Carmen Camaleonte se destaca na cena artística cearense por unir hip hop e cultura drag

Comum EP lançado e trabalhos com literatura e teatro, artista é um dos novos nomes da cena rap de Fortaleza

Carmen Camaleonte
Legenda: Com cinco faixas, EP "Ocário" apresenta o universo de Carmen Camaleonte

"Nasci no Jangurussu. Tanto em vida, como artisticamente", conta orgulhosa a rapper e drag queen Carmem Camaleonte. Unindo mundos e expressões culturais tão diferentes, porém semelhantes na luta contra preconceitos e desigualdades, a artista desenvolve um trabalho sonoro ancorado na estética "vaporwave". Esse universo se permite ao "hip hop lo-fi" que evoca o clima dos anos 2000.

A trajetória da cantora e compositora começa nos palcos da Rede Cuca. Já contava um ano de trabalho e mergulho na cultura drag quando as possibilidades do hip hop viraram realidade. "Senti que precisava fazer coisas mais fortes. Causar mais impacto na arte drag e falar sobre coisas que são latentes pra mim", descreve a artista. 

A poesia e crueza com as quais reflete a realidade se encaixaram na proposta ritmica do rap. O caminho de Carmem chegou até o estúdio da C2F Records, que atua na área do Jangurussu. Com Mateus da Silva e Ardack (fundadores da C2F), ela começou a costurar e casar as primeiras batidas e rimas.

Estúdio

"Orcário" foi lançado em abril de 2020. Entre os nomes envolvidos no projeto, estão Leona Who (drag queen que também mora pelo Jangurussu) e $ousa. Ao todo, contabilizam dois anos de dedicação. No entanto, Carmem explica que o processo não foi linear e o longo tempo reflete as dificuldades de atuar com arte. 

“Foi de altos e baixos. Tem a extrema dificuldade das pessoas não quererem reconhecer sua arte como trabalho. Em cima da arte drag, ainda fazer hip hop. Daí, dentro da cena, não acreditam e acham que você faz uma ‘grande brincadeira’, descreve.  

“Essas letras falam muito do meu processo enquanto descoberta de drag. De uma pessoa que trabalha com rap e faz música
Legenda: “Essas letras falam muito do meu processo enquanto descoberta de drag. De uma pessoa que trabalha com rap e faz música", afirma Carmen Camaleonte

São cinco faixas. "Afronte", "Orca", "Orcário", "Jump the Catraca" e "Grave". A escolha dos temas exploram essa busca da força interior. "Essa ideia do animal orca como sinônimo de poder. Essa força, virilidade, quando as pessoas invadem seu espaço. Uma imagem forte daquilo que somos", aponta.    

Realidade

Carmem Camaleonte descreve que o eixo cultural de Fortaleza é distante da periferia. Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Dragão (CDMAC), Centro, Praia de Iracema e redondezas são inacessíveis. “Isso dificulta o nosso trabalho. Vamos passando por cima. Vemos que não temos outra opção. Ou faz ou não faz, entende? É desafiar a si e as probabilidades, pois o nosso trabalho precisa ser feito. Para além de migrarmos para outro eixo cultural, é criar uma própria rota cultural dentro da periferia. Os artistas se dão apoio”, repercute a cantora. 

Nesse signo de entrega, de se desafiar, Carmem chegou à terceira fase dos Laboratórios de Música do Porto Iracema das Artes. A experiência foi positiva, avalia. Trabalhar num meio artístico como o hip hop é uma constante reivenção. “Esperam algo pop. É um choque. Isso me desafia. No que posso criar, qual o próximo passo pra que eu use da minha voz, enquanto drag no palco, pra falar sobre o que eu preciso. Como os outros vão me enxergar e se enxergarem", explica. 

Indiferente às desconfianças, produzir e criar são o caminho. “Estamos tomando o que é nosso. Era bem mais difícil, complicado. Achavam que mulheres e LGBTQI+ não podiam estar dentro do rap. Temos visto eclodir, insurgente, essa galera vindo com um trabalho ainda mais forte. Não tem como fingir que não é real ou não está acontecendo", comemora Carmem Camaleonte. 

 

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