Quando a educação transforma humanos em tiranos
O respeito, a empatia e a capacidade de conviver em sociedade acabam ficando em segundo plano, promovendo dominação em vez de cooperação ou compreensão.
Crianças que são desejadas e aguardadas com expectativa frequentemente assumem, após o nascimento, o papel central em todo o ambiente familiar. Muito cedo, essas crianças percebem que comportamentos como choros, birras, gritos, esperneios e até chantagens são estratégias eficazes para conquistar o que querem.
Se, durante a infância, não houver imposição de limites ao seu querer, acabam vivendo como pequenos príncipes, em um universo onde barreiras físicas e éticas não se apresentam para conter o desejo impetuoso de tocar, possuir ou obter tudo o que seus olhos veem e suas mãos alcançam.
A frustração torna-se uma experiência insuportável. A criança pergunta-se por que deveria renunciar a algo se pode obter tudo o que deseja? O ego ainda imaturo faz com que ela se enxergue como superior a tudo e a todos, tratando as demais pessoas como súditos cuja função é servi-la e aplaudi-la. Por outro lado, esse excesso de liberdade deixa a criança ansiosa, pois ela se sente desprotegida e entregue aos seus próprios impulsos.
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Sem limites claros, ela pode experimentar uma sensação de insegurança, não sabendo até onde pode ir, o que contribui para o aumento da ansiedade e da dificuldade de lidar com frustrações.
A partir desse comportamento, começam a surgir traços que compõem uma personalidade egoísta. O egoísmo, por sua vez, leva a criança a desejar possuir coisas e manipular pessoas, além de buscar ser o centro de todas as atenções ao seu redor.
Nesse cenário, apenas o próprio desejo e a própria vontade importam. O objetivo é sempre o melhor para si, sem nenhuma consciência ou respeito pelos direitos do outro.
Intelecto contra formação do caráter
Na infância, o enfoque tradicional da educação está voltado principalmente para o desenvolvimento intelectual. O ensino de habilidades como leitura, escrita e a aquisição de conhecimentos técnicos se destaca como prioridade nos processos educativos.
Essa abordagem frequentemente negligencia aspectos essenciais, como a formação do caráter e o desenvolvimento da consciência sobre a existência do outro.
O respeito, a empatia e a capacidade de conviver em sociedade acabam ficando em segundo plano, promovendo dominação em vez de cooperação ou compreensão. Ensinar a compreender o outro, diferente de mim, é fundamental para abrirmos a mente para pensar e o coração para sentir, acolher, aprendendo a valorizar aquilo que o outro sente, pensa e necessita.
Esse processo é essencial para o desenvolvimento de relações saudáveis, ao permitir que a criança reconheça e respeite os limites, sentimentos e necessidades de quem convive consigo.
O reconhecimento das diferenças e a capacidade de se colocar no lugar do outro são elementos-chave para a construção de um caráter íntegro, baseado no respeito às individualidades. Dessa forma, contribui-se para a formação de pessoas mais sensíveis, capazes de dialogar, pedir perdão e agradecer, consolidando valores que favorecem a vida em sociedade.
Ao priorizar apenas o saber e a competição, sem promover valores éticos e habilidades socioemocionais, a educação arrisca transformar humanos em tiranos. Por exemplo, quando testemunhamos a crueldade no uso da violência contra um adversário, como ocorre entre torcedores de times rivais, vemos agressões físicas como chutes ou ataques com barras de ferro, sem nenhuma demonstração de empatia ou compaixão.
Esse jovem ou adulto agressor revela claramente que não aprendeu a ser empático, ao agir movido apenas pelo próprio impulso e pela ausência de consciência sobre o sofrimento do outro.
Estabelecendo limites e promovendo a convivência social
É responsabilidade dos pais ou educadores auxiliar o filho a compreender que, ao viver em sociedade, seu direito encontra limites a partir do momento em que começa o direito do outro. Esse entendimento é fundamental para a construção de relações saudáveis e respeitosas, evitando comportamentos egocêntricos e promovendo uma convivência harmoniosa.
Educar para a convivência significa ensinar as crianças a se relacionarem com os outros, de maneira ética e colaborativa, desenvolvendo empatia, gratidão e a habilidade de pedir perdão quando magoam alguém de seu convívio.
É igualmente importante ensinar os filhos a lidar com as frustrações que surgem diante de negativas e limites impostos. Aprender a aceitar o “não” é parte fundamental do amadurecimento, permitindo que a criança saiba respeitar regras e compreenda que nem sempre é possível satisfazer todos os seus desejos.
A busca por superioridade e reconhecimento
No mundo adulto, seu comportamento continua o mesmo. Como diz o provérbio: “costume de casa vai à praça”. O egocentrismo infantil é incorporado ao mundo adulto. Quer ser o maior e o melhor de todos. Eu sou o primeiro, minha família é a primeira e a mais importante, minhas empresas devem ser as mais prósperas economicamente e o meu país o primeiro e mais poderoso, a quem os outros devem se submeter.
Meu comportamento passa a ter traços de distúrbios que a psiquiatria classifica como megalomaníaco e paranoico. Os megalomaníacos tendem a se sentir superiores a todos, acreditando que merecem tratamento especial e desejando controlar tudo ao seu redor. Eles exigem admiração constante, querem ser temidos e reconhecidos como os melhores em todas as áreas e tomam decisões sem considerar as opiniões dos outros. Buscam poder ilimitado e agem como se estivessem acima das regras sociais.
No dia a dia, isso se manifesta por meio de uma postura autoritária, onde os outros são vistos como súditos que devem servir e aplaudir. Toda oposição é combatida sem piedade, e não há espaço para confiança ou colaboração genuína, apenas para submissão e obediência.
Os paranoicos desconfiam das intenções das pessoas, acreditam que todos estão contra eles e interpretam críticas ou contrariedades como ataques pessoais. Evitam compartilhar informações por receio de que sejam usadas contra si e reagem agressivamente a qualquer oposição. Sentem-se constantemente ameaçados e imaginam conspirações ou planos para prejudicá-los.
Nas relações, isso gera um ambiente de desconfiança, isolamento e conflito, dificultando o estabelecimento de vínculos saudáveis e colaborativos. Comportamentos, tanto megalomaníacos quanto paranoicos, reforçam o impacto negativo do egoísmo exacerbado nas relações pessoais e sociais, tornando os relacionamentos marcados por desconfiança, competição, hostilidade e ausência de limites éticos.
Os conflitos tomam proporções macros, globais. Os limites éticos e geográficos são desconsiderados. Continuo a querer possuir tudo e todos. Para eles, o mundo é dividido em dois: os meus amiguinhos que me aplaudem, admiram e tornam-se súditos obedientes, e os meus inimigos a quem uso de todos os meios para atacá-los, enfraquecê-los e tentar anexar, possuir o que eles têm e que eu não tenho.
Na infância, era o príncipe, o rei que comandava a casa. No mundo adulto, continua a ser o rei que não conhece limites. Se apropria do que não é seu e dá início ao ciclo do terror. Não são atitudes como essas que alimentam as guerras cujo objetivo é anexar, colonizar e se apropriar de riquezas que não possuo? O que sabemos da educação recebida dos que se acham os “donos do mundo”?
O desrespeito às leis e aos legisladores
O desrespeito às leis e aos legisladores atualmente pode ser entendido como uma extensão dos comportamentos egocêntricos e megalomaníacos desenvolvidos desde a infância, quando não são estabelecidos limites claros para o desejo individual.
A pessoa egocêntrica vê as leis como obstáculos à sua vontade, considerando qualquer oposição como ameaça ou ataque pessoal. Dessa forma, os legisladores são vistos como inimigos a serem combatidos, e não como representantes do bem comum.
O ambiente de desconfiança e hostilidade, presente nas relações interpessoais e sociais, alimenta a descrença nas instituições e reforça o comportamento competitivo e desrespeitoso.
Consequências do egoísmo exacerbado
O comportamento egocêntrico gera efeitos profundos tanto no ambiente familiar quanto no contexto social. Para a família, esse tipo de atitude promove conflitos, isolamento e ruptura de vínculos afetivos, uma vez que o respeito mútuo e o reconhecimento das necessidades do outro são deixados de lado.
No âmbito social, a ausência de empatia e cooperação resulta em competitividade excessiva, hostilidade e quebra de valores éticos, dificultando a construção de uma convivência harmoniosa.
A falta de valorização da diversidade, seja ela familiar ou nacional, impede o reconhecimento de diferentes perspectivas, culturas e formas de ser como elementos enriquecedores. Encarar a diversidade como um obstáculo leva à exclusão, à intolerância e ao fortalecimento de comportamentos autoritários, que enfraquecem o tecido social e impedem o desenvolvimento coletivo.
É imprescindível que os pais reflitam sobre a educação que transmitem às novas gerações. O desafio está em ensinar valores como respeito, empatia e reconhecimento da diversidade como fonte de riqueza e harmonia.
Ao promover esses princípios, os pais contribuem para a formação de indivíduos mais conscientes, colaborativos e preparados para viver em sociedade de forma ética e respeitosa.
Essas reflexões levam ao questionamento sobre a própria prática educativa: “Como estou educando meus filhos hoje?” A resposta a essa pergunta é fundamental para que se possa corrigir rumos, valorizar limites, cultivar o respeito ao próximo e preparar as novas gerações para uma convivência social mais saudável e inclusiva, sem espaço para todo tipo de tirania.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.