, dados de uma pesquisa realizada com brasileiros usuários do app happn em agosto deste ano demonstram que 81,4% passam mais tempo curtindo os outros perfis do que conversando com as pessoas preteridas. E 78,4% afirmaram que usam vários aplicativos de paquera ao mesmo tempo.

“Os relacionamentos à distância funcionam desde que o contato seja frequente (de preferência diário) e que as pessoas façam planos concretos de se encontrarem em algum momento”, comenta Adriana Nunan, Doutora em Psicologia Clínica e uma das autoras do livro.

Tais aspectos são chancelados por meio de dados decorrentes de vários estudos e análises, levando em consideração, por exemplo, informações do aplicativo Tinder e pesquisas na plataforma Google Trends relacionadas a enlaces amorosos durante a pandemia do novo coronavírus.

O e-book  “Relacionamentos Amorosos na Era Digital” é compatível com diferentes modelos do Kindle e pode ser lido no formato ePub. Também está disponível para venda por meio das lojas Amazon, Apple Books, Google Play e Kobo.

 

> Neste sábado (17), confira a quinta reportagem da série "Amor na pandemia", com relatos de casais cearenses que já dividiam o cotidiano juntos, mas reforçaram o contato devido ao isolamento social.

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