“Tinha dia que a gente não aguentava nem se olhar”, diz casal que intensificou convívio na pandemia

Quinta reportagem da série “Amor na pandemia” reúne impressões de casais que já dividiam o cotidiano juntos, mas reforçaram o contato devido ao isolamento social

Legenda: Casadas há dois anos e seis meses, Thais Viégas e Luana Maciel passaram a dividir o cotidiano de forma ininterrupta desde março, a fim de cumprir o isolamento social compulsório
Foto: Helene Santos

Durante quatro meses, o lugar mais distante para o qual Luana Maciel, 25, e Thais Viégas, 32, se dirigiam em meio à pandemia de Covid-19 era a portaria do prédio onde residem, no bairro Cidade 2000, em Fortaleza, a fim de receber alguma encomenda. Apenas.

Casadas há dois anos e seis meses, as publicitárias passaram a dividir o cotidiano de forma ininterrupta desde março, no intuito de cumprir o isolamento social compulsório – principal estratégia para coibir a proliferação do novo coronavírus. Agora, a partir da leve diminuição do tempo de convivência entre ambas, tendo em vista que Thais voltou a trabalhar presencialmente, Luana avalia como se deu o processo de intensificação do convívio entre o casal.

“Foram dias e dias. Tinha dia que a gente não aguentava nem se olhar, dia em que a gente só se amava, dia ‘meio termo’, e por aí vai. No geral, foi tranquilo, nós sobrevivemos”, confessa, às gargalhadas. 

“Mas a gente chegou à conclusão de que, conviver 24 horas por dia debaixo do mesmo teto durante um isolamento social no qual não se tinha a menor noção de quando teria fim, é uma experiência única no sentido de crescimento e entendimento de uma pessoa e do casal”, completa.

Luana percebeu, por exemplo, que precisa cuidar mais de si e que, apesar de gostar muito de ficar em casa, a liberdade de ir e vir é algo muito valioso, sendo necessário aproveitar cada segundo desse privilégio. “Afinal, a pandemia veio para nos mostrar claramente que ninguém nunca sabe o dia de amanhã”.

Legenda: Diante da intensa presença em casa, o casal vivenciou diferentes momentos de ânimo e humor, aprendendo com cada um deles
Foto: Helene Santos

Ela detalha ainda a dinâmica de contato com a esposa no período de isolamento mais rígido. Para que ambas conseguissem cumprir bem as atividades do dia – sejam relacionadas à casa, sejam aquelas ligadas ao trabalho – alguns ajustes precisaram ser feitos.

“A gente mora em um apartamento relativamente pequeno para duas pessoas viverem trabalhando em regime de home-office. Então, era aí que vinha o nosso cuidado, principalmente nas pequenas coisas, como um ‘Amanhã tenho reuniões nesses tais horários, dá certo pra você? Não vai te atrapalhar?’ ,’Você marcou alguma reunião nesse horário?’ ou ‘Vou mandar um áudio aqui, te atrapalha?’, ‘Que horas a gente para pro almoço?’, e por aí vai”, descreve.

Não sem motivo, ela percebe que o aconchego que uma passou a desenvolver com a outra –  apesar dos entraves naturais devido à convivência irrestrita – cresceu de forma imensurável. “Não que ele não existisse, muito pelo contrário: o que já era grande, tornou-se ainda maior”.

“A pandemia me fez acreditar que foi um divisor de águas para muitos relacionamentos. Creio que os casais que sobreviveram à convivência durante o isolamento, sobrevivem a tudo” ri. “Quanto à maneira de nos relacionamentos amorosamente nesse ‘novo normal’, de um modo geral, acredito que não vai mudar muito. Isso pelo fato de que nós, seres humanos, somos feitos para nos relacionarmos – seja lá de qual maneira você, leitor, acredite”, conclui Luana.

Legenda: Trabalhar em regime de home-office num apartamento tão pequeno, ao mesmo tempo que trouxe desafios, também evidenciou o cuidado entre Luana e Thais
Foto: Helene Santos

Nuanças

Aprofundando aspectos da vida íntima de parceiras e parceiros que intensificaram o convívio durante a quarentena, a sexóloga e terapeuta de casais Mariana Oliveira cita algumas práticas que passou a ouvir de pessoas não apenas comprometidas, mas efetivamente unidas sob o mesmo teto neste instante de pausa compulsória das atividades presenciais. Para alguns casais, o isolamento social significou mais contato e intimidade com o(a) companheiro(a) no tempo de maior reclusão. 

“Entretanto, nesse período alguns casais vivenciaram também conflitos sexuais, por um querer sexo com mais frequência do que o outro.  Um momento de crise, como a pandemia, gera mudanças na libido e na abertura sexual de formas diferentes em cada pessoa. Algumas buscam mais sexo para sentir prazer e aliviar o desconforto e a ansiedade, enquanto outras não conseguem relaxar e se conectar sexualmente em um contexto marcado por tantas perdas e incertezas”, explica.

A estudiosa ainda destaca que a pandemia pode gerar uma supervalorização da sexualidade. Desta feita, fazer sexo, ter contato íntimo com alguém, relaxar e gozar se configuram como uma válvula de escape, negação ou fuga para algumas pessoas.

“Sexualidade gera prazer e intimidade, é fonte importante de vitalidade e saúde mental. É um momento oportuno para reconhecer que altos e baixos na sexualidade e nos relacionamentos são normais, mas que podem afetar nossa saúde e, por isso, merecem atenção e cuidado”, diz.

Legenda: "Creio que os casais que sobreviveram à convivência durante o isolamento, sobrevivem a tudo", diz Luana Maciel
Foto: Helene Santos

“Percebi um movimento interessante de novos clientes procurando terapia sexual durante a quarentena. Ao ficar ‘presos’ em casa, perceberam, de forma mais direta, os impactos negativos das dificuldades e conflitos sexuais com seus parceiros e decidiram buscar ajuda, a fim de diminuir o sofrimento e encontrar novas possibilidades de prazer em seu corpo e relacionamento”, complementa.

Presença e atenção reforçadas

Em 21 de julho deste ano, Antônio Lopes, 40, e Lires Almeida, 39, completaram 14 anos de casados. E, conforme demonstrou Mariana Oliveira, realmente sentiram o peso do convívio onipresente, apesar de todo o tempo de matrimônio. 

A preocupação com a saúde da família, segundo Lires, ganhou força nesse contexto, fazendo com que alguns sentimentos e atitudes ditassem a ordem dos dias. “O medo (do vírus) fez a gente surtar em alguns momentos”, relata.

Legenda: Lires e Antônio avaliam que os pontos positivos se sobrepuseram aos negativos no que toca à convivência ininterrupta do casal
Foto: Arquivo Pessoal

Ainda assim, o casal de empresários cearenses avalia que os pontos positivos se sobrepuseram aos negativos. A parceria se fortaleceu. “Realmente, a convivência nem sempre é fácil, principalmente quando se passa as 24 horas do dia juntos. Mas, com o passar dos anos, vamos aprendendo a driblar as diferenças. Esse período mesmo de isolamento nos fez ter mais atenção um com outro e tempo para brincar com nosso filho”.

O tempo de oração em família também aumentou – o casal professa a religião católica, sendo ativos no seguimento à Igreja – e brotou uma feliz percepção por parte de Lires: “Nesse período, vimos que o cuidado um com o outro é maior do que imaginávamos”.

“Relacionamentos não podem ser algo descartável. Passar mais tempo com a pessoa que dizemos que amamos tem que ser algo prazeroso, apesar das questões que se colocam todos os dias por conta da convivência. Com certeza vamos ter uma outra visão de relacionamento após esse período. Estar mais juntos nos ensinou que cada momento pode ser único”, conclui.

José Olinda Braga, Professor Doutor do Departamento de Psicologia da UFC e pós-graduado em Filosofia pela mesma instituição, afirma que, mesmo com o panorama de incertezas decorrente da pandemia, não há dúvida de que perceberemos uma maior tendência comportamental advinda desses novos tempos. 

Legenda: Momentos de oração e maior tempo com o filho deram o tom dos dias de maior confinamento na casa de Antônio e Lires
Foto: Arquivo pessoal

“Porém, não necessariamente numa direção ou noutras. Casais continuarão separando ou reconstituindo, reformulando, re-sinificando as relações. A única tendência segura de que podemos falar é a de que, havendo mudanças comportamentais – não apenas nas relações amorosas, mas em qualquer tipo de relação humana – haverá repercussões de toda ordem e em todas as direções, relativamente a novas estruturas comportamentais”, explica.

 

> Neste domingo (18), última reportagem da série "Amor na pandemia" traz um panorama com histórias de casais que decidiram se desvincular afetivamente durante a quarentena e os motivos que os levaram a fazer essa escolha

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