Ceará investiga quatro casos suspeitos de Mpox, mas Sesa descarta cenário de alerta

Autoridade sanitária afirma que oito notificações da doença já foram descartadas em 2026.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
(Atualizado às 16:31)
Imagem mostra, em close-up, um homem de costas com lesões de mpox, varíola dos macacos ou monkey pox.
Legenda: Condição causa bolhas doloridas na pele, que podem ser planas ou levemente elevadas, preenchidas com líquido claro ou amarelado, podendo formar crostas.
Foto: Rima das Mukherjee/Shuttertsock.

O Ceará possui quatro casos suspeitos de mpox, revelou nesta sexta-feira (27) a Secretaria da Saúde (Sesa). Apesar da investigação, o Estado não confirma infecções desde 2025, quando registrou 13 ocorrências, e, para a autoridade sanitária, o atual cenário epidemiológico não é de alerta. 

Ao Diário do Nordeste, o secretário executivo de Vigilância em Saúde, o médico epidemiologista Antonio Silva Lima Neto, conhecido como “Tanta”, detalha que neste ano o território cearense registrou 12 notificações relacionadas ao vírus, sendo oito delas descartadas até essa quinta-feira (26).

Os quatro que continuam em investigação, a gente espera que, em breve, consiga ou descartar, ou confirmar, mas não temos nenhum caso confirmado em 2026.”
Antonio Silva Lima Neto
Secretário executivo de Vigilância em Saúde

Embora as notificações permaneçam baixas, o gestor ressalta que o Estado mantém o monitoramento preventivo, sobretudo de casos graves. Na realidade, ele explica que, atualmente, a atenção das autoridades de saúde está voltada para o crescimento das síndromes gripais, que aumenta a busca por atendimento médico em locais como Fortaleza.

O cenário da mpox local difere do nacional, que registra 88 infecções somente neste ano, especialmente em São Paulo, que acumula 63 casos desde janeiro.

Ceará registrou mais de 500 casos da doença desde 2022

Dados do Ministério da Saúde (MS) indicam que, desde 2022, quando o vírus da doença foi registrado no Brasil pela primeira vez, 546 pessoas foram acometidas pela condição em território cearense. Desse total, 90% concentraram-se no primeiro ano de circulação da condição, quando houve 496 infecções confirmadas.

Nos anos seguintes, os casos foram esporádicos, não chegando a duas dezenas por ano. Essa queda, segundo o secretário Tanta, seria resultado de uma série de fatores, entre eles a baixa capacidade de transmissão do agente, que se apresentaria por meio de surtos esporádicos.

"Inicialmente, a OMS [Organização Mundial da Saúde] avaliou que poderia estar diante de uma nova pandemia, e que não se configurou dessa forma, provavelmente pela limitação mesmo do próprio vírus. O vírus da mpox, para ser pandêmico, precisaria ter outras características, sobretudo uma capacidade de transmissão muito maior do que na verdade ele tem", aponta o epidemiologista. 

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Possível mudança no padrão de transmissão do vírus

Segundo o MS, a condição zoonótica é transmitida pelo contato entre pessoas com indivíduos, objetos e animais infectados. No entanto, o gestor da Sesa destaca que, atualmente, a transmissão é fundamentalmente sexual, semelhante às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), como a sífilis e o HIV.

“É provável que tenha havido algum nível de modificação genômica do vírus. Inclusive, ele mudou de padrão. [...] Da perspectiva de 2022, a transmissão era fundamentalmente relacionada à mucosa, contato pele a pele, beijo, compartilhamento de objetos, mas ela voltou com um padrão muito mais de transmissão sexual.”

Além de seguir recomendações como evitar contato direto com as erupções e lesões na pele, fluidos corporais (pus, sangue das lesões) de pessoas doentes, o médico reforça a importância da prevenção por meio do uso de preservativo em relações sexuais. 

A mpox, caracterizada pela formação de bolhas doloridas na pele, apresenta os primeiros sintomas de três a 21 dias após o contato com o vírus. Em média, o quadro dura de 2 a 4 semanas, podendo ainda causar febre, fraqueza, inchaço de linfonodos, dores de cabeça e no corpo, conforme o Ministério da Saúde. 

Qual o panorama da mpox no Ceará?

Pesquisadores na Dinamarca descobriram o vírus em 1958, ao investigar um surto em macacos oriundos do continente africano. O primeiro caso em humano aconteceu 12 anos depois, em uma criança da República Democrática do Congo. Nas décadas seguintes, infecções de mpox foram registradas, majoritariamente, em países da África Central e Oriental.

Devido à origem, a doença foi chamada de “varíola dos macacos” ou “monkey pox”, nomenclatura posteriormente alterada para mpox. 

Em 2022, ela se espalhou pelos demais continentes, chegando ao Brasil em 9 de junho, quando o Ministério da Saúde registrou o primeiro caso em São Paulo. O vírus demorou 20 dias para desembarcar em território cearense. Na época, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) divulgou que um homem de 35 anos, residente em Fortaleza, foi infectado ao se deslocar entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, que já acumulavam diversos casos.

Naquele ano, o número de pacientes no Estado cresceu continuamente a partir da semana epidemiológica (SE) 31 — de 31 de julho a 6 de agosto —, conforme o Ministério da Saúde. O cenário se intensificou nas semanas 36 e 37 — de 4 a 17 de setembro —, quando 113 casos foram confirmados no Estado. O ritmo de transmissão caiu a partir de novembro, encerrando 2022 com um total de 546 infectados por mpox.

Não há casos da Mpox no Ceará até agora em 2026, diz Sesa

A tendência de queda no Ceará seguiu nos anos seguintes. Em 2023, 2024 e 2025, o estado registrou, respectivamente, 11, 26 e 13 pessoas com a doença. O último paciente foi contabilizado em dezembro do ano passado. Em 2026, não há infecções confirmadas até esta sexta, conforme a Sesa.

Apesar do volume de casos, a letalidade da doença permaneceu baixa. No cenário nacional, entre 2022 e 2026, foram registrados 19 óbitos por mpox. No território cearense, não há confirmação de morte relacionada à mpox.

Quanto ao perfil epidemiológico, homens jovens, com idade entre 18 e 39 anos, representam 90% dos indivíduos que contraíram a doença no Ceará desde 2022. As mulheres correspondem aos 10% restantes. Outro ponto comum entre os pacientes é a orientação sexual: 49% se declaram homossexuais. 

No entanto, como destaca o secretário Tanta, isso não quer dizer que homens que fazem sexo com outros homens são a população de risco para a doença. “A grande maioria dos casos se apresentou nesse grupo, principalmente os que foram notificados, pois há uma fração de casos que não foram notificados. Mas é muito provável que, principalmente os que cursaram com o maior nível de gravidade, foram os que ocorreram em pessoas com esse perfil”.   

Geograficamente, a Fortaleza segue como o principal local de concentração, registrando 443 casos até o fim de 2025, seguida por Caucaia e Maracanaú, conforme dados antigos da Sesa.

Tem vacina para mpox?

Para conter o avanço da patologia, o Ceará recebeu, a partir de março de 2023, as primeiras doses da vacina contra a mpox. O imunizante passou a ser aplicado no público prioritário — pessoas que vivem com HIV/aids e profissionais de laboratório. Das 3 mil doses recebidas, 2.397 foram aplicadas: 1.769 correspondem à primeira etapa e 628 completaram o esquema vacinal, conforme dados da Sesa de 2024.

Qual tratamento para mpox?

Segundo o Ministério da Saúde, a identificação da mpox ocorre por meio de análise laboratorial, realizada via teste molecular ou sequenciamento genético. A coleta é obrigatória para todos os casos suspeitos e prioriza a secreção das lesões ou, em estágios mais avançados, as crostas da pele. 

Como a maioria dos casos apresenta sintomas leves ou moderados, a Pasta federal detalha que o tratamento é baseado em suporte clínico para aliviar dores, prevenir complicações e evitar sequelas. Esse protocolo de cuidado resultou em um baixo índice de hospitalização em território cearense desde o início do monitoramento. 

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