Jejum de palavras: a maior de todas as penitências
Em um mundo de excessos de consumo, de excesso de palavras, algumas vazias e outras carregadas de ódio, o Papa Leão XIV propõe uma reflexão profunda sobre o verdadeiro significado da Quaresma. Este período litúrgico é apresentado como uma pausa necessária entre o Carnaval, símbolo da exaltação dos sentidos, das aparências, da festa da carne (Carnaval), e a Páscoa, que representa a essência, a luz e o sentido maior da existência cristã.
Nesse período, somos convidados à introspecção e ao resgate da nossa dimensão interior, buscando renovar o sentido da vida e fortalecer a fé cristã. Ao nos afastarmos dos excessos externos, somos chamados a revisitar nossa interioridade, reconhecendo aquilo que realmente nos sustenta. Essa jornada interior nos permite ressignificar valores e atitudes, abrindo espaço para a conversão do coração e para o reencontro com nossa essência espiritual.
Durante a Quaresma, a Igreja Católica incentiva o foco na mensagem de Cristo como resposta à crise de valores, ética e humanidade promovida pelo materialismo. A Quaresma propõe resgatar a espiritualidade para fortalecer princípios como dignidade, solidariedade e compaixão em nível pessoal e coletivo, fundamentais para uma convivência justa em meio à diversidade social.
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Em sua mensagem para a Quaresma de 2026, o Papa Leão XIV enfatiza que esse é o momento em que a Igreja nos convida a recolocar as palavras, as mensagens do evangelho no centro da vida cristã e destacou três grandes ideias para nossa reflexão:
1. A Quaresma como tempo de conversão e integração da dimensão espiritual no quotidiano da vida relacional
A demolição dos valores civilizatórios e o esquecimento e até mesmo a negação da dimensão espiritual que o mundo contemporâneo atravessa são a grande responsável pelas profundas crises que vivemos. Observa-se um processo de erosão dos valores civilizatórios que historicamente sustentaram a convivência, o cuidado com o outro e o sentido coletivo da existência.
Nesse cenário, a lógica dominante tem privilegiado quase exclusivamente a dimensão material do poder econômico e político, relegando a segundo plano — ou mesmo ignorando — a dimensão espiritual que dá sentido e limite à ação humana. Quando o poder é exercido apenas a partir de indicadores econômicos, produtividade, controle e força, a vida tende a ser reduzida a números, resultados e interesses imediatos. Essa atitude parcial e unilateral fragiliza princípios como dignidade, solidariedade, compaixão e responsabilidade ética.
Quando perdemos a dimensão espiritual, nossas vidas perdem o sentido profundo do existir. Essa constatação vale não apenas para estruturas de poder de nações hegemônicas, mas também para cada um de nós, indivíduos. As grandes civilizações compreenderam que o poder sem transcendência degenera em dominação, e que a ausência de valores espirituais abre espaço para a violência simbólica, a exclusão social e o esvaziamento do sentido coletivo e a instauração da barbárie.
Seguindo essa perspectiva, o tempo da Quaresma torna-se um convite para que cada um de nós repense a maneira como se relaciona com o outro, colocando o respeito, a delicadeza e a escuta ativa no centro das interações. O exercício do silêncio, muitas vezes, revela-se tão poderoso quanto o uso da palavra, aqui menos é mais. Além disso, é fundamental reconhecer que gestos concretos de solidariedade e reconciliação podem ser sementes de mudança em ambientes marcados por intolerância e indiferença.
A prática diária de atitudes que promovem o entendimento mútuo e o cuidado com as palavras fortalece a convivência e cria pontes entre as diferenças, promovendo uma cultura de paz e respeito. Que possamos, neste período, ser instrumentos de unidade e esperança, inspirados pelo exemplo de Cristo e pela força renovadora da espiritualidade quaresmal.
2. Escutar o clamor dos nossos semelhantes que sofrem.
É a nossa forma de perceber o mundo que orienta o comportamento, legitima as atitudes e determina as ações. O cristão é chamado a olhar a realidade com a sensibilidade e a profundidade do olhar de Cristo. Não se pode afirmar cristão quem enxerga o mundo apenas com a lógica do lucro ou de seu partido político ou com um olhar que desumaniza, tratando minorias, migrantes com desprezo, como coisas e não como pessoas. A escuta da Palavra de Deus, que prega o amor ao próximo e a solidariedade, deve ser bússola e lente para interpretar a realidade ao nosso redor.
Esse olhar atento nos permite perceber o clamor dos pobres, das minorias oprimidas, dos migrantes e de todos aqueles que sofrem. Se tivermos em nossas mentes e corações os ensinamentos de Cristo, seremos capazes de ver em cada pessoa que enfrenta preconceitos, que busca trabalho, foge de guerras ou simplesmente pensa diferente de nós, a imagem materializada do Cristo.
Somente uma escuta qualificada, fruto de uma espiritualidade profundamente cristã, nos torna capazes de acolher e compreender verdadeiramente o outro, enxergando nele a presença divina e respondendo com compaixão e justiça. É esse olhar compassivo que deve ser o DNA de um cristão: conseguir acolher sem julgar o outro e amar o outro como a si mesmo.
3. Jejum de palavras ofensivas que ferem.
As palavras, mesmo sem contato físico, podem causar feridas profundas, atacar, humilhar e excluir, deixando marcas duradouras na vida das pessoas. Muitas pessoas carregam traumas e continuam sofrendo devido a palavras ofensivas que ouviram ao longo da vida, seja na infância, na família, na escola, nas igrejas ou nas redes sociais.
A Quaresma nos desafia a estar atentos às palavras que saem de nossas bocas, a desenvolver uma comunicação mais consciente e compassiva, reconhecendo que cada palavra que sai de nossa boca tem o potencial de construir ou destruir. Que cada atitude deve guardar coerência entre o que percebemos, falamos e vivemos.
Ao adotarmos o jejum de palavras precipitadas e nos dedicarmos à escuta ativa, criamos espaços de diálogo verdadeiramente acolhedores, onde o respeito e a empatia florescem. Na escuta ativa, a palavra, a narrativa do outro, desperta em mim a minha história, meus valores e me possibilita crescer como pessoa.
Escutar sem julgar melhora relações familiares, profissionais e comunitárias. Na família, promove acolhimento e reduz conflitos. No trabalho, fortalece equipes e líderes atentos inspiram confiança. Colaboradores que ouvem promovem um ambiente produtivo. Na comunidade, a escuta amplia perspectivas e favorece a convivência pacífica.
É nesse contexto que o silêncio se torna uma ferramenta poderosa de transformação, permitindo que a reflexão preceda a resposta e o coração seja tocado antes de qualquer julgamento. O convite é para que, neste tempo sagrado, revejamos nossas atitudes e busquemos ser instrumentos de cura, esperança, agentes de paz, reconciliação e fraternidade em todas as nossas interações.
Na cultura dos povos originários guarani, há um profundo simbolismo no fato de que as palavras para “palavra” e “alma” compartilham a mesma caligrafia ou raiz linguística.
Essa coincidência não é apenas um detalhe linguístico, mas revela uma visão de mundo na qual a comunicação, a palavra e o espírito estão intrinsecamente ligados. Para os guarani, falar não é apenas emitir sons, mas manifestar a essência do ser; a palavra é expressão da alma.
Assim, o cuidado com o que se diz ganha um significado ainda mais profundo, pois ofender com a palavra é também ferir o outro em sua dimensão mais íntima e sagrada. Essa reflexão nos convida a olhar para nossa própria relação com a linguagem, reconhecendo o poder transformador — para o bem ou para o mal — que ela carrega quando nasce do coração.
O Pontífice nos convida a estarmos atentos às palavras que saem de nossas bocas e sugere que o jejum e a abstinência que compõem os rituais da quaresma não fiquem apenas nas coisas materiais, mas sim incluamos o jejum de palavras que saem de nossas bocas. Neste sentido, jejuar é diminuir, é controlar, escolher o que entra em nossa boca e o que sai dela.
Jesus afirma: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca: isso é o que contamina o homem.” (Mateus 15,11). E a explicação de Jesus, logo adiante, aprofunda o sentido: “O que sai da boca procede do coração, e isso é o que contamina o homem.” (Mateus 15,18).
Conhece-se a árvore pelos frutos e se conhece um cristão, um homem espiritualizado por suas atitudes e palavras. O problema hoje não é falta de fé e sim falta de amor. O jejum de palavras não é apenas evitar dizer o que fere, mas também empenhar-se em proferir palavras que edifiquem, consolem e inspirem.
Essa conversão do coração se reflete em atitudes cotidianas: um conselho dado com ternura, um pedido de desculpas sincero, um elogio verdadeiro ou simplesmente o silêncio respeitoso diante da dor do outro. Assim, a Quaresma se torna um convite para que nossa comunicação seja fonte de reconciliação e esperança, sendo luz onde há escuridão e promovendo a paz nos relacionamentos.
Portanto, ao abraçarmos o jejum das palavras que saem de nossas bocas e a compaixão do coração, não só nos aproximamos mais de Deus, mas também contribuímos para a construção de uma sociedade mais fraterna, inspiradas nos ensinamentos cristãos. A palavra, quando usada com sabedoria, tem o poder de curar feridas antigas e de abrir caminhos para o perdão e a restauração.
Que este tempo quaresmal seja, então, uma oportunidade de renovar nosso compromisso com o amor, a empatia e a verdade em todas as nossas relações. O Papa destaca a importância de desarmar a linguagem, renunciando a palavras mordazes, calúnias e julgamentos precipitados. Cultivando gentileza e promovendo uma maior responsabilidade pelo próximo e à construção da chamada “civilização do amor”, para a comunicação ser instrumento de justiça e compaixão.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.