Positividade de testes Covid tem ‘pequeno’ aumento no Ceará em maio

Neste mês, a cada 100 exames, 8 são positivos. Em março e abril, os índices foram menores. O indicador precoce reflete mudança no cenário epidemiológico.

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br

Ceará
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Legenda: A quantidade de testes feitos no atual momento é considerada baixa, e esse é outro ponto que merece atenção.
Foto: Fabiane de Paula

O Ceará continua vivendo um cenário de estabilidade nos casos de Covid, mas neste mês, até o dia 19, a taxa de positividade teve um pequeno aumento se comparada à proporção do mês anterior. Enquanto em abril, a cada 100 testes no Estado, 5 eram positivos, em maio, até o momento, a cada 100 exames, 8 confirmam a doença.

O crescimento chama atenção pois esse é um indicador precoce e evidencia aspectos da circulação do vírus.  

Os dados foram extraídos do Integrasus, plataforma da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), na manhã de sexta-feira (20). Nos registros constam que em maio, até o dia 19, foram realizados 9,4 mil testes de Covid no Estado. E desses, 792 foram positivos.

A taxa de positividade é a 4ª menor de todos os meses da pandemia. Mas, também vem tendo “pequenos” aumentos desde março.  

Em março, a taxa era de 5,4%, em abril foi de 5,6% e agora é de 8,4%. Em janeiro, no auge da terceira onda, a positividade chegou a 46,99%.  O índice é uma proporção. Em cada mês, o total de exames realizados foi diferente. 

Quantidade de testes é baixa

A quantidade de testes feitos no atual momento é considerada baixa. Esse é outro ponto que merece atenção. Em abril, por exemplo, foram realizados 22.018 testes no Estado. É o menor número em um mês completo desde o início da pandemia. 

Os indicadores devem ser considerados dentro de um conjunto, assim como é preciso compreender o cenário local, estadual e nacional, explica o médico infectologista e consultor em infectologia da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE), Keny Colares. 

Ele detalha que no monitoramento local os dados tendem a ser mais precisos e há indicadores precoces, aqueles que sofrem alterações logo no início de mudança de cenário epidemiológico. No caso, são eles:

  • Taxa de positividade dos exames
  • Taxa de concentração do vírus nos esgotos

“O índice de positividade subiu um pouco que não é tão pouco. Há algumas semanas, ele (índice de positividade) era cerca de 3% agora está próximo de 10%. Esse é um indicador precoce, geralmente é um dos primeiros que aparece alterado”.  
Keny Colares
Médico infectologista

De acordo com o médico, depois desse fenômeno, geralmente, aumenta o número de atendimentos nas unidades, a detecção de casos e, por último, o de óbitos, que é considerado um indicador tardio. 

Necessidade de continuar testando

“A situação preocupa porque desde o começo da pandemia a gente nunca testou tão pouco. Há pessoas com síndrome gripal que não fazem mais teste e isso é ruim porque parece que o problema não existe”, explica o médico. 

No cenário nacional, explica Keny, o Brasil está tendo aumento do número de casos, principalmente no Sudeste. “Estamos em uma situação de indicadores melhores. Mas ainda há pessoas morrendo e a gente acaba aceitando como uma coisa normal”, acrescenta. 

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Legenda: Nos registros constam que em maio, até o dia 19, foram realizados 9,4 mil testes de Covid no Ceará
Foto: Thiago Gadelha

Ele ressalta que, no atual momento, as pessoas deveriam testar, fazer o isolamento em caso de contaminação, e aconselha que aquelas que convivem com pessoas com fatores de risco, podem optar por continuar usando máscaras em determinados ambientes.

“Não podemos voltar a fazer tudo o que fazíamos antes da pandemia. Temos que tirar algum aprendizado”, pondera. 

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado (Sincofarma), Fábio Timbó, diz que a demanda por testes rápidos (realizados no próprio estabelecimento por um farmacêutico) e por autotestes (adquiridos e feitos nas próprias residências) nas farmácias de Fortaleza é completamente reduzida no atual momento. 

“Não está tendo fila, não está tendo agendamento. Todas as farmácias que ofertavam continuam ofertando. Mas, os testes rápidos praticamente não estão sendo realizados”. 
Fábio Timbó
Presidente Sincofarma

Timbó destaca ainda que na 3ª onda da Covid houve uma corrida inesperada para as farmácias e drogarias e em janeiro chegou a ter teve falta de teste rápido para a detecção da Covid. 

“Havia uma luta grande no varejo para que fosse aprovada a venda no autoteste. Conseguimos junto à Anvisa autorização. E vários estabelecimentos compraram o autoteste, mas para a nossa surpresa, em Fortaleza praticamente não está tendo procura. Outros estados estão tendo a compra”. 
Fábio Timbó
Presidente do Sincofarma

O que diz o monitoramento do esgoto?

Um documento  do dia 17 de maio, do Centro de Inteligência em Saúde do Estado do Ceará (Cisec), indica que, conforme a Rede de Monitoramento Covid Esgotos, foram observados  aumentos progressivos nas concentrações do vírus SARS-COV-2 nos esgotos de Fortaleza, há quatro semanas consecutivas. 

O Cisec alerta para o agravamento das condições epidemiológicas a partir das análises das concentrações do vírus.

No documento consta que a situação epidemiológica pode inclusive estar parcialmente mascarada pelo regims de chuvas que caracteriza esta época do ano. O Cisec recomenda atenção máxima para a detecção de novos casos de Covid”. 

Liberação das máscaras

No Estado, desde o dia 21 de março, o uso de máscara deixou de ser obrigatório em locais abertos, e desde o dia 15 de abril, a obrigatoriedade caiu em lugares fechados. Mas, em hospitais, policlínicas e postos, e veículos de transporte público o uso obrigatório permanece. 

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Legenda: Em janeiro, no auge da terceira onda, a positividade chegou a 46,64% no Estado.
Foto: José Leomar

O epidemiologista e docente da Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano Pamplona, destaca que “se a gente recordar no tempo, há um ano, se ouvisse falar que alguém que você teve contato no dia anterior testou positivo, você corria e testava.  O que está acontecendo nesse momento? Eu tenho pouquíssima gente testando. E aquela que vai testar é que provavelmente já descartou todas as outras possibilidades”. 

Ele reforça que a positividade é um indicativo de que há ainda circulação viral.

“É isso que nós temos que ter a compreensão. A gente não deixou de ter a circulação viral. Mas ela está num nível que a gente consegue conviver sem a necessidade daquelas medidas de isolamento, sem a necessidade do uso irrestrito de máscara”. 
Luciano Pamplona
Epidemiologista

Contudo ele destaca que o decreto do Governo não obriga uso de máscara, mas continua recomendando. “Então esse é o cenário que a gente tem que imaginar. A gente vai conviver ainda com isso por longo período provavelmente”, finaliza.